Mentes que salvam

Como a robótica trouxe esperança a criadores de cavalos em Alagoas

Ana Flávia Machado, Gabriela Garrido e Mariane dos Santos

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Imagine que seu animal de estimação contraiu uma doença que não tem cura, que o tratamento é doloroso e que, devido a isso, ele pode ser sacrificado a qualquer momento. Agora imagina que foi encontrada uma solução inovadora, capaz de trazer a saúde do seu bicho de volta e livrá-lo do sofrimento. 

Foi o que a turma do Ensino Médio do Sesi/Senai de Atalaia, município da Região Metropolitana de Maceió, fez ao criar a botinha, nome carinhoso dado a Ortofibra, que auxilia no tratamento da Laminite, doença que atinge as patas dos cavalos.

O grupo Atabótica (junção de Atalaia com robótica) foi o inventor do produto. Composto por sete estudantes e pelos técnicos André Vigário, Gildenor Leite e Hyago Basílio, o grupo utilizou a robótica – ramo da tecnologia que utiliza computadores, robôs e informática – para criações mecânicas que podem ser controladas automaticamente ou manualmente. E o melhor, ela pode ser usada no dia a dia, trazendo agilidade e eficiência nas atividades humanas e até mesmo animais.

O intuito da equipe era criar algo que melhorasse a relação do homem com o animal. O cavalo foi o escolhido, um bicho que tem uma relação muito próxima com o ser humano, desde sua participação em esportes, como no hipismo, até em terapias para crianças portadoras de  doenças ou transtornos, como o autismo.

Imagem: Internet
Cavalos são componentes importantes em terapias para o tratamento de diversos distúrbios. Arte/ Gabriela Garrido

O problema? A laminite, uma doença que atinge o casco do equino, deixando o osso da pata exposto e em contato direto com o chão, causa muita dor e sofrimento. Ela é responsável por provocar a perda da função locomotora do animal.

As afecções dos membros locomotores, no qual se enquadra a laminite, são as principais causas de afastamentos dos cavalos em atividades esportivas e de trabalhos. Isso acarreta em prejuízo financeiro. Segundo um levantamento realizado pelo Departamento Americano de Agricultura Animal e Saúde Vegetal, anualmente os Estados Unidos têm perdas milionárias porque 75% dos animais com o problema ficam com sequelas graves e não podem mais retomar às funções.

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Antes do surgimento da ‘botinha’, diversos criadores chegaram a perder seus animais que tinham que ser sacrificados. (Arte: Gabriela Garrido).

Para fazer a botinha, o grupo tem a ajuda da indústria Glastec, que doa materiais e concede o laboratório; de uma empresa de órtese que deu apoio técnico de como construir a ortofibra; e de um grupo da Universidade Federal de Alagoas de Viçosa, o Grupo de Extensão Pesquisa em Equíneos (Grupequi), especializado na laminite, e que auxiliou os estudantes a encontrar um problema e a elaborar o produto inovador, por meio de pesquisas e levantamentos bibliográficos. 

À frente do Grupequi, o médico veterinário e professor da Ufal, Pierre Barnabé Escrodo, explica que  a botinha faz o papel da ferradura para melhorar o apoio da falange da sola do casco do cavalo e evitar que haja uma rotação dessa falange. 

“Ela [botinha] tem um trabalho e uma função coadjuvante importante, tanto na fase do apoio, quanto na fase crônica para tentar diminuir o grau de contração”, afirma Barnabé.

A laminite é uma doença multifatorial, e, exatamente por isso, o professor Barnabé salienta que, apesar da criação do grupo da Atabótica ter tido um efeito positivo nos animais testados, é difícil falar em eliminar a propagação da doença no cavalo. 

“Por mais pesquisas que existam no mundo, ainda não é possível parar a propagação da doença. Posso dizer que a botinha ajuda muito, mas temos que considerar o tratamento farmacológico”, destaca. 

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A Laminite pode ser prevenida, mantendo um manejo correto em relação à alimentação, exercícios e patologias relacionadas. (Arte: Gabriela Garrido)

Tratamentos disponíveis

O Grupequi, em conjunto com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), defendeu uma norma para apoiar o uso da terapia celular para o tratamento da laminite, na sua fase aguda, que é quando os sintomas começam a aparecer, dentre eles a dor. A terapia celular, segundo Barnabé, seria utilizada com outros tratamentos como a acupuntura, ciência milenar, que ganhou força na veterinária há 17 anos com a criação da Associação Brasileira de Acupuntura. Nesta última, o médico veterinário ficou entre os 13 professores aprovados no Brasil, sendo o único representante no Nordeste da modalidade na Associação.

“A preocupação é não deixar que a doença vá para a fase crônica pois a demora no tratamento passa para 10 ou 12 meses, e devido a isso, o custo acaba sendo elevadíssimo”, explica Pierre, que acrescenta ser recomendável que o uso da Ortofibra comece na fase aguda.

A botinha foi finalizada em fevereiro de 2017, depois de duas tentativas até o aprimoramento. Foram realizados testes em dois cavalos da Ufal de Viçosa. O primeiro estava na fase inicial da laminite, e em três dias de uso apresentou uma melhora significativa. E no segundo,  o teste foi realizado quase um mês depois de detectada a laminite. 

 “De início a gente pensou em fazer prótese para os equinos, porque os cavalos acabavam sendo sacrificados quando tinham que amputar a pata. Mas descobrimos que para fazer as próteses seria mais complicado e os cavalos não se adaptam muito bem e acabam entrando em depressão”, explica Lorena Matos, 16 anos, estudante que participa do projeto desde o início.

O ponto interessante da robótica é que ela pode ser usada no dia a dia, e, neste caso, a botinha é inspiradora, pois, quando aplicada, pode salvar uma vida com o tratamento auxiliar.  Segundo o professor de Física e orientador da turma, André Vigário, todos os cavalos que experimentaram a bota tiveram o sofrimento e as dores reduzidos. 


Cavalo Patacho, em um demonstrativo do uso da botinha em cavalos com laminite. 


Radjalma Prado viu na botinha a esperança de sobrevivência para seu cavalo Campário, que ao adquirir a Laminite ficou impossibilitado de andar. Hoje , com o uso da ortofibra, ele se diz feliz e agradecido pela invenção e por ganhar o presente. Em contato com a reportagem ele conta a história Campário.  (aqui).

Projeto barra na falta de incentivo

 Se houve melhora nos cavalos testados, a discussão agora é o que fazer com o projeto daqui para a frente. André afirma que houve uma empresa a sua procura interessada pelo produto.  Se for comercializada, a botinha pode custar R$ 60,00, um preço acessível e viável se comparado a outros tipos de tratamentos contra a laminite que existem no mercado.

“Lançamos a ideia e esperamos que não ela caia no esquecimento. Nós, como professores, temos as nossas limitações, mas nossa parte estamos fazendo”, finaliza André Vigário.

Arte: Gabriela Garrido

O médico veterinário Pierre Barnabé salienta que, para a produção industrial, é preciso padronizar em três a quatro tamanhos das botas, e sem um apoio incisivo para o projeto, os estudantes não conseguirão chegar ao nível de fabricação. Além disso, é preciso pensar no patenteamento da criação e em novos estudos que sustentem a eficácia da ortofibra para o tratamento da laminite. 

A gente até tem boas adaptações para melhorar o projeto, mas precisamos de alguém que fomente isso, porque somente a universidade não vai conseguir. outro fator é que não se tem um número suficiente de animais testados que comprove a ação terapêutica perfeita que a bota teve como coadjuvante no tratamento”, afirma Barnabé.

Competições

Desde o primeiro exemplo de órtese, até a finalização da botinha,  o tempo foi de apenas quatro meses. Parece pouco, mas foi suficiente para que os estudantes participassem de diversas competições em âmbito estadual, regional e nacional.

A botinha foi apresentada na etapa regional da FLL (First Lego League) em Salvador, Bahia, em fevereiro de 2017. O tema da temporada 2016/2017 foi Animal Allies e Core Value. Mas antes disso, a invenção inicial foi exposta na Olimpíada do Conhecimento, em novembro de 2016, em Brasília.

Em março de 2017, a equipe voltou ao estado para participar de outro torneio nacional.  No total, a turma já coleciona sete troféus: dois nacionais, dois regionais, um da olimpíada do conhecimento, dois torneios internos e uma classificação internacional a ser realizada em junho na Inglaterra, mas o grupo teve que cancelar a sua participação no Reino Unido, na competição que ocorre em junho de 2017.

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A equipe desistiu de competir na Inglaterra porque não conseguiu arrecadar dentro do prazo um valor de R$ 80 mil para custeio de passagens das equipes. Os estudantes teriam até o dia 3 de março para garantir que fariam a viagem.

O professor Pierre destaca a cumplicidade e a capacidade de elaboração da equipe no processo de criação, que contou com levantamentos bibliográficos, leituras de diversos artigos em português e inglês e visitas semanais à Ufal de Viçosa para tirar dúvidas e medidas dos cavalos.  Apesar dos entraves encontrados pelo caminho,  o professor de Medicina Veterinária considera o projeto dos estudantes louvável e destaca a importância do apoio da academia nos processos de pesquisas e suas contribuições para a ciência e para sociedade.

 

 

 

 

Leia Mais

A Dinâmica das Relações Afetivas na Era Digital

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Arte: Thiago Guimarães

Por Thiago Guimarães

Não seria exagero afirmar que a partir do avanço das novas tecnologias o modo como as pessoas se relacionam começou a mudar. Em um mundo cada vez mais inquieto, a onda cibernética se propaga com velocidade e atinge toda a sociedade com a promessa de facilitar a comunicação social deixando-a mais prática, confortável e segura. De uma maneira ou de outra, estamos todos conectados.

Quando pensamos em interação social podemos encontrar na rede um mecanismo de aproximação eficaz que possibilita, entre outras coisas, a construção de relacionamentos afetivos. Com o surgimento das primeiras redes sociais, em meados dos anos 2000, as coisas começaram a enveredar para um caminho sem volta.

Como consequência desse fenômeno, a interação virtual passou a ser algo comum na vida das pessoas, que por sua vez, gastam cada vez mais tempo na frente da telinha.

A gameficação dos sentimentos

Reprodução: Internet
Reprodução: Internet

Se tratando de paquera, todas as redes sociais sempre funcionaram como potenciais canais de azaração, levando-se em consideração a proposta inicial de conectar pessoas. Entretanto, o público necessitava de ferramentas mais direcionadas que pudessem atender demandas mais específicas.  Nessa perspectiva, as grandes empresas começaram a criar aplicativos e sites para todos os perfis de usuários.

Atualmente, basta abrir sua loja virtual no celular e descobrir um universo de chats e aplicativos para todos àqueles que desejam encontrar alguém especial. Se pararmos para pensar, a cada minuto milhares de pessoas recorrem a esses dispositivos, seja para buscar a alma gêmea, bater papo ou simplesmente encontrar sexo casual.

Na concepção da consultora sexual Milka Freitas, esses recursos cibernéticos revolucionaram a maneira como as pessoas se relacionam, até mesmo nas esferas mais íntimas dos sentimentos. A especialista destaca que os aplicativos se tornaram uma importante alternativa para aqueles que não gostam ou não tem tempo para sair de casa, para quem busca por encontros imediatos, ou mesmo para os mais tímidos.

