Quando o medo passa dos limites

O cotidiano de quem sofre de fobias específicas

Texto de Naildo Pedro e Higo Fernando

 

“Medo de ter, medo de perder
Cada um tem os seus
E todos tem alguns
Suando frio, as mãos geladas
Coração dispara até sufocar”

O trecho retirado da música da cantora Pitty relata bem a situação de pessoas sujeitas aos próprios temores. Em meio à multidão, por trás de cada olhar existem medos que ninguém imagina. A única certeza é que todos nós os temos. Quais são os seus? E como eles interferem na sua vida?

Cerca de 13% da população brasileira possui algum tipo de fobia, o mais preocupante é que menos da metade procura ajuda médica para resolução do problema por considerá-lo pouco relevante ou por receio do julgamento dos outros.

Todo ser humano sente medo, essa é uma característica saudável e normal. É um mecanismo de defesa natural do nosso corpo contra os perigos da vida e do meio que nos cerca. Porém, quando esse sentimento passa a ser uma reação exagerada e atrapalha as situações cotidianas, em vez de proteger, atrapalha. Provoca no indivíduo, dependendo do problema, sintomas físicos e mentais como falta de ar, ataques de pânico, isolamento social e consequentemente impactos negativos no bem-estar de quem é afetado pelo transtorno.

Isto é, fobias são caracterizadas por medos intensos e irracionais, por situações, objetos ou animais que objetivamente não oferecem ao indivíduo perigo real e proporcional à intensidade de tal medo, como temer dormir e não acordar mais, por exemplo, ou a figura de um palhaço ou de qualquer outra feição aparentemente inofensiva. A depender das circunstâncias, se não houver tratamento adequado o problema pode se prolongar da infância à fase adulta.

É o caso da dona de casa Sônia Lopes, de 38 anos. Ela sofre de duas fobias específicas – medo exagerado e desproporcional de objetos, animais ou determinada situação. As mais comuns estão relacionadas a insetos, altura, doenças e ambientes. Esse último é o caso da doméstica, que possui claustrofobia e escotofobia – medo de espaços fechados e de escuro respectivamente. Mas existe também fobias específicas relacionadas a eventos como andar de avião, ônibus ou elevador, ver sangue ou ferimentos, nadar e até se olhar no espelho.

Sônia tem pavor de ambientes fechados e de escuro. Prefere subir dez andares de um prédio usando as escadas do que entrar em um elevador. Ela começou a sentir medo excessivo quando ainda era criança. “Percebi que sofria desses problemas quando tinha 8 anos. Não gostava de brincar de esconde-esconde por ter que procurar lugares apertados. Recentemente precisei usar um elevador pressionada pelo meu marido. Senti minha visão embaçar e já ia cair, ele me segurou e quando as portas se abriram senti o ar voltar.”

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Sônia Lopes sempre dorme pronta para possíveis apagões.

Quando se vê diante do escuro, a dona de casa afirma entrar em pânico. Só de pensar na possibilidade de ficar na escuridão fica pálida. Por isso, deixa  velas, fósforos e lanternas próximos a cama. Caso falte energia, não hesita em recorrer a outras fontes de luz. “Quando falta energia o meu coração  acelera, fico ofegante, o ar começa a faltar, como se minha garganta fechasse. É uma agonia horrível, o mesmo que sinto em lugares fechados.”

Assim como Sônia, inúmeros brasileiros sofrem do mesmo problema, mas a busca por ajuda é relativamente pequena. Em Maceió, uma recente pesquisa realizada pelo Centro Universitário Tiradentes entrevistou aproximadamente 100 alunos do horário noturno que foram questionados sobre terem ou não algum tipo de fobia. 76 dos participantes são mulheres e 21, homens. O levantamento verificou que 62% dos participantes possuem algum tipo de fobia específica, com maior prevalência em mulheres, que representam 47% dos 62%. Em relação a procura pela ajuda psicológica, a maioria diz depender do medo trazer sofrimentos e perdas na vida da pessoa.grafico-04

Foram colocados alguns objetos e situações para que os participantes assinalas­sem qual(is) lhe causam medo excessivo e persistente, podendo responder a mais de uma alternativa, os seguintes resultados foram obtidos: Altura 18,8%, Animais 12,5%, Es­curidão 11,3%, Lugares fechados 9,4%, Doenças 8,8%, Aviões 6,2%, Tempestades 5,0%, Sangue-Injeções-Ferimentos (S-I-F) 5,0%, Elevadores 5,0%, Ruídos altos 4,4%, Água 3,7%, Engasgar 3,7%, Lugares abertos 0,6%, Vômitos 1,2% e Outros: Estresse, bruxos, lo­bisomem, ladrão, tarado, fogo e tartaruga 4,4%. A partir dos dados obtidos foi possível observar que a fobia do tipo ambiente natural (altura), de animal, escuridão e do tipo situacional (lugares fechados) são as mais frequentes entre os participantes.

