Mentes que salvam

Como a robótica trouxe esperança a criadores de cavalos em Alagoas

Ana Flávia Machado, Gabriela Garrido e Mariane dos Santos

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Imagine que seu animal de estimação contraiu uma doença que não tem cura, que o tratamento é doloroso e que, devido a isso, ele pode ser sacrificado a qualquer momento. Agora imagina que foi encontrada uma solução inovadora, capaz de trazer a saúde do seu bicho de volta e livrá-lo do sofrimento. 

Foi o que a turma do Ensino Médio do Sesi/Senai de Atalaia, município da Região Metropolitana de Maceió, fez ao criar a botinha, nome carinhoso dado a Ortofibra, que auxilia no tratamento da Laminite, doença que atinge as patas dos cavalos.

O grupo Atabótica (junção de Atalaia com robótica) foi o inventor do produto. Composto por sete estudantes e pelos técnicos André Vigário, Gildenor Leite e Hyago Basílio, o grupo utilizou a robótica – ramo da tecnologia que utiliza computadores, robôs e informática – para criações mecânicas que podem ser controladas automaticamente ou manualmente. E o melhor, ela pode ser usada no dia a dia, trazendo agilidade e eficiência nas atividades humanas e até mesmo animais.

O intuito da equipe era criar algo que melhorasse a relação do homem com o animal. O cavalo foi o escolhido, um bicho que tem uma relação muito próxima com o ser humano, desde sua participação em esportes, como no hipismo, até em terapias para crianças portadoras de  doenças ou transtornos, como o autismo.

Imagem: Internet
Cavalos são componentes importantes em terapias para o tratamento de diversos distúrbios. Arte/ Gabriela Garrido

O problema? A laminite, uma doença que atinge o casco do equino, deixando o osso da pata exposto e em contato direto com o chão, causa muita dor e sofrimento. Ela é responsável por provocar a perda da função locomotora do animal.

As afecções dos membros locomotores, no qual se enquadra a laminite, são as principais causas de afastamentos dos cavalos em atividades esportivas e de trabalhos. Isso acarreta em prejuízo financeiro. Segundo um levantamento realizado pelo Departamento Americano de Agricultura Animal e Saúde Vegetal, anualmente os Estados Unidos têm perdas milionárias porque 75% dos animais com o problema ficam com sequelas graves e não podem mais retomar às funções.

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Antes do surgimento da ‘botinha’, diversos criadores chegaram a perder seus animais que tinham que ser sacrificados. (Arte: Gabriela Garrido).

Para fazer a botinha, o grupo tem a ajuda da indústria Glastec, que doa materiais e concede o laboratório; de uma empresa de órtese que deu apoio técnico de como construir a ortofibra; e de um grupo da Universidade Federal de Alagoas de Viçosa, o Grupo de Extensão Pesquisa em Equíneos (Grupequi), especializado na laminite, e que auxiliou os estudantes a encontrar um problema e a elaborar o produto inovador, por meio de pesquisas e levantamentos bibliográficos. 

À frente do Grupequi, o médico veterinário e professor da Ufal, Pierre Barnabé Escrodo, explica que  a botinha faz o papel da ferradura para melhorar o apoio da falange da sola do casco do cavalo e evitar que haja uma rotação dessa falange. 

“Ela [botinha] tem um trabalho e uma função coadjuvante importante, tanto na fase do apoio, quanto na fase crônica para tentar diminuir o grau de contração”, afirma Barnabé.

A laminite é uma doença multifatorial, e, exatamente por isso, o professor Barnabé salienta que, apesar da criação do grupo da Atabótica ter tido um efeito positivo nos animais testados, é difícil falar em eliminar a propagação da doença no cavalo. 

“Por mais pesquisas que existam no mundo, ainda não é possível parar a propagação da doença. Posso dizer que a botinha ajuda muito, mas temos que considerar o tratamento farmacológico”, destaca. 

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A Laminite pode ser prevenida, mantendo um manejo correto em relação à alimentação, exercícios e patologias relacionadas. (Arte: Gabriela Garrido)

Tratamentos disponíveis

O Grupequi, em conjunto com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), defendeu uma norma para apoiar o uso da terapia celular para o tratamento da laminite, na sua fase aguda, que é quando os sintomas começam a aparecer, dentre eles a dor. A terapia celular, segundo Barnabé, seria utilizada com outros tratamentos como a acupuntura, ciência milenar, que ganhou força na veterinária há 17 anos com a criação da Associação Brasileira de Acupuntura. Nesta última, o médico veterinário ficou entre os 13 professores aprovados no Brasil, sendo o único representante no Nordeste da modalidade na Associação.