Todavia, vale considerar que mesmo diante da eficácia e praticidade que os aplicativos prometem, nem sempre as coisas acontecem como o esperado. O índice de desapontamento ainda é grande entre os usuários, como explica Milka:

Tudo que se faz em excesso pode agredir o seu emocional. Se você usar os aplicativos eventualmente, ou seja, não ficar dependendo somente disso para resolver a sua vida amorosa, eles podem ser uma boa alternativa. O importante é saber dosar o tempo e importância que dispensamos para isso”, avalia Milka.

A chamada Era Digital sugere a ideia de que se você não possui perfil em alguma rede social pode até se considerar fora do jogo. De certa forma isso pode até conter um percentual de verdade, mas claro que tudo isso vai depender do círculo social que você frequenta e da maneira como estabelece suas relações.

Outro ponto que vale ser considerado se deve ao fato que no espaço virtual podemos conhecer boa parte da vida da outra pessoa, ou ao menos aquilo que ela queira mostrar ou nos fazer acreditar, inclusive aspectos mais íntimos sem nunca tê-la vista pessoalmente. Através das redes é possível ver amigos em comum, lugares que frequenta, escola onde cursou o ensino médio, nome do cachorro e até a comida preferida.

Muitas vezes, paquerar na internet parece ser algo mais empolgante e divertido que fora dela. Mas será mesmo que saltar etapas de conhecimento mútuo pode ser algo positivo?

Milka avalia que, por cultura, temos o hábito de acreditar que a primeira impressão é a que fica. Nos aplicativos de relacionamento não poderia ser diferente. Em decorrência dessa pressão em mostrar sempre o nosso melhor lado já no primeiro contato, acreditamos que só teremos uma única chance de conquistar o crush.

Talvez por esse motivo, algumas pessoas recorrem a certas estratégias para ganhar vantagem no jogo da sedução. Os artifícios vão desde o uso de Photoshop para melhorar as fotos até mentir a idade, classe social e preferências sexuais. Tem gente que exagera tanto nos retoques que assume uma outra identidade. É o caso da cantora Annita, que em agosto de 2016 revelou em seu snapchat que usava tanto photoshop nas fotos que quando ia aos encontros ninguém a reconhecia.

Em poucas palavras, nessa gameficação dos sentimentos jogam-se todas as cartas para ganhar aquela partida e levar o prêmio para casa, ou para o cinema, motel, como preferir!

A consultora sexual Milka Freitas bateu um papo com estudantes sobre uso de aplicativos para relacionamento. Confira:

Cassino Virtual

Nesse universo de paqueras online pode-se encontrar de tudo um pouco. As buscas vão desde sexo sem compromisso até relacionamentos longos e duradouros. Há, ainda, aqueles que apostam todas as fichas em relações que ofereçam vantagens econômicas, luxo e viagens. Tem até aplicativo para os já compromissados que desejam descobrir se o companheiro tem um perfil em um deles. Uma espécie de delação digital. Um verdadeiro business!

Deficientes físicos, pessoas com sobrepeso, gays, lésbicas, nerds, cristãos, solteiros com filhos, atletas e idosos também têm seu espaço garantido em ferramentas exclusivas e quase sempre gratuitas. E o melhor de tudo isso, com a comodidade de usufruir desse catálogo humano enquanto viaja no ônibus, durante o intervalo da faculdade ou mesmo aguarda na fila do banco. Maravilhoso!

Mas, nesse cassino virtual nem tudo são flores. As exigências estão cada vez maiores e se quisermos competir nesse jogo temos que nos submeter a algumas regras, quase sempre implícitas, além de um pouco de sorte, claro. Dito isso, o comportamento da sociedade em rede revela que nem todas as pessoas estão preparadas para esse jogo de amor e sorte.

Assim como na vida offline, nas redes sociais de paquera a lei da atração funciona quase sempre como uma espécie de pacto narcisista, através do qual nos sentimos atraídos por alguém que julgamos semelhante, tenha interesses em comum e compartilhe das mesmas intenções.

Frequentemente, observa-se que a tecnologia que nasceu para facilitar e aproximar as relações humanas tem causado justamente o efeito contrário. Esse fenômeno que vai na contramão do objetivo esperado pode representar apenas o reflexo de uma sociedade cada vez mais perfeccionista, imediatista, que busca o par ideal em meio às inúmeras possibilidades que a internet oferece.

Afinal, a quantidade de perfis que permeiam na rede não para de aumentar.


Tinder, o queridinho dos aplicativos de paquera

 

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Reprodução Internet

Com a promessa ousada de pôr fim à rejeição, os amigos americanos Justin Mateen e Sean Rad criaram em 2012 o aplicativo de paquera que mais tarde se tornaria o mais famoso do mundo, o Tinder. Atualmente utilizado em 196 países – de acordo com dados publicamente divulgados pela própria empresa –, o tinder define-se por uma plataforma pensada para encontrar novas pessoas com interesses em comum, com base nas informações coletadas através do Facebook, no momento da adesão.

Em entrevista concedida ao link, em 2013, quando o Tinder chegou ao Brasil, o cofundador Justin disse que o aplicativo funciona como na vida real. Segundo ele, quando se conhece alguém fora da rede, a primeira coisa que se nota sobre a outra pessoa é a aparência física e, logo em seguida, amigos e interesses em comum.

site do Tinder revela que até o final de 2016 o aplicativo já contava com mais de 10 milhões de usuários somente no país tupiniquim, o que equivale a toda população de Portugal.

O sucesso do aplicativo pode ser traduzido em números

 

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Arte: Thiago Guimarães

Mas, afinal, como funciona o Tinder?

A facilidade de manuseio tem popularizado aplicativos de relacionamento em todo o mundo. O Tinder segue como o aplicativo mais utilizado nesse segmento de mercado

Reprodução: giphy.com

É tudo muito simples. Na tela principal do tinder aparecem fotos de usuários potencialmente compatíveis, com base na geolocalização e faixa de idade previamente configuradas, além das informações extraídas do Facebook como já mencionado.

Em cada perfil visualizado se obtém a opção de curtir ou não a outra pessoa. Como em uma espécie de “cardápio humano”, o usuário visualiza a foto e, se por acaso sentir-se atraído, desliza a foto para o lado direito da tela. Caso não goste do que vê, basta deslizar o dedo no sentido contrário.

Em prática, se ocorrer uma atração recíproca, o famoso Match, o novo casal terá a oportunidade de bater um papo online. É importante ressaltar que o aplicativo mostra apenas pessoas que estão geograficamente próximas. Mas existe a possibilidade de aumentar a distância para ver mais perfis online.

A grande engenhosidade do tinder é a discrição, tendo em vista que a outra pessoa somente terá conhecimento do seu interesse se ela também te curtir. O aplicativo só permite contato direto entre pessoas que realmente manifestem interesse mútuo.


Relações digitais, sentimentos reais?

Se por um lado a internet causa a sensação de conforto, acolhimento e aproximação, por outro, o encontro real pode não seguir no mesmo ritmo

Reprodução: internet

O primeiro passo para encontrar alguém certamente é conectar-se com outras pessoas, ainda que seja em um ambiente virtual. Tal como na vida fora da telinha, os sites e aplicativos de relacionamento não vêm com um manual de instruções, tampouco existem fórmulas preconcebidas. O que existe, na realidade, é a manutenção de uma relação de respeito entre os usuários, independente do que se procura.

A psicóloga Anne Rafaele avalia que na perspectiva de satisfazer desejos, muitas pessoas recorrem às ferramentas virtuais no intuito de otimizar tempo e aumentar as chances de encontrar alguém que preencha suas necessidades, ainda que imediatas. O que para muitos pode ser encarado como um jogo ou passatempo, para outros se torna a única maneira de investir em uma relação amorosa.

Para essas pessoas que procuram um relacionamento mais estável, às vezes, as expectativas podem se revelar bastantes frustradas, causando insegurança, isolamento, medo, raiva e elevação do nível de ansiedade. Elementos que poderão influenciar negativamente em relacionamentos futuros e até mesmo em outras esferas sociais, como estudo e trabalho.

Lógico que isso também acontece na vida real, pois você projeta sobre a outra pessoa desejos e virtudes que, à medida que se conhece melhor, vão se desconstruindo ou se afirmando. Mas quando se trata de relacionamento virtual a expectativa que se cria é sempre potencializada, pois quase sempre acreditamos somente no que a outra pessoa está dizendo”, analisa a especialista.

Por isso, antes de criar um perfil nas redes é fundamental compreender o que se procura. Não há problema algum em procurar apenas por sexo casual, desde que isso seja feito de maneira responsável. Contudo, nem sempre é fácil sair satisfeito dessa selva digital, uma vez que  é preciso ter bastante paciência e, sobretudo, não criar grandes expectativas.

A psicóloga acrescenta que o par perfeito pode ser encontrado em qualquer lugar, mas leva-se em consideração que a comunicação frente a frente, muitas vezes, pode inibir sentimentos e bloquear pessoas mais tímidas ou com pouca habilidade de se relacionar.

Além disso, o papo online é considerado uma maneira mais interessante de conhecer pessoas em virtude dos inúmeros recursos que o ambiente virtual pode oferecer, como imagens, gifs, vídeos, áudio. Com a aproximação do dia dos namorados, sites e aplicativos de namoro podem ser uma ótima opção para adiantar a vida dos tímidos, dos ocupados e até dos avessos a baladas. Vale lembrar que o presente não pode ser virtual.

Para entender melhor como se constroem as relações amorosas no ambiente virtual consultamos a Psicóloga Anne Rafaele. Confira:


Sim, o amor é possível

Foi através de amigos em comum no Facebook que a jovem estudante Ariane Barros, 26, conheceu seu atual noivo, o italiano Martin Mannino, 33, em julho de 2014. Durante cinco meses eles conversaram no chat, trocaram fotos e descobriram as primeiras afinidades.

Ainda em 2014, no período de férias natalícias de Martin, o italiano resolveu encurtar o espaço e viajou para Maceió a fim de conhecer Ariane. De acordo com ela, o contato pessoal superou as expectativas mais otimistas do plano virtual.

Foto: cortesia/arquivo pessoal (Arte: Thiago Aquino)

Após uma semana de sua chegada à capital alagoana, Martin viajou para Salvador, como já estava previsto em seu itinerário de férias. Em menos de 24 horas o italiano sentiu a ausência da estudante e retornou a Maceió. Desde então, eles não se separaram mais. O relacionamento ainda que temporariamente mantido a distância já dura três longos anos. A cada três meses ela viaja para revê-lo na região da Sicília, sul da Itália, onde ele reside.

Os planos não param por aí. Até o final deste ano eles planejam morar juntos de vez. O grande empasse vai ser trocar a feijoada pelo espaguete. Pelo visto isso não será um problema já que amor venceu todas as distâncias físicas que os separavam, com a ajudinha da internet, claro.


Evolução dos chats de paquera ao longo dos anos

Com o surgimento de aplicativos e sites exclusivos para relacionamento tudo ficou mais fácil, mas nem sempre foi assim

Em uma época não tão distante – mais precisamente em meados da década de 1990 até metade dos anos 2000 –, o acesso à internet era feito de forma discada, também chamada dial-up. Quase sempre os internautas deveriam esperar após a meia-noite para entrar na Web devido a tarifa bem mais barata.