 

CURIOSOS TEMORES

A estudante de enfermagem Larissa Gaia, de 19 anos, sofre de uma estranha fobia chamada heliofobia, medo irracional do sol. Embora pareça inofensivo, esse medo pode ser bastante grave e levar à deficiência de vitamina D como resultado de ficar dentro de casa o tempo todo ou só sair durante a noite. Ela recorda que o problema começou no ensino médio, aos 15 anos, e até então vem transformando sua vida em verdadeiros dias nublados.

Ela lembra que começou a sentir medo exagerado de se queimar e desenvolver câncer de pele, então passou a se esconder nas sombras e preferir sair à noite. “Não sei exatamente quando começou, sei que estudava pela manhã e ia e voltava de carro à escola para não me expor ao sol. Cheguei a faltar aula quando não havia possibilidade de ir de carro. Meus pais não desconfiavam, e eu também tinha vergonha de contar pra eles ou qualquer outra pessoa.”

Agora no ensino superior, a estudante ainda sofre impactos no cotidiano por conta do medo exagerado. “Como meu curso é integral, muitas vezes tenho que me deslocar para à faculdade ou outro local pelo dia. Isso já me deixa aflita, então começo a pensar no que fazer para evitar ao máximo o contato com o sol.”

Larissa sempre veste roupas longas, blusas que cubram os braços, não sai sem o protetor solar e sem uma sombrinha na bolsa. Ela também já conta com o auxílio de medicação para suprir a carência de vitamina D no organismo. Sobre buscar ajuda psicológica, a estudante diz achar que não há mais solução para o problema, e que pode viver normalmente com as limitações diárias. Tipo de pensamento esse que deve ser evitado, pois existem tratamentos específicos para cada situação.

Esse é apenas um dos espelhos da casa de Letícia, que são todos cobertos pela estudante.
Esse é apenas um dos espelhos da casa de Letícia, que são todos cobertos pela estudante.

Se a fobia de Larissa é no mínimo diferente, a da estudante de nutrição Letícia Correia é que causa estranheza. Desde de criança, ela lembra ter medo exagerado de espelhos e se olhar neles. “Minha avó sempre teve uma aversão a espelhos, sempre disse ser portal de espíritos, ou que nossa alma poderia ser roubada. Eu sempre cresci com isso, hoje não consigo passar na frente de um espelho sem fechar os olhos e sentir arrepios.”

Geralmente, a eisoptrofobia, ou fobia de espelhos, está ligada ao temor diante do sobrenatural. As pessoas temem ver no reflexo do espelho fantasmas e outros seres, como é o caso de Letícia. Superstições ligadas a esse objeto (como a crença de que quebrar um espelho dá sete anos de azar) também reforçam o transtorno.

Letícia, agora com 23, diz que não pretende procurar tratamento. Não acredita que isso cause danos significativos na minha sua vida. Estranhamente, ela não possui medo de se olhar na câmera frontal do aparelho telefônico ou outros dispositivos. Para passar um batom ou uma maquiagem, sempre conta com o auxílio de outra pessoa, e quando não há ninguém para ajudar, recorre ao seu smartphone. Se arruma como qualquer outra garota, através da tela do celular dá seus últimos retoques.

 

RISOS E TERROR

Eles são engraçados, ou pelo menos para a maioria. Levam alegria e espalham sorrisos por trás de toda uma extravagância. Mas nem todos os enxergam dessa maneira. Os palhaços são figuras cômicas que existem antes mesmo de Cristo vir ao mundo. Descritos como um dos dominadores da arte de fazer rir, hoje a realidade mostra um outro lado da moeda. Com a recente onda de aparições de palhaços macabros ao redor do mundo, fica claro que esses seres não levam somente alegria, mas podem despertar pavor. Obras como A Coisa de Stephen King também servem como exemplo.

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A estudante do ensino médio Laís Lima, de 19 anos, sofre de coulrofobia – o medo irracional de palhaços. Comum em crianças, esse transtorno costuma ser desenvolvido após experiências traumáticas envolvendo a figura e por vezes superado ao longo de seu crescimento. O caso de Laís é diferente. Recorda que adquiriu esse problema já em sua adolescência. “Meu medo de palhaço não é algo que trago da infância, comecei a senti-lo em torno dos meus 14 anos. Enxerguei um outro lado dos palhaços, como uma pessoa falsa, macabra, que se esconde atrás de uma fantasia para atrair pessoas e ser o menos suspeito de ter cometido um crime.”

Por morar no interior, sempre que chega algo que tire a pequena cidade da mesmice todos querem ir, mas quando é um circo que aparece a jovem é a primeira a se esconder. Laís já se acostumou a arranjar outra programação enquanto seus amigos vão para as atrações, não vai nem que lhe paguem. Sobre as recentes aparições de palhaços assustadores ela logo põe a mão no peito. “Quando vi as notícias se espalhando pela mídia eu fiquei apavorada. Pior ainda quando surgiram os boatos de que já havia um palhaço aqui na cidade, eu nem queria sair de casa”.