“A preocupação é não deixar que a doença vá para a fase crônica pois a demora no tratamento passa para 10 ou 12 meses, e devido a isso, o custo acaba sendo elevadíssimo”, explica Pierre, que acrescenta ser recomendável que o uso da Ortofibra comece na fase aguda.

A botinha foi finalizada em fevereiro de 2017, depois de duas tentativas até o aprimoramento. Foram realizados testes em dois cavalos da Ufal de Viçosa. O primeiro estava na fase inicial da laminite, e em três dias de uso apresentou uma melhora significativa. E no segundo,  o teste foi realizado quase um mês depois de detectada a laminite. 

 “De início a gente pensou em fazer prótese para os equinos, porque os cavalos acabavam sendo sacrificados quando tinham que amputar a pata. Mas descobrimos que para fazer as próteses seria mais complicado e os cavalos não se adaptam muito bem e acabam entrando em depressão”, explica Lorena Matos, 16 anos, estudante que participa do projeto desde o início.

O ponto interessante da robótica é que ela pode ser usada no dia a dia, e, neste caso, a botinha é inspiradora, pois, quando aplicada, pode salvar uma vida com o tratamento auxiliar.  Segundo o professor de Física e orientador da turma, André Vigário, todos os cavalos que experimentaram a bota tiveram o sofrimento e as dores reduzidos. 


Cavalo Patacho, em um demonstrativo do uso da botinha em cavalos com laminite. 


Radjalma Prado viu na botinha a esperança de sobrevivência para seu cavalo Campário, que ao adquirir a Laminite ficou impossibilitado de andar. Hoje , com o uso da ortofibra, ele se diz feliz e agradecido pela invenção e por ganhar o presente. Em contato com a reportagem ele conta a história Campário.  (aqui).

Projeto barra na falta de incentivo

 Se houve melhora nos cavalos testados, a discussão agora é o que fazer com o projeto daqui para a frente. André afirma que houve uma empresa a sua procura interessada pelo produto.  Se for comercializada, a botinha pode custar R$ 60,00, um preço acessível e viável se comparado a outros tipos de tratamentos contra a laminite que existem no mercado.

“Lançamos a ideia e esperamos que não ela caia no esquecimento. Nós, como professores, temos as nossas limitações, mas nossa parte estamos fazendo”, finaliza André Vigário.

Arte: Gabriela Garrido

O médico veterinário Pierre Barnabé salienta que, para a produção industrial, é preciso padronizar em três a quatro tamanhos das botas, e sem um apoio incisivo para o projeto, os estudantes não conseguirão chegar ao nível de fabricação. Além disso, é preciso pensar no patenteamento da criação e em novos estudos que sustentem a eficácia da ortofibra para o tratamento da laminite. 

A gente até tem boas adaptações para melhorar o projeto, mas precisamos de alguém que fomente isso, porque somente a universidade não vai conseguir. outro fator é que não se tem um número suficiente de animais testados que comprove a ação terapêutica perfeita que a bota teve como coadjuvante no tratamento”, afirma Barnabé.

Competições

Desde o primeiro exemplo de órtese, até a finalização da botinha,  o tempo foi de apenas quatro meses. Parece pouco, mas foi suficiente para que os estudantes participassem de diversas competições em âmbito estadual, regional e nacional.

A botinha foi apresentada na etapa regional da FLL (First Lego League) em Salvador, Bahia, em fevereiro de 2017. O tema da temporada 2016/2017 foi Animal Allies e Core Value. Mas antes disso, a invenção inicial foi exposta na Olimpíada do Conhecimento, em novembro de 2016, em Brasília.

Em março de 2017, a equipe voltou ao estado para participar de outro torneio nacional.  No total, a turma já coleciona sete troféus: dois nacionais, dois regionais, um da olimpíada do conhecimento, dois torneios internos e uma classificação internacional a ser realizada em junho na Inglaterra, mas o grupo teve que cancelar a sua participação no Reino Unido, na competição que ocorre em junho de 2017.

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A equipe desistiu de competir na Inglaterra porque não conseguiu arrecadar dentro do prazo um valor de R$ 80 mil para custeio de passagens das equipes. Os estudantes teriam até o dia 3 de março para garantir que fariam a viagem.

O professor Pierre destaca a cumplicidade e a capacidade de elaboração da equipe no processo de criação, que contou com levantamentos bibliográficos, leituras de diversos artigos em português e inglês e visitas semanais à Ufal de Viçosa para tirar dúvidas e medidas dos cavalos.  Apesar dos entraves encontrados pelo caminho,  o professor de Medicina Veterinária considera o projeto dos estudantes louvável e destaca a importância do apoio da academia nos processos de pesquisas e suas contribuições para a ciência e para sociedade.