O ritual preparatório era regido pelo tom de discagem, seguido de ruídos que mais pareciam contatos extraterrestres. Os mais jovens certamente nunca tiveram essa experiência mítica que embalava madrugadas quando o acesso à rede ainda era algo novo e surpreendente.

Ouça o som da internet discada:

 

Você entrou na sala…

Para muitos, todo esse rito ainda pode causar uma certa nostalgia. Isso por que foi justamente nessa época que surgiu o pioneiro no segmento de paquera virtual no Brasil, o mitológico Bate papo UOL. Criado em 1996, o bate papo era o maior serviço de chat em língua portuguesa do mundo. 

Sua proposta era conectar pessoas de forma anônima em todas as partes do Brasil e exterior. Foi, sem sombra de dúvidas, um frenesi que marcou a adolescência de muitos adultos de hoje.

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A página era subdividida em categorias, como idade, cidade, sexo, entre outras. Nas salas de sexo, por exemplo, fotos eróticas rolavam pela janela em meio às conversas apimentadas entre os usuários.

Por falar em usuários, esses utilizavam os nicknames mais excêntricos que nem sempre condiziam com aquilo que realmente eram por trás da telinha. Nesse ponto, pouca coisa mudou com o passar dos anos.

O Bate papo ainda existe e até ganhou novos layouts e uma versão mobile, mas a proposta da UOL se tornou obsoleta diante da chegada de recursos mais modernos e eficazes.

 

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Com um layout primário e recursos escassos, outro chat que fez bastante sucesso na primeira metade dos anos 90 foi o mIRC, principal cliente de IRC (Internet Relay Chat). O bate papo foi criado e desenvolvido por Khaled Mardam-Bey, em 1995, com o objetivo de ser um programa de chat que permitisse conversar com milhares de pessoas sobre temas específicos.

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Não haviam imagens e para usufruir dos recursos era preciso instalar o programa no computador. Em 2003, o mIRC liderava entre as 10 maiores chats, segundo um ranking da empresa de pesquisa Nielsen. Em 2008, o programa atingiu a marca de 150 milhões de downloads. A rede chegou a ter quase 50 mil usuários e 1 milhão de conexões todos os dias.

Mesmo em meio a aparente bagunça, o mIRC se consolidou como ponto de encontro de jovens entre os anos de 1998 e 2003. Ele ainda existe, mas já não é mais o mesmo.

Quem você conhece?

E quando se fala nessa época, é impossível não citar o eterno queridinho dos brasileiros, o Orkut. A rede social que já foi a mais popular do Brasil foi criada em janeiro de 2004 pelo engenheiro Orkut Buyukkokten. Durante os anos 2000, quando iniciou o boom das redes sociais, os xavecos online aconteciam de maneira mais dissimulada.

Uma das marcas registradas do Orkut eram as comunidades. Nelas, os fóruns instigavam joguinhos de “pega ou passa” que rendiam boas paqueras e diversão. Se de um lado as comunidades eram garantia de boas risadas, os famosos depoimentos privados serviam como cantadas furtivas, carregadas de emoji.

Naquele tempo não existia a famosa cutucada, como existe hoje no Facebook. Então, para dar um passo a frente na possível relação, mandava seu buddy poke interagir com o buddy poke do outro usuário, com a possibilidade de mandar flores, abraços e até beijos.

Na hora de solicitar amizade ao crush não se observavam os likes das fotos, mas sim a descrição do perfil, sempre importante para saber se a outra pessoa era considerada legal, afetuosa, sexy, entre outras características.

A rede de Zuckerberg

No mesmo ano em que nasce o Orkut foi lançado também o Facebook, a rede social de Mark Zuckerberg. O Facebook nasceu em uma Universidade Americana e logo se tornou a rede social mais acessada do mundo, ofuscando de vez os anos de glória do finado Orkut no Brasil.

Reprodução: Internet

Se engana quem pensa que o Facebook não oferece a possibilidade de paquera. Entre os inúmeros recursos, a rede social permite o envio e compartilhamento de fotos e até vídeos em tempo real. Ferramentas como a sugestiva “cutucada” tornaram o Facebook mais uma possibilidade de paquerar online, apesar de não ser esse o objetivo de sua criação.


A democratização dos aplicativos e sites de paquera

Apesar de ser o mais popular, o Tinder também tem seus concorrentes de peso, que apostam nas ideias mais criativas para ganhar novos adeptos

 

 

Grande parte dos aplicativos e sites de relacionamento são gratuitos ou disponibilizados com um custo baixo de utilização, o que desperta cada vez mais o interesse de jovens, adultos e idosos.

Com a popularização dos Smartfones, os aplicativos e chats de paquera foram ganhando cada vez mais espaço. Há quem compara os celulares quase como uma extensão do próprio corpo. Mas, diante das inúmeras plataformas disponíveis no mercado, fica difícil escolher qual seria aquele ideal.

Para muita gente, o fato de julgar outras pessoas basicamente por meia dúzia de fotos ainda pode soar um pouco superficial, é compreensível. Por esse motivo, diversos aplicativos foram idealizados para atender às demandas de perfis diferentes de usuários. Assim, não custa nada provar alguns deles e, caso não goste, basta desinstalar.

Confira abaixo os aplicativos e sites mais populares e curiosos:

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Essas ferramentas de relacionamento virtual podem ser comparadas a uma festa, para qual você não precisa se arrumar, nem se deslocar e gastar dinheiro. Basta haver um aparelho eletrônico com acesso à internet para descobrir pessoas interessantes perto de você. No entanto, as redes sociais de paquera também podem destruir relacionamentos. Tudo vai depender do uso que se faz delas, além da maneira como cada um conduz a conversa.

No YouTube é fácil encontrar dezenas de tutoriais ensinando como abordar o crush e garantir que o papo evolua. Apesar de todo essa solidariedade compartilhada, regras básicas como educação, gentileza e transparência serão sempre bem-vindas.

Público gay

Algo interessante que se observa nos aplicativos exclusivamente gays é a preocupação dos usuários em manter o anonimato. Parte considerável das pessoas preferem não expor fotos reais de rosto e estão quase sempre desconfiados na hora de se apresentar e fornecer informações pessoais, o que gera sempre um clima de incerteza e desconfiança recíproca. Talvez por essa razão, muitos usuários gays optam por aplicativos e sites mais comuns, onde possam escolher o melhor tipo de abordagem sem grandes questionamentos.


Deu Match, e agora?

A postura que se adota após a combinação é essencial para o desenvolvimento da conversa

Reprodução: Giphy.com

Antes de mais nada é necessário acabar com esse estigma que pessoas encontradas em aplicativos não são interessantes para ter um relacionamento sério.

Se você começa uma aproximação com esse pensamento, a probabilidade de pôr tudo a perder aumenta consideravelmente.

Tudo vai depender da condução desse diálogo pós match. Por falar em match, algumas vezes aquela combinação que parece cair do céu nem sempre corresponde às expectativas.

Além do mais, não é certo que as redes sociais reflitam um recorte fiel da vida real, pois como foi dito pela psicóloga Anne Rafaele, o universo digital funciona como um grande palco onde as pessoas decidem o que querem demonstrar e mostrar. Não crie paranoias caso não aconteça como esperado, faz parte do jogo.

O primeiro passo logo após a combinação dos perfis é o início do bate papo online, onde as primeiras cartadas serão lançadas a fim de despertar um interesse que vá além do aspecto físico. Nessa fase inicial, seja sempre educado e demonstre entusiasmo em conhecer aspectos da vida da outra pessoa. Mas, atenção, perguntas em excesso ou que invadam a vida privada podem assustar nesse primeiro momento.

Não existe uma medida exata, como nas receitas de bolo, mas basta um pouco de bom senso e empatia para encontrar o limite sutil entre estar interessado, ser intrusivo ou apenas curioso. Um comportamento bastante comum e difundido nas redes é ocultar, mentir ou querer demonstrar algo que não representa a verdade.

Lembre-se que mesmo se tratando de uma cômoda ferramenta virtual, o encontro real será inevitável em um segundo momento. Não existe ninguém perfeito, portanto, não compre nem venda superficialidade. No final das contas, só prevalece o que é real.

Real VS Virtual

Os aplicativos podem ser muito úteis, desde que usados com responsabilidade como já foi dito pela consultora sexual Milka Freitas. Mas nunca se esqueça que por trás de cada perfil existem pessoas reais que, assim como você, estão ali por alguma razão que nem sempre deixam explícita. Às vezes nem sabem o que realmente querem.

É inegável que a comunicação digital oferece inúmeras potencialidades, como o compartilhamento de fotos, vídeos, músicas, áudios, entre outros fatores que, decerto, permitem que as pessoas se conheçam de forma mais acelerada e descubram as primeiras compatibilidades.

Mas, para chegar nesse ponto, a combinação deve ser feita – com exceção de alguns aplicativos que não necessitam do match. Para isso, o julgamento individual será sustentado nas fotos publicadas no perfil. Se existe uma grande vantagem nesse sistema, seria a possibilidade que o usuário tem de postar as melhores imagens, que enalteçam seus pontos positivos e oculte os menos favoráveis. Mas não faça como a Annita!

Em contrapartida, esse sistema  não te permite apresentar outros pontos que eventualmente poderiam interessar a outra pessoa caso a azaração acontecesse fora do plano virtual, como o modo de agir e caminhar, voz, olhar, cheiro, toque, entre outros.

Vale lembrar que ainda não saiu de moda conhecer pessoas em locais públicos, trocar olhares ou convidar para jantar fora. Muitas vezes a aparência física torna-se apenas um detalhe diante da capacidade do ser humano de encantar e seduzir seus semelhantes. Seja natural na hora de abordar alguém e valorize suas melhores armas. A melhor estratégia pode ser a sutileza.

A consultora sexual Milka Freitas avalia o uso dos aplicativos de paquera e dá algumas dicas para usuários de primeira viagem:


 

Efeitos negativos do uso excessivo dos aplicativos

O uso não saudável pode elevar o nível de ansiedade, provocar isolamento social e evoluir para dependência

O avanço das tecnologias é um fenômeno contínuo e irreversível. Diante dessa realidade, a grande questão que os especialistas em ciências humanas debatem trata da maneira como utilizamos esses recursos tecnológicos ao nosso favor, de modo que não nos tornemos reféns do mundo virtual.

Essa mudança comportamental dos velhos hábitos – que antecede o surgimento da internet e chega até a sociedade em rede que vemos hoje -, pode causar consequências desastrosas no ser social, caso não sejam adotadas medidas que previnam eventuais riscos de dependência ou outros efeitos psicológicos que comprometam a vida dos internautas.

A psiquiatra Suzzana Bernardes explica que o uso compulsivo de internet pode causar dependência, comparada até mesmo com a de usuários de drogas. Em virtude de ser um acontecimento relativamente recente, o assunto ainda está sendo estudado e debatido a fundo por especialistas do mundo inteiro. Tampouco existem dados sólidos divulgados que confirmem ou justifiquem esse comportamento.