 

MEDO ORIGINA MEDO

Lavar as mãos e manter hábitos de higiene é uma necessidade básica do ser humano, sendo uma das medidas mais importantes para impedir a propagação de enfermidades. Mas e quando isso se torna uma obsessão e o medo de contrair doenças atrapalha a vida do indivíduo?

O estudante de Direito, que prefere não revelar o nome, tem 22 anos e aparenta ser alguém que não tem nada a esconder. O que ninguém sabe é que ele sofre de misofobia, medo patológico do contato com a sujeira e contaminação de germes. Também conhecida por germofobia e bacteriofobia, designam o medo excessivo de germes e bactérias. Um caso famoso desse transtorno foi relatado na produção cinematográfica O Aviador.

O jovem revela que sua vida já não é mais a mesma há 2 anos, quando o ritual de limpeza começou a ganhar mais força e sua rotina passou a ser alterada. “Comecei lavando as mãos mais de uma vez consecutiva, chegando a seis vezes, sempre com sabonete antibacteriano. Depois comecei a evitar abrir portas por conta das maçanetas, usar banheiros públicos e limitar meu contato físico com as pessoas.”

Ele não sai de casa sem álcool em gel na bolsa, sempre procura lavar as mãos assim que pode e também tem problema pra dividir comida caso alguém peça. Não gosta que toquem seu cabelo, rosto e pele em geral, também não fica à vontade quando precisa dividir algum lanche. Já foi criticado por pessoas que perceberam esse tipo de comportamento, mas se defende ao dizer que ninguém sabe o que ele passa.

O universitário, que reconhece precisar de ajuda, já decidiu que vai buscar tratamento. “Isso tem me atrapalhado muito, é terrível só poder se sentir seguro em casa, depois de tomar longos banhos e lavar constantemente as mãos. Quero minha vida de volta”, desabafa o estudante.

Todas as fobias citadas até agora são só alguns dos exemplos de dramas pessoais muitas vezes desconhecidos por familiares e amigos, provavelmente alguém que você conhece é portador da doença, ou até você mesmo. As fobias ditas específicas, não são consideradas tão graves como a fobia social e a agorafobia. Isso não quer dizer que não podem ser tão danosas quanto e não precisem ser tratadas. É observável o impacto causado na vida das pessoas pelos transtornos que só possuem tendência a aumentar. A pessoa acometida de fobia social sente intensa angústia ao ter de falar em público, apresentar um seminário, fazer uma palestra, ler um trecho de um livro, etc. O medo à exposição é mais forte com pessoas estranhas ou tidas como superiores. Na agorafobia, o medo exagerado é de espaços amplos ou com muitas pessoas, seus portadores têm, frequentemente, crises de medo e angústia quando estão fora de casa, seja em um congestionamento, em meio à multidão, em um grande supermercado, no cinema.

O resultado disso é a perda da vivência total do indivíduo em corpo social. “Pelo fato da gente estar interagindo o tempo todo em sociedade, precisamos nos comunicar, entrar em contato com as pessoas, e no comportamento fóbico temos a estratégia de evitação, de fuga, tenho medo daquilo então vou fugir daquela situação porque vai me fazer sentir confortável. Então uma pessoa com fobia social vai ficar fugindo, seja da vida acadêmica, de relacionamentos, do trabalho, por isso essas pessoas possuem um teor significativo muito maior em relação ao prejuízo que esse transtorno acarreta”, explica a psicóloga Nielky Nóbrega.

A ansiedade sempre se fez presente no dia a dia de nossas vidas, entretanto a socie­dade contemporânea vem sendo classificada como a sociedade da ansiedade, carregados por um ritmo acelerado de um sistema alienador vamos nos tornando ansiosos patológicos. Preocupações com o futuro, sobrecarga de deveres e prazos e suas consequentes alterações emocionais estão acarretando cada vez mais transtornos inesperados associados à ansiedade, muitas vezes originando fobias específicas.

Aceitar que tem o problema e buscar ajuda é precisamente a primeira atitude a ser tomada para iniciar o tratamento. Deve ficar claro que fobias são como qualquer outra doença, e caso sejam negligenciadas podem trazer danos irreversíveis a vida dos portadores. “Se essas pessoas buscam tratamento antecipado, elas podem prevenir o desenvolvimento de outros problemas. Se eu tenho uma fobia social e não consigo me relacionar com as pessoas e me isolo cada vez mais, a probabilidade de eu desenvolver uma depressão é muito maior, isso é o que chamamos de comorbidade, ou seja, eu tenho um problema e em decorrência desse problema eu posso desenvolver outro”, acrescenta Nielky Nóbrega.

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