Tendo como referência os aplicativos e sites para relacionamento, entendemos que nossas escolhas aparentemente “erradas” podem gerar um acúmulo de frustrações que crescem à medida que buscamos uma pessoa atrás da outra de maneira compulsiva. Lidar com a rejeição nem sempre é algo fácil, como explicou a psicóloga Anne Rafaele.. Esse tipo de situação acontece a todo momento e muitas vezes não nos damos conta por se tornar tão comum em nosso cotidiano que passa despercebido.

Ciúmes e Insegurança

Para a especialista, esse comportamento pode desencadear um quadro de dependência que, se não for tratado adequadamente, poderá evoluir para problemas mais graves, como quadros depressivos e de isolamento social.

Por um lado, a internet promove um contato maior e um conhecimento com pessoas de todo mundo. Em Contrapartida, essas pessoas se expõem em demasia, o que pode trazer inúmeros problemas”, complementa Suzzana.

Ainda de acordo com Suzzana, da mesma forma que esses mecanismos podem favorecer relacionamentos duradouros eles também podem destruí-los, uma vez que a questão da insegurança está muito presente na vida das pessoas, seja no ambiente online ou offline.

Pessoas ciumentas podem recorrer às redes sociais no intuito de monitorar atitudes do companheiro. Apesar de que o monitoramento através da internet reflete apenas a consequência da era digital, tendo em vista que monitorar os hábitos do parceiro (a) sempre foi algo comum.

Com a chegada da internet esse comportamento passou a ser potencializado devido aos inúmeros recursos disponíveis e a possibilidade de permanecer anônimo.

A psiquiatra Suzzana Bernardes elenca os principais sinais que podem indicar dependência.

Transtorno de Dependência de Internet

Usuários que dedicam mais de duas horas por dia conferindo suas redes sociais têm duas vezes mais possibilidades de provarem um isolamento social do que aqueles que passam menos de meia hora diária, é o que revelou uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de Pittsburgh e publicada no American Journal of Preventative Medicine.

De acordo com a pesquisa, os usuários mais frequentes relataram que sentiram uma diminuição do sentimento de pertencimento social, além de um menor envolvimento com os outros e relacionamentos menos satisfatórios. A internet pode aproximar dos que estão longe, mas afastar dos que estão próximos.

Em tempos de redes sociais, seja para paquera ou não, a necessidade de ser visto e notado torna-se uma condição para que alguns indivíduos se sintam melhores consigo mesmo e consequentemente com o mundo.

A perda de autoestima ganha maiores proporções no ambiente virtual e podem afetar o círculo social do indivíduo caso não seja controlada, interferindo, inclusive, nas esferas de estudo e trabalho.

Se o individuo tem autoestima baixa isso vai lhe traz sofrimento e prejuízos nos relacionamentos. De qualquer forma, isso vai ocorrer independente de ser virtual ou real. O que deve ser feito é procurar ajuda profissional para tentar identificar a origem desse problema e cuidar adequadamente, muito provavelmente através de acompanhamento psicológico”, recomenda Suzzana.


Fragilidade das relações sociais: afinal, a culpa é da internet?

O comportamento compulsivo que se observa nesses mecanismos apenas reflete valores sociais escassos ou inexistentes, de acordo com sociólogo

O sociólogo Ascanio Gama Freires avalia que em uma sociedade acelerada e competitiva, na qual homens e mulheres têm igualdade de condições civis, os pais tornaram-se cada vez mais ausentes na formação educacional dos filhos. Como reflexo dessa ausência eles acabam, ainda que involuntariamente, terceirizando a responsabilidade de educar as crianças para outras pessoas, núcleos e instituições.

Partindo dessa concepção, conclui-se que essa suposta quebra de valores ou, se preferirmos, liquidez das relações, que coloca o ser humano como um mero objeto de desejo, apenas reflete o que já acontece na sociedade contemporânea onde não identificamos referências familiares sólidas.

Quando reportamos esse novo padrão de comportamento para o ambiente virtual ele se potencializa e ganha outras dimensões, pois na internet as pessoas se veem e se comunicam mais, além da possibilidade de se manterem aparentemente anônimas, o que gera a falsa impressão que tudo é permitido. Para Ascanio, a tecnologia não tem culpa pela relativização e banalização dos valores ou a inexistência deles, ela não tem autonomia para isso.

Como resultado da ausência do núcleo familiar enquanto educadores e formadores de caráter, os jovens crescem imersos na cultura midiática da televisão de massa e internet que, através de novelas, seriados, programas de TV e redes sociais, redefinem conceitos e posturas comportamentais, impondo, assim, suas ideologias”, analisa o sociólogo.

Até quatro ou cinco décadas atrás, a competência de educar as crianças era atrelada à mulher. Diante de uma cultura machista e conservadora, o homem era encarregado de trabalhar e sustentar a família. Após as grandes conquistas feministas ao longo dos anos, as mulheres ganharam espaço e voz e com isso o direito de sair de casa para trabalhar.

Todo esse processo teve, sem dúvidas, consequências positivas, mas também gerou um distanciamento ainda maior entre pais e filhos que com o tempo se intensificou.

O sociólogo Ascanio Freires reitera seu ponto de vista em relação ao papel da família nesse processo de formação de caráter. Ouça:

 

Influência das grandes mídias

A interação e sociabilização – componentes fundamentais para a formação de referências comportamentais e de caráter –, são difundidas pelos grandes veículos de comunicação de massa, que assumem o papel de educadores enquanto os pais se preocupam apenas em ganhar dinheiro.

Ainda segundo o sociólogo, nesse processo de formação de caráter ideal, o de alguém sério, disciplinado e honorável, constitui-se como componente essencial a presença da família, além de outras instituições sociais como a igreja.

Na ausência desses componentes, isso nos conduz ao culto da superficialidade, no qual as pessoas se esforçam para parecer coisas diferentes do que verdadeiramente são e acabam suprimindo a própria personalidade apenas com o intuito de agradar e ser valorizado.

A psicóloga Anne Rafaele compartilha da ideia de Ascanio quando declara que uma base institucional familiar sólida é determinante no que concerne a boas condutas sociais. Ela acrescenta que há muitos anos as grandes mídias têm investido em como disciplinar e manusear os comportamentos das pessoas.

De um modo geral, a mídia invade toda a sociedade, tanto como sujeito como ser social e político.

Desse modo, estabelece novas formas de subjetividades e valores, podendo realocar condutas sociais e morais de maneira imediata. Em poucas palavras, ela vai influenciar diretamente na forma de agir das pessoas.

Eu classificaria esse fenômeno como remodelação da intimidade, da forma de exercer a sexualidade das pessoas e de construir vínculos sociais”, conclui a profissional.

Como consequência desse imediatismo, procuramos por indivíduos que venham prontos ao nosso molde, da maneira como gostaríamos ou imaginamos. Sendo assim, não podemos esperar um comportamento diferente da parte de quem está do outro lado. Pensando por essa lógica, as pessoas acabam se anulando o tempo todo, pois sempre buscam por alguém melhor.

Na ausência de referências que definam qual a pessoa ideal, a estética ganha força e acaba transportando essa obsessão pelo aspecto físico para todas as esferas da vida. Nesse contexto, o interesse inicial se dá a partir de chamar a atenção para si, seja através de uma foto compartilhando bons momentos, uma frase bem colocada ou uma mentira bem contada.

Em virtude dessa nova dinâmica, a personalidade e caráter ficam em segundo plano, dando lugar a personagens pré moldados em conformidade com as exigências de outros indivíduos.

Promiscuidade digital

A psicóloga explica que desde muito cedo somos pressionados a dar respostas, posicionamentos, status para a sociedade. Quando adolescentes, já devemos escolher a profissão que seguiremos no futuro. Após a maioridade, espera-se uma postura mais responsável. Já aos 30 devemos estar graduados, ter um bom emprego, estar em um relacionamento estável e, melhor ainda, com casa e carro na garagem. Existem exceções, sem dúvidas. Mas, o que isso tem a ver? Vamos entender.

O comportamento frenético que tem se difundido por meio dos usuários de aplicativos para relacionamentos, sobretudo daqueles que buscam sexo a todo custo, pode ser resultado dessa cobrança social que recebemos de todos os lados, ainda que de maneira velada.

A tecnologia, nesse contexto, pode funcionar como uma válvula de escape para as tensões do dia a dia, pois é prático, discreto e eficiente. A consequência dessa postura pode resultar em um comportamento promíscuo, que certamente será reflexo do que já acontece na vida do indivíduo fora do ambiente digital, diga-se de passagem.

Devido a grande rotatividade de usuários o leque de pretendentes parece não ter fim e isso contribui ainda mais para tais comportamentos desmoderados.


Arte: Thiago Guimarães

Surgimento da Internet

Mas claro que sem a internet nada disso seria possível. A rede que conecta milhões pessoas mundo afora surgiu a partir de pesquisas militares desenvolvidas pelos norte-americanos durante a Guerra fria, que tinham como objetivo criar uma ferramenta capaz de proteger informações sigilosas em casos de bombardeios. Inicialmente, esse modelo de compartilhamento de dados era denominado ARPANET, criada pela ARPA, sigla para Advanced Research Projects Agency.

Somente em meados dos anos 1990 a internet ganhou força, quando o então físico britânico Tim Bernes-Lee inventou o sistema “www” – leia-se World Wide Web –, com o intuito interligar as Universidades de modo que as pesquisas acadêmicas fossem utilizadas contemporaneamente em um mesmo ambiente compartilhado entre as partes interessadas.

Como resultado da engenhosidade de Tim e sua constante busca pela melhoria, chegamos à internet como a conhecemos hoje.

O risco é virtual, mas o perigo pode ser real

A navegação na internet pode envolver alguns riscos, tendo em vista que mesmo diante de um mundo de informações, nunca saberemos ao certo quem está do outro lado. Por essa razão, a segurança continua sendo o maior desafio que as grandes empresas do setor enfrentam. Incansavelmente, muitas delas avançam nesse quesito pois constantemente são descobertas vulnerabilidades em diversos serviços disponibilizados. No entanto, os usuários podem e devem se precaver de eventuais dores de cabeça.

Uma regra básica para sair ileso desse campo minado é nunca fornecer dados pessoais exatos, como endereço, documentos e local de trabalho e estudo já no primeiro contato. Isso não quer dizer que você tenha que se manter anônimo ou mentir o tempo inteiro, mas sim estar atento. Devido a grande rotatividade de combinações e conversas, assim como podemos encontrar pessoas com boas intenções, outras podem não estar tão bem-intencionadas assim.

Vale recordar que menores de idade não podem fazer uso de aplicativos e sites para relacionamento. Isso em teoria, pois sabemos que algumas informações podem ser facilmente burladas. Por isso, os pais devem estar atentos quando seus filhos estiverem sozinhos no celular ou computador, sobretudo quando se trata de crianças.

O risco de sofrer algum tipo de violação de direitos ou ser vítima de sequestros ou pedófilos deve ser sempre considerado. Acompanhar ou monitorar a criança ou adolescente enquanto navega não significa invadir sua privacidade, mas zelar por sua segurança.

De volta para o público adulto, saber diferenciar a princípio esses dois perfis de usuários pode não ser uma tarefa fácil. Portanto, na dúvida, não tenha pressa em superar as etapas primárias de conhecimento recíproco e ganho de confiança.

Falar da rotina pode ser uma boa maneira de se aproximar e conhecer os hábitos da outra pessoa, mas também pode ser um prato cheio para violência sexual, fraudes e atentados. Tudo deve ser compartilhado aos poucos à medida que se conhece melhor a outra pessoa. 

Para Gustavo Acioly, especialista em internet e redes sociais, é sempre oportuno buscar referências antes de marcar um encontro real. Se sentir abertura, solicite fotos com amigos em locais públicos, pergunte sobre o que gosta de fazer, preferências, ambições, desejos.

Desperte em si mesmo a sensibilidade de entender quando a outra pessoa se contradiz nas respostas. Apesar de o imediatismo ser algo comum, até do ponto de vista dos princípios da internet, desconfie caso alguém queira marcar algo com muita pressa, sobretudo com mulheres.

Outra dica é buscar por seus outros perfis em redes sociais como Facebook e Instagram, onde se pode observar possíveis amigos em comum, páginas curtidas e entender o círculo social que ela frequenta”, sugere Gustavo.

Superada essa etapa, o encontro pode ser finalmente marcado. Afinal, ninguém quer conversar para sempre pelo celular. Quando o olho no olho torna-se inevitável, opte por encontros em locais públicos. E se mesmo assim não se sentir seguro e quiser arriscar, peça a companhia de um amigo para te acompanhar ou ao menos comente com ele com quem está saindo e para onde está indo.

Crimes virtuais

Outro perigo bastante frequente pode ser o roubo de informações de usuários e até a perda de dados. Para alguns sites e aplicativos mais eficientes, existem requisitos de segurança que podem ser definidos para manter essas informações mais seguras. Sempre que possível conecte-se em dispositivos de confiança que, de preferência, só você utilize.

Além disso, mantenha sempre o sistema de antivírus ativo no celular, computador ou tablet. Se for criar um perfil, observe sempre os termos de contrato eletrônico, que deverão ser respeitados.

Engenharia social

Trata-se de um termo pouco conhecido pela maioria das pessoas que utiliza internet. Ele refere-se a capacidade que alguns cybercriminosos têm de conseguir informações confidenciais utilizando-se de habilidades psicológicas de persuasão, ou simplesmente abusando da ingenuidade ou confiança do usuário.

Se a armadilha for bem montada, o criminoso pode obter informações privadas, tais como senhas e informações bancárias. Para montar o ataque, ele pode se disfarçar como mais um usuário em busca do amor nas redes sociais e, desse modo, transmitir a ideia de pessoa íntegra e respeitável.

Quando desconfiar de algo, uma dica é copiar e colar a frases recebidas no Google e veja se aparece algo suspeito. Muitas vezes, essas pessoas utilizam os mesmos discursos para todas as vítimas.

Phishing

A palavra phishing é uma variação do inglês (fishing), que significa pesca. O termo remete à ideia de lançamento de uma isca na esperança de que, enquanto a maioria ignorará a isca, alguns serão tentados a mordê-la.

Phishing é uma forma de fraude eletrônica, caracterizada por tentativas de adquirir fotos, músicas e outros dados pessoais ao se fazer passar por uma pessoa confiável ou uma empresa enviando uma comunicação eletrônica oficial. Isso ocorre de várias maneiras, principalmente por e-mail, mensagem instantânea e SMS.

Arte: Thiago Guimarães

Quem nunca ouviu essa frase que envie o primeiro nude. Para quem está sempre conectado em redes sociais o envio de imagens e vídeos sensuais nus ou seminus, também chamado de sexting, é uma prática bastante comum, sobretudo entre os mais jovens. A conduta, porém, divide opiniões de usuários e especialistas.

Inúmeros são os casos de personalidades que tiveram materiais íntimos vazados. Logo, a principal preocupação dos usuários em enviar fotos íntimas não é expor o corpo em posições quase acrobáticas, mas sim de a pessoa que as recebe salvá-las e repassá-las.

Em tempos onde os conceitos de privacidade foram redefinidos ninguém quer correr o risco de ser exposto dessa forma, seja por invasão de hackers ou por vingança de ex-companheiros.

Por outro lado, a tentação de ver e ser visto muitas vezes fala mais alto, uma vez que aumenta a autoestima e aproxima casais que estão distantes. Outro motivo que leva algumas pessoas a esse comportamento é o desejo biológico do exibicionismo.

A maioria dos pedidos partem dos próprios companheiros e são repassadas através do Whatsapp. Alguns aplicativos como o Snapchat oferecem a possibilidade de compartilhar nudes com mais segurança, já que as imagens se cancelam após algum tempo. Mesmo assim, existe a possibilidade de a pessoa fazer um print do material, mesmo sabendo que o emissor será notificado.

Trocar fotos íntimas pode ser sim algo saudável, desde que exista uma confiança mútua. De qualquer forma, vale sempre a pena se precaver”, alerta Milka Freitas.

Cuidados simples podem evitar constrangimentos

Mas se você não abre mão de enviá-los mesmo sabendo dos riscos, evite mostrar seu rosto e marcas que o identifiquem nas fotos, como tatuagens ou pintas. O ideal é que sempre apague suas fotos e vídeos íntimos, mas se preferir armazená-los seja cauteloso. Um modo seguro é compactar os arquivos em uma pasta zip com senha.

No celular, existem aplicativos eficientes com senha para esconder seus tesouros, como o Private Photo Vault. Outra dica válida é evitar mandar o mesmo nude para várias pessoas. Sabemos que é difícil, mas considere que se a imagem vazar fica difícil saber quem foi o responsável.

Tome cuidado ao usar conexões WiFi compartilhadas em lugares públicos; elas podem ser armadilhas para roubar seus dados. Em virtude desse risco, evite usá-las pra mandar nudes e, se for inevitável, procure sites e aplicativos que forneçam conexões criptografadas.

Lei classifica ação como crime

Em 2012, foi criada a Lei Nº 12.737/2012, chamada de Lei Carolina Dieckmann, que marca o início das penalidades para quem comete crimes cibernéticos, alterando o Código Penal para tipificar como infrações uma série de condutas no ambiente digital, principalmente em relação à invasão de computadores, além de estabelecer punições específicas.

Se mesmo após tomar todos esses cuidados você for vítima de crime virtual, procure uma delegacia especializada na sua cidade ou na inexistência de uma delas peça orientação em qualquer outra delegacia.

Em Maceió, a vítima pode procurar a Seção de Combate a Roubos a Bancos (Serb), que atua também na investigação de crimes de internet. Algumas instituições como a ONG Safernet oferecem auxílio psicológico e orientações na esfera jurídica.

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Santana sem Mundaú: após enchente, cidade em AL vê rio secar

Por trás de desastres, há uma enxurrada de ações que provoca impactos ambientais

THIAGO AQUINO*

Águas do rio Mundaú desaparecem durante seca severa
Águas do Rio Mundaú desaparecem durante seca severa (Foto: Bacural Drones / cortesia)

“O Rio Mundaú morreu”. Esta afirmação é do pescador Júlio Honorato, de 60 anos, morador de Santana do Mundaú e que durante 30 anos viu o rio cheio de vida. Após sete anos da enchente que deixou mais de 3 mil desabrigados, o município que recebe o nome do rio tem vivenciado algo nunca visto: onde, antes, havia correnteza d’água hoje há apenas bancos de areia, pedras, baronesas, lixo, esgoto e animais.

O cenário é de abandono. O mau cheiro chama atenção de quem atravessa a pé enxuto e até os urubus se tornaram companheiros do rio. Em alguns pontos, há água parada em poços resultantes de extração de areia. Já em outros, a água corrente circula em dois ou três centímetros. A redução do volume de água fez aparecer objetos presentes no curso do rio. Vaso sanitário e até parte de uma carroça enferrujada se misturam às areias.

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Quem está impressionado com as imagens é Romildo Máximo, 43, que mora há mais de 20 anos em Guarulhos, SP, mas é natural do município da Zona da Mata Alagoana, a 110 km de Maceió. Ele e a esposa Adriana Santiago sempre visitam as famílias e, desta vez, foram surpreendidos com os efeitos da estiagem. Em um aplicativo móvel, eles compartilharam fotos com o sentimento de tristeza. “É a primeira vez que venho passear e vejo o rio numa situação dessa. É lamentável”, afirma Romildo.

As baronesas e outros tipos de vegetação escondem a água de cor escura, formam uma camada verde e consolam o rio. O problema é que o surgimento delas não é por um bom motivo. O biólogo Ronaldo Gomes Alvim explica que a presença das plantas é sinônimo de poluição. “A soma do baixo nível de água com o descarte de produtos químicos através do esgoto, faz proliferar o crescimento das baronesas”, justifica. “Elas servem como um tipo de filtro, mas consomem o oxigênio da água, provocando a morte de peixes”.

seca na zona da mata

Um dos motivos para a baixa vazão da água é a seca prolongada. O meteorologista Vinícius Nunes Pinho, da Secretaria Estadual de Recursos Hídricos e Meio Ambiente (Semarh), esclarece que não se trata apenas de uma estiagem. “Um dos causadores dessa falta de água foi o inverno de 2016. Nosso estado já vem passando por um período de estiagem desde 2015 e, no ano seguinte, choveu apenas 40% do que era esperado. Onde chove normalmente em torno de 1.300 a 1.400mm, choveu pouco mais de 600 mm”, recorda o especialista.

Seca em zona da mata surpreende até o meteorologista Vinícius Nunes (Foto: Thiago Aquino)
Seca em zona da mata surpreende meteorologista (Foto: Thiago Aquino)

Vinícius afirma que a recarga hídrica durante o inverno comprometeu o período do verão: “Aquela chuva supriu a necessidade apenas durante o inverno, mas não sobrou para adiante. A partir do momento quando não há chuva dentro da normalidade no inverno, já consideramos uma seca severa e ela vem se estendendo até agora”.

O mestre em Hidrometeorologia afirma que diversos fatores influenciaram a pouca chuva. “No ano passado foi o El Niño, o resfriamento das águas do Oceano Pacífico. Agora é o Oceano Atlântico que está mais resfriado que o normal na costa do nordeste, o que significa menor evaporação e menos combustível para que a chuva ocorra”, diz.

O desaparecimento da água do rio e a crise hídrica são situações atípicas, o que acaba surpreendendo os moradores. “É uma das regiões onde mais chove em Alagoas. Quem imaginaria que sete anos após a enchente, a Zona da Mata Alagoana sofreria com uma seca severa?”, questiona, surpreso, o meteorologista.

Chuvas em 2017 não serão suficientes para amenizar os reflexos da seca (Foto: Ilustração / Semarh)
Chuvas em 2017 não serão suficientes para amenizar os reflexos da seca (Foto: Ilustração / Semarh)

Começa na segunda quinzena de abril o período chuvoso, mas os efeitos da seca devem continuar.  “A perspectiva é que tenhamos um pouco mais de chuva do que ano passado. O volume vai ser mais próximo da normalidade, mas ainda não vai ser suficiente para repor todo o déficit que a região vem sofrendo”, reconhece.

A Sala de Alerta da Semarh mantém um sistema de monitoramento da seca em Alagoas. O município de Santana do Mundaú, até o boletim de abril, está na faixa vermelha do mapa, o que significa seca excepcional. Esse quadro pode comprometer o próximo verão.

“A tendência é que melhore um pouco, no entanto, mesmo chovendo dentro da normalidade, não resolve. No inverno as pessoas vão sentir a melhora, mas não terá água suficiente para o próximo verão. A situação é crítica”, alerta Nunes.

A pesca

Confira o vídeo abaixo!

Falta de peixes

Os pesquisadores garantem que o desaparecimento de peixes e crustáceos é resultado da falta de saneamento e do uso de agrotóxicos.  O processo por trás do crescimento das baronesas também provoca a morte das espécies.

Espécies de peixes e crustáceos encontrados com fartura no rio Mundaú do passado (Arte: Thiago Aquino / Imagens: Google Imagens)
Espécies encontradas com fartura no Mundaú do passado, segundo pescadores (Arte: Thiago Aquino / Imagens: Google Imagens)

“O nutriente MPK – que são nitrogênio, fósforo e potássio – quando usado em área agrícola, é carregado pela chuva até o rio e vai alimentar algas. Elas formam uma barreira impedindo a entrada de luz, que proporciona o consumo de oxigênio. Com a redução dele na água, os peixes morrem, porque são sensíveis a essa redução”, explica a engenheira florestal Milena Caramori.

Esses mesmos nutrientes são encontrados no esgoto que é lançado sem tratamento no rio. “O detergente e a urina, por exemplo, servem de adubo químico, o que a planta consome para crescer”, lembra.

A denúncia de pescadores de que veneno era jogado no rio também traz mais um motivo para as espécies não terem sido preservadas. “É um tipo de veneno que sequestra o oxigênio e o peixe morre e boia. O objetivo é de uma pesca mais fácil, mas o impacto ambiental é impressionante”, detalha Valmir Pedrosa, doutor em Recursos Hídricos e Saneamento.

“Rio com vida só em pintura”

Não há registros fotográficos da época em que Santana do Mundaú demonstrava ser um paraíso. Quem recordou um trecho do rio e colocou na tela um Mundaú completamente diferente de hoje foi Rosivaldo Rodrigues, 55. Por trás de cada parte do quadro, o pintor tem história para contar.

Rosivaldo retrata o rio Mundaú dos anos 70 em pintura (Foto: Thiago Aquino)
Rosivaldo retrata o Rio Mundaú dos anos 70 em pintura (Foto: Thiago Aquino)

“Jogamos bastante bola em um areado que tinha nas margens do rio. Havia grupos divididos pelas localidades antes e depois da ponte, ninguém passava para o lado do outro, mas sempre tinha um torneio, quando todo mundo se juntava. Era bom demais”, narra.

O artista comenta que tentou mostrar na pintura o “Banho da Maroca”, citado por muitos moradores da cidade como um ponto de encontro para diversão e pesca. “Isso aqui só podemos ver agora em pintura”, lamenta Rosivaldo.

Registros de extração de areia durante análise em 2012 (Fotos: Elvis Pantaleão)
Registros de extração de areia durante análise em 2012 (Fotos: Elvis Pantaleão)

O problema do rio não é apenas provocado pela falta de chuva. Uma série de ações vem matando o Mundaú.  Um trabalho realizado entre 2011 e 2012 apresentou um diagnóstico ambiental de trechos da Bacia Hidrográfica do rio em Santana do Mundaú. No áudio abaixo, Elvis Pantaleão, um dos autores e mestre em Engenharia Ambiental, explica a conclusão da pesquisa.

Após cinco anos deste estudo, a realidade não mudou. O esgoto de toda área urbana é jogado no rio sem nenhum tratamento. Com pouca água, o leito do rio parece servir apenas como canal de esgoto. Água escura e mau cheiro mostram um rio nunca visto antes. Até galinhas buscam minhocas na terra úmida.

Porcos, cavalos, bois são criados dentro do Mundaú. Com vários mandatos no Legislativo, o vereador Ivan Ferreira (PMN) reconhece que nenhuma lei municipal específica proíbe esta situação. “Não tem lei que proíba o domínio de área na margem do rio como propriedade privada para criação de animais”, diz. “Mas também não há alguma que autorize”, observa o vereador.

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A Agência de Defesa e Inspeção Agropecuária de Alagoas (Adeal) não respondeu se oferece alguma ação de conscientização ou fiscalização destes pequenos produtores ribeirinhos. Até o fechamento da reportagem, ela não retornou os e-mails.

Impactos

Diego Freitas, doutor em Ciência Política e membro da Associação Brasileira de Avaliação de Impacto (ABAI), aponta que para compreender o problema de escassez de água do Rio Mundaú é preciso analisar todo o contexto onde e como o rio está inserido na sociedade.

Diego Freitas
Diego Freitas explica os impactos causados pela urbanização (Foto: Thiago Aquino)

“Historicamente as aglomerações urbanas se formam a partir dos rios. Então, o Mundaú se encontra numa região antropizada, ou seja, ela traz atividades econômicas como pecuária e agricultura – que são atividades de altos impactos -, além da urbanização, resultando num processo de mudança no uso do solo e que altera as características físicas locais”, analisa Freitas.

Ele critica a própria sociedade por não cuidar dos recursos pelos quais é beneficiada. “O problema é que a sociedade precisa do rio, mas ele não se torna uma prioridade,do ponto de vista de gestão pública, para as condições adequadas e necessárias”, afirma.

Com atuação em Avaliação de Impacto Ambiental, o professor do Centro Universitário Tiradentes, Unit, elenca as principais causas para os impactos ambientais sofridos pelo Rio Mundaú: o fim da mata ciliar, o descarte irregular de resíduos, a extração de areia e o uso de agrotóxico em áreas agrícolas.

impactos ambientais

Também há práticas dos próprios moradores que contribuem para a degradação do Mundaú. O funcionário público Luiz Antônio, 54, queixa que existe a coleta de lixo na cidade, mas que mesmo assim o lixo vai parar no rio. “Tem gente que espera o caminhão do lixo passar, pega as sacolas e joga de rio afora”, diz o morador.

Antônio também critica a retirada de areia com as dragas. “Foram nove dragas desde a enchente que acabaram com o rio. Até uma ponte na zona rural caiu, porque antes mesmo da enchente, a draga foi puxando areia debaixo da ponte e quando a cheia passou a estrutura cedeu”, revela.

A reportagem solicitou informações ao Instituto do Meio Ambiente (IMA) sobre a atuação do órgão diante das ações de extração de areia em Santana do Mundaú, mas não obteve resposta por e-mail aos questionamentos.

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Tragédia deixou município em situação de calamidade pública (Foto: MD Imagens)
Tragédia deixou município em situação de calamidade pública (Foto: MD Imagens)

Para quem não conhece o histórico do Rio Mundaú, não imagina que foram as águas que passaram por ele que deixaram o município em estado de calamidade pública por seis meses. De acordo com a Defesa Civil Estadual, a enchente de 2010 deixou, no município, 4.250 desabrigados e desalojados e uma pessoa desaparecida naquela sexta-feira, 18 de junho.  A enxurrada destruiu o comércio de Santana do Mundaú, prédios públicos e igrejas.

Gilmar foi visto pela última em cima de prédio (Foto: O Jornal)
Gilmar foi visto pela última vez em cima de prédio (Foto: O Jornal / Reprodução)

O comerciante Gilmar Alves Brasileiro, aos 45 anos, foi levado pelas águas do Rio Mundaú e o seu corpo nunca foi encontrado. O irmão, vereador José Alves Brasileiro, popularmente conhecido como Genor, recorda que Gilmar chegou a retirar uma moto do prédio, que também funcionava como bar, e a colocou em uma rua mais alta, mas voltou à pousada por receio do prédio ser saqueado.

“Quando a água começou a subir, ele foi pegando o que podia e levando para o primeiro andar. A água não parou de subir e ele, mesmo já cansado, ainda recorreu ao segundo andar. Depois disso ficou na cobertura do prédio, onde ficou até os seus últimos momentos com vida”, relata Genor. A pousada foi arrastada para uma rua próxima e parte dela, curiosamente, ficou intacta.

Irmão de Genor foi levado pelas correntezas durante a enchente de 2010 (Foto: Thiago Aquino)
Irmão de Genor foi levado pelas correntezas durante a enchente de 2010 (Foto: Thiago Aquino)

“Se eu não estivesse na correria na minha casa também por causa da cheia, eu não teria deixado meu irmão lá. Na enchente de 92, eu e meu pai éramos comerciantes e deixamos o prédio, mas Gilmar não tinha visto aquilo antes e se confiou na estrutura do prédio”, lamenta Genor.

enchente mundaú
Parte de pousada foi arrastada (Foto: Gazeta do Povo)

Além da dor da perda, os parentes e amigos de Gilmar ainda carregam a tristeza de não encontrar o corpo. O vereador diz que a família não recebeu nenhum apoio de imediato: “Após a água baixar, rodei toda a região a pé à procura dele. Infelizmente só depois de três dias é que o Corpo de Bombeiro chegou para fazer buscas. Foi em vão”.

O cenário devastador repercutiu na imprensa, mobilizou o país em uma rede de solidariedade e mudou os rumos de Santana do Mundaú, que comemorava 50 anos de emancipação quatro dias antes da tragédia e assistia à Copa do Mundo no Brasil.

Hoje, a cidade vive dividida. São 1.261 casas, uma praça, duas escolas, postos de saúde e secretarias que funcionam no Residencial Santana do Mundaú construído pelo Programa da Reconstrução.

extremos

É grande a possibilidade das cidades ribeirinhas sofrerem com uma enchente no inverno e verem o rio secar no verão. O principal motivo é o desmatamento. Quem comenta esse fenômeno é a engenheira florestal Milena Caramori, autora do estudo sobre a influência da mata ciliar na qualidade da água.

Engenheira florestal garante que é possível recuperar rio (Foto: Thiago Aquino)
Engenheira florestal garante que é possível recuperar rio (Foto: Thiago Aquino)

“Quando uma área é 100% florestada, de toda água precipitada temos 90% de água infiltrada no solo. As próprias árvores consomem de 60 a 70% por evatranspiração. O restante abastece o aquífero, formação geológica subterrânea capaz de armazenar água. É essa água que vai interagir com o rio, regularizando o fluxo de água”, explica. “Em época de seca severa, é importante que este aquífero esteja abastecido para manter a vazão do rio até que venha outra chuva”.

Sem este ciclo natural, o desequilíbrio ambiental é inevitável e é o motivo para as mudanças climáticas e os desastres ambientais. “Uma área desmatada aumenta a taxa de escoamento superficial porque reduz a taxa de infiltração. A água que infiltraria vai escoar rapidamente em direção ao rio. Com o solo desprotegido e o saturamento da superfície, areia e terra serão carregadas pela chuva, causando assoreamento”, expõe Milena, professora do Centro Universitário Tiradentes, Unit. “Isso, no inverno, agrava o pico de cheia, porque o rio aumenta o volume rapidamente”.

Mata ciliar influência na qualidade do rio (Arte: arvoresertecnológico.tumblr)
Mata ciliar influência na qualidade do rio (Arte: arvoresertecnológico.tumblr)

Professor da disciplina de Hidrologia na Universidade Federal de Alagoas, Ufal, e co-autor do artigo que analisou a enchente de 2010, Valmir Pedrosa avalia que o histórico de enchentes e o atual cenário do rio não descartam próximos desastres: “É um rio que pode oferecer grandes episódios de cheias, como já aconteceu, assim como pode apresentar períodos críticos de baixas vazões”.

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Ações integradas

Pedrosa tem experiência na área de Engenharia Sanitária, com foco em Planejamento Integrado dos Recursos Hídricos, e garante que para reverter a situação do Mundaú “não é só uma ação”.

É preciso ações integradas, diz professor de Hidrologia (Foto: Thiago Aquino)
É preciso ações integradas, diz Valmir Pedrosa (Foto: Thiago Aquino)

“Nunca vai ser só educação ambiental, nunca vai ser só reflorestamento, nunca vai ser só mobilização social em torno do rio, controle da extração de areia, criação do comitê da bacia do rio… É tudo isso ao mesmo tempo”, defende o professor dos cursos de Engenharia Civil e Engenharia Ambiental da Ufal.

Da Câmara de Vereadores ao governo federal, o grande desafio de recuperar o Mundaú deve ser enfrentado por todos. “São vários órgãos que podem salvar o rio: municipais, estaduais e federais, mas é preciso que se integrem. Destacaria o papel do prefeito que conhece a realidade e, numa situação dessa, ele tem um papel importante para mobilizar e fiscalizar”, comenta Valmir.

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No áudio abaixo, ele comenta a realidade do rio e o que pode ser feito para salvá-lo.


Educação ambiental: “trabalho em longo prazo”

A educação é falha, diz mestre em Educação Ambiental
A educação é falha, diz mestre em Educação Ambiental (Foto: Thiago Aquino)

A recuperação do Rio Mundaú é mais complexa do que se imagina, mas não impossível. Ronaldo Alvim, PhD em Biologia Social e mestre em Educação Ambiental, afirma que a solução não está em apenas conscientizar a população, mas na educação: “Conscientizar não leva a mudança de hábito. Mudança de hábito se chama vontade popular e isso depende de uma educação consistente que vai levar a pessoa pensar como faz para viver melhor no seu mundo”.

O doutor em Meio Ambiente Natural e Humano em Ciências Sociais põe em dúvida se isso é uma realidade próxima. “O problema é que a educação é falha: como esperar isso de um lugar onde poucos tiveram a oportunidade de estudar? Quem chega ao Ensino Superior, não volta mais lá”, reflete.

O que diz a ANA

A Agência Nacional das Águas, ANA, garante que “tem trabalhado com os estados de Pernambuco e Alagoas no sentido de apoiar a implementação da gestão de recursos hídricos”. O órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente informou que estudos estão sendo elaborados sobre as bacias hidrográficas do Mundaú e do Paraíba para discussões previstas para agosto deste ano.

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Ganhar dinheiro por preservar

Questionada se a Prefeitura Municipal pode solicitar algum projeto de preservação e/ou recuperação do rio, a Agência lembrou e recomendou o projeto Produtor de Água que estimula a política de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). “O Programa apoia, orienta e certifica projetos que visem a redução da erosão e do assoreamento de mananciais no meio rural, propiciando a melhoria da qualidade e a regularização da oferta de água”, informou.

Para ser beneficiado com um dos projetos, o Município deve ficar atento aos editais que são lançados pela ANA a cada três ou quatro anos. O último foi lançado em 2014 e selecionou 18 projetos que recebem apoio técnico, institucional e financeiro. “Os pagamentos diferem entre R$ 120,00 e R$ 800,00 por hectare por ano a depender da área e do serviço ambiental prestado. São feito por depósito nas contas dos produtores rurais beneficiários”, explica a assessoria.

Questionamentos ignorados

Mesmo com várias tentativas, a reportagem não conseguiu um posicionamento da Prefeitura de Santana do Mundaú diante dos problemas citados. Por telefone, foi solicitada, aos assessores, uma entrevista com o prefeito Arthur Freitas (PMDB), mas não houve retorno.

*ESTUDANTE DE JORNALISMO

Reportagem produzida entre fevereiro e abril de 2017 sob orientação do professor Josbeth Macário

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Trânsito: novas tecnologias no ensino

Por Marcelo Nivaldo Jr

O risco de acidente de trânsito aumenta quando o condutor utiliza o celular enquanto está dirigindo, mas essa plataforma tecnologia também pode prevenir acidentes. Os Centros de Formação de Condutores em Alagoas estão aderindo a plataformas tecnológicas, a fim de conscientizar dos riscos de mortes no trânsito.

A inclusão digital para quem está tirando a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) vem, não só para preparar o aluno, mas para ensina-lo a dirigir de forma defensiva, assim, prevenindo acidentes. Dessa forma, os Centros de Formação de Condutores (autoescolas) vêm investimento na educação para o trânsito com aplicativos para smartphone.

Um exemplo de app é o “SuperPrático Aluno”, que permite ao aluno treinar e revisar tudo que o aprendeu com o instrutor da autoescola nas categorias A (moto) e B (carro) em qualquer hora e lugar. O software auxilia o futuro condutor nos conhecimentos sobre a legislação de trânsito, com questões da parte teórica do curso de direção.

SuperPrático Aluno
SuperPrático Aluno

Com este simulador de bolso o usuário pode pilotar uma moto, em todo percurso exigido na prova do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), além de fazer baliza, meia-embreagem e andar com um veículo virtual em vários ambientes. Caso o aluno venha a cometer alguma infração durante o percurso, ele é informado quantos pontos perderia se fosse um teste real. 

Os smartphone são inimigos da direção, mas podem ser bem úteis para conscientizar, não só aos motoristas e aprendizes, mas a sociedade de como proceder para reduzir o número de acidentes. A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que o trânsito mata mais pessoas no mundo de forma não natural. A entidade pretende reduzir em pelo menos 50% os números de mortos no trânsito até 2020, mas segundo o Portal de Estatística do Observatório Nacional de Segurança Viária, Iris, as estatísticas mostram o contrário:

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Década Mundial da Segurança Viária (2010-2020)

Para capacitar os futuros condutores os meios tecnológicos e pedagógicos, como o Simulador de Direção Veicular, permite unir o real e o virtual com a possibilidade de aprimorar a direção em várias situações, sendo aquelas que não poderiam ser executadas em um carro real, devido ao alto risco de acidente.

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Seguro ambiental: uma alternativa para o desenvolvimento econômico sustentável

Alagoas abre campo da indústria e da rede hoteleira, mas é carente na oferta do produto

Ana Flávia Machado, Gabriela Garrido e Mariane dos Santos

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Indústria Braskem (Polo Industria José Aprígio Vilela- Marechal Deodoro)/Foto: Marcel Mateus

Acaloradas são as discussões entre o poder público e o setor privado quanto à concessão de licenças ambientais para grandes investimentos no Estado de Alagoas. É que, junto ao desejo de crescimento econômico, vem também a responsabilidade com o Meio Ambiente. O seguro ambiental traz uma nova perspectiva de sustentabilidade agregada às companhias, no entanto, não existe nenhuma seguradora alagoana que atua na área, e o que se vê é um conceito pouco difundido entre as indústrias.

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Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (Fiea), 4.200 indústrias estão cadastradas no órgão e atuam em todo o estado. Deste total, 90% são alagoanas, e as demais, que foram instaladas a partir do ano de 2010, são do Centro-Sul do Brasil.

Destas empresas, segundo a Fiea, o setor predominante é do químico e plástico, seguido, em menor escala, pelos produtos de metal/mecânica, alimentos, cerâmica e pré-moldados.

Alagoas possui ainda dez polos espalhados em todas as regiões do estado com um total de 193 indústrias. As manchetes dos principais jornais do estado registram que investimentos na região nos setores químicos e do plástico são reais. Assim, o mercado de seguro ambiental pode aproveitar o ambiente favorável e oferecer seu serviço.

Ainda de acordo com a Federação, os produtos como cloro, soda cáustica, dicloretano e PVC foram os que registraram maior crescimento nos últimos anos. E é justamente o setor químico e de plástico que faz aumentar a preocupação diante de um possível acidente.

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Arte: Gabriela Garrido

O seguro ambiental está relacionado à consciência de que uma atividade econômica pode danificar o meio ambiente. Numa tendência crescente de abertura de novas indústrias em Alagoas e da expansão das redes hoteleiras nas regiões litorâneas do Estado, este seguro é um dos instrumentos que as empresas geradoras de impacto ambiental podem aderir para prevenir ou reparar o dano.

Apesar disso, não existem seguradoras alagoanas que atuem na área de seguro ambiental em Alagoas. No Sistema de Estatísticas do site da Superintendência de Seguros Privados (Susep), de janeiro até agosto de 2016, apenas duas seguradoras possuem contratação, com um prêmio total de R$ 36.961. O estado está na 23ª colocação – numa lista de 24 estados com contratos firmados –, à frente apenas do Piauí.

Atuação do seguro ambiental

Resultados de estudos desenvolvidos pelas seguradoras Chubb e ACE, especializadas em seguro ambiental no Brasil, demonstram que este mercado começou a ser discutido na década de 1980 nos Estados Unidos, após uma avalanche de acidentes envolvendo grandes indústrias que causaram impactos significativos ao Meio Ambiente. Os dados foram apresentados no Seminário “Riscos e Seguro Ambientais: legislação, áreas contaminadas, transporte, indústria e resíduos sólidos”, em novembro de 2015 em São Paulo, e abril de 2016 no Rio de Janeiro. Atualmente, o seguro ambiental movimenta mais de dois bilhões de dólares nos Estados Unidos. Já no Brasil, a primeira apólice de Responsabilidade Civil por Dano Ambiental foi contratada muitos anos depois, em 2004, trazida pela seguradora Unibanco AIG.

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Com crescimento lento até 2015, o seguro ambiental no mercado brasileiro ganhou discussão depois do rompimento das barragens da mineradora Samarco, na cidade de Mariana, em Minas Gerais, no dia 5 de novembro daquele ano.

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Moacir Filho atua na área de seguros há 20 anos, é professor do MBA em Seguros e Previdência da Fundação Instituto de Administração e executivo da TRR Securitas./ Foto: Cortesia.

De acordo com o responsável pelo setor de Riscos Patrimoniais e Financeiros da corretora de seguros TRR Securitas de São Paulo, Moacir Filho, o impacto em Mariana é o que melhor registra a importância deste seguro para as empresas com danos em potencial.

“O episódio ocorrido em Mariana é o principal sinistro que colaborou de forma expressiva para a consolidação desta modalidade de seguro no Brasil. É irônico que aqui seja necessário um sinistro de grande porte para que o mercado adquira a cultura da necessidade de compra de seguros”, afirma Moacir Filho, que é  especialista em riscos ambientais.”

Segundo Moacir, as empresas envolvidas na responsabilização do acidente em Mariana negligenciaram o seguro ambiental a um ponto que o valor segurado só custeava parte dos prejuízos, visto que a reparação bilionária e as multas ultrapassaram o valor da apólice.

 “A apólice arcou até o limite máximo de indenização com o caso. Porém, infelizmente, os prejuízos causados foram muito além do valor contratado no seguro. Este tipo de situação demonstra que a responsabilidade civil é ilimitada. Nossa recomendação aos clientes é que, quando se tratar de limites para as apólices de Responsabilidade Civil, sempre contrate o maior limite possível”, explica.

 

Serviço complexo e cultura pouco favorável

Para o diretor do Sindicato de Corretores do Estado de Alagoas, Djaildo Almeida, a carência em um mercado que tem tudo para ser promissor tem dois motivos: a falta de consciência das indústrias e um problema cultural em nível regional.

A maioria das indústrias, principalmente a química, possui diversas coberturas, em situações bastante específicas, como é o caso da cláusula de seguro de transporte. O seguro ambiental é mais amplo e cumpre também uma função social: dependendo da apólice, ele pode cobrir o maior número de danos possíveis, e simultaneamente, desde os prejuízos à empresa, até os danos ecológicos e a terceiros.

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Em 2013, a corretora de seguros Willis Brasil, pertencente a Willis Group, com sede na Inglaterra mas com diversas consultorias espalhadas nos estados brasileiros, realizou um estudo sobre a evolução do seguro ambiental em diferentes mercados nos países. O tema central foi “Danos ambientais: Responsabilidade Civil das Empresas, desafios e soluções de transferência de Riscos”.

De acordo com o estudo, “o Seguro Ambiental não é estático, ele evolui sempre para cada cenário e localidade e existe para ser trabalhado de forma preventiva para ajudar as indústrias e empresas de todo o mundo”.

Atualmente, a corretora confirma que há um aumento na procura pelo produto porque houve uma inserção do seguro ambiental no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).

“Os acionistas começaram a demandar dos administradores a contratação da cobertura do seguro, principalmente porque o seguro influencia no desempenho das empresas que estão no ranking da Bovespa. O seguro tem como objetivo a minimização dos riscos, prevenção de perdas e também Plano de Continuidade dos Negócios”, afirmou à reportagem a assessoria de imprensa da corretora.

Moacir Filho acredita que é viável e possível a consolidação deste mercado no Brasil. Mas assegura que o caminho é longo. “O seguro de Responsabilidade Civil ambiental é recente no Brasil e tem sido ofertado por poucas seguradoras. Temos, portanto, um longo caminho a percorrer. Contudo, a grande maioria das modalidades de seguro possui um longo fluxo de vendas e apesar de ser um mercado crescente, é estimado que ainda teremos uns dez anos pela frente para maturidade e consolidação do produto”, considera o especialista.

Mercado Monoproduto X Falta de conhecimento das seguradoras

Em nível nacional, embora com maior engajamento na região Sudeste do país, este seguro prossegue em fase de amadurecimento.  Para a seguradora Chubb, a operação deste produto é pouco conhecida no Brasil. E poucas são as companhias que conhecem com profundidade o contrato e como ele funciona.

No que isso resulta? Segundo o estudo da seguradora, o desconhecimento por parte das companhias que pretendem se inserir no mercado acaba por levar a indústria interessada a desistir da contratação porque ou não entendeu, ou entendeu de maneira errada.

Segundo a seguradora ACE, seis anos após a implantação do seguro ambiental no país, o mercado teve pouca evolução. As seguradoras desistiam de operar o serviço devido ao preço elevado das coberturas, alto custo de inspeção e a complexidade do produto. No entanto, após 2010 este mercado cresceu mais de 200%.

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Para Djaildo Almeida, mercado alagoano de seguro desconhece produtos mais especializados, como o ambiental. Foto: Mariane dos Santos

O diretor do Sincor, Djaildo Almeida, segue a mesma linha de pensamento, e alega ainda, que o mercado de seguros alagoano é baseado no “monoproduto” e que concentração de áreas acaba por negligenciar outros tipos de seguros necessários, mas menos conhecidos, como o ambiental.

“O corretor de seguros, na maioria das vezes, é muito monoproduto. Foca nos mesmos seguros, como o automotivo, por exemplo, e acaba não trabalhando os outros”, afirma o diretor

Em todo o Brasil, o número não é animador. Somente sete seguradoras são especializadas no ramo da Responsabilidade Civil por Danos Ambientais. Destas, três trabalham com coberturas amplas, e as demais com o produto ambiental para transporte.

Em pelo menos três estados do país não há registro no sistema de estatísticas da Susep de contratação do seguro, de janeiro até agosto de 2016. São Paulo é o estado, neste ano, que possui o maior prêmio no Brasil: pouco mais de R$16 milhões.

Em 2014, o valor total do prêmio de contratação chegou a pouco mais de R$ 44 milhões, de acordo com os dados da Susep, e em 2015, aumentou para R$ 45 milhões, de acordo com a companhia AIG. Um contraste gigantesco se comparado com o mercado bilionário norte-americano.

Para Moacir, os números apresentados na Susep refletem a lentidão que o seguro ambiental passa para se consolidar no mercado.

“A interpretação reflete que a arrecadação deste seguro ainda é baixa, se comparado aos seguros de Riscos Operacionais e as outras modalidades de Responsabilidade Civil. O estado de São Paulo concentra os principais centros de decisão das empresas brasileiras, é compreensivo que a SUSEP reflita este como o principal mercado, mesmo que o risco, em sua natureza, esteja em outro estado, como por exemplo, na zona franca de Manaus”, explica.

Expansão imobiliária: oportunidade de negócios

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Legislação

Dois Projetos de Leis (PL) foram apresentados na Câmara dos Deputados para a obrigatoriedade do seguro ambiental. São eles: PL 937/03 e PL 2313/03. O primeiro dispõe condições para a concessão da licença ambiental, desde que estas condições estejam agregadas ao seguro.

O segundo estabelece claramente a obrigatoriedade deste tipo de seguro para todas as atividades potencialmente causadoras de danos, sejam elas realizadas por meio de pessoa física ou pessoa jurídica.

Isto significa dizer, por exemplo, que o alvará de funcionamento da empresa só seria concedido mediante apresentação do seguro ambiental, caso o projeto seja aprovado.

O gerente de monitoramento do IMA vê na obrigatoriedade do seguro ambiental uma garantia da reparação do dano.

“A gente [IMA] acha ótimo [obrigatoriedade do seguro]. Se um empreendimento causou um impacto ambiental e ele tem o seguro, a gente tem certeza de que, com um contrato formalizado, o reparo estará garantido”, afirma.

 

O diretor do Sincor-AL, Djaildo Almeida, também afirma ser favorável à obrigatoriedade. No entanto, faz algumas considerações.

“A obrigatoriedade, com certeza, traria maior proteção às empresas e à população. O problema é que o legislador, quando cria um projeto deste, não senta com o mercado, para chegar a um denominador comum que seja legal para todo mundo. O ideal é consultar o mercado segurador e o mercado afetado, neste caso os ambientalistas”, considera.

Já o especialista em riscos ambientais, Moacir Filho, discorda que o caminho seja a obrigatoriedade, visto que o empresariado precisa reconhecer primeiramente a importância do seguro na gestão empresarial.

“Acho que o caminho mais correto esteja na identificação do valor do seguro por parte de clientes, fornecedores e sociedade.  Uma vez que as partes identifiquem o valor que a apólice de seguro tem na gestão de risco da empresa, concordarão em pagar o preço justo para adquiri-la. Caso contrário, será mais uma, dentre tantas obrigações, que o empresário possui e não enxerga retorno”, assegura.

Expansão do seguro ambiental

Interesse das seguradoras para dá o suporte, especialização dos corretores, abertura dos empreendimentos ao mercado de seguro ambiental alagoano e mudança cultural das indústrias alagoanas. Esta é uma síntese do trajeto que deve ser percorrido no estado, segundo o diretor do Sincor, Djaildo Almeida.

Para a Chubb, durante apresentação do Seminário no Rio de Janeiro, “tomadores de decisão sobre seguros nas empresas necessitam ouvir mais seu time de Meio Ambiente e Jurídico” para um maior crescimento do ramo no Brasil.

Alguns mitos precisam ser quebrados quanto à operação deste tipo de seguro. É o que concluiu, durante o seminário, a companhia AIG. Dentre os mitos estão os de que o seguro ambiental é caro e sua negociação é complexa.  Ou o mito de que a empresa acredita não possuir risco ambiental, ou que possui todos os riscos controlados.

Moacir Filho também acredita que a saída está na percepção das indústrias sobre o seguro ambiental. Para ele, elas devem identificar o valor deste produto para concordar em pagar um preço justo, que cubra os riscos dos quais estão vulneráveis.

“Acredito que a evolução na adesão deste seguro é um processo contínuo que depende da consciência do empresário quanto ao valor que o seguro representa na gestão de risco da sua empresa. O episódio de Mariana foi determinante para levar esta reflexão a todos que lidam com algum tipo de risco ambiental”, finaliza.

 

 

 

 

 

 

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Colégio Tiradentes: uma escola pública modelo em Alagoas

Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Alagoas se destaca das demais escola públicas do estado, com índices positivos no Ideb e no Enem, de 2015

 Marcelo Nivaldo Jr e Sônia Vasconcellos


O Colégio Tiradentes da Polícia Militar (CPM) foi a escola mais bem avaliada entre todas as unidades da rede estadual de ensino de Alagoas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), de 2015. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).

A instituição conquistou o primeiro lugar no Ideb, dentre os alunos do 5º ao 8º ano e da 3ª série do Ensino Médio, das escolas públicas da rede estadual de ensino do estado, com uma média de 6.0 pontos entre os alunos do Ensino Fundamental. O colégio também já havia sido o mais bem avaliado em 2013, com a pontuação de 4.9.

O Tiradentes também garantiu, mais uma vez, a primeira colocação no Exame Nacional do Ensino Médio, com a média de 514,87 pontos. Sendo, portanto, considerada a melhor escola pública de Alagoas, segundo os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais.

O Ideb é um indicador de desempenho da educação brasileira divulgado a cada dois anos pelo Inep. Ele relaciona duas dimensões: o desempenho dos estudantes em avaliações de larga escala e a taxa aprovação.

O critério analisado no Enem inclui todas as escolas em que pelo menos 50% dos estudantes matriculados no terceiro ano do ensino médio participaram do Enem 2015. O colégio militar está na 54ª melhor nota entre todos os colégios do estado.

Bem avaliado, o colégio funciona como quartel

O visual do aluno também tem que estar nos padrões militares: cabelos cortados e arrumados no padrão militar, uniforme limpo e passado a ferro e, ainda, prestar continência para todo corpo escolar. Outras obrigações militares são atribuídas aos estudantes, a exemplo, da solenidade de hasteamento das bandeiras do Brasil, de Alagoas e do colégio.

A disciplina do aluno conta até na permanência dele na escola. Diferentemente dos demais colégios, o regimento do Tiradentes permite que o aluno rebelde seja expulso da unidade.

O ensino

O CPM aplica atividades diferenciadas ao corpo discente, tais como atividades esportivas, realização de visitas de campo, participação de concursos literários e olimpíadas de ensino.

Além destas atividades, existe ainda o enfoque para a disciplina Continências e Sinais de Respeito, que estabelece as honras e normas para disciplina e respeito, próprias de uma instituição militar. Os alunos do terceiro ano recebem reforço de disciplinas isoladas de cursinho pré-vestibular que foi contratado pelo próprio colégio.

Ingresso de novos alunos

Anualmente, o Colégio Militar Tiradentes realiza processo seletivo para ingresso de novos alunos. É realizado por meio de concurso de admissão do 6º ano do ensino fundamental a 2ª série do ensino médio.

Em Arapiraca, as vagas ofertadas compreendem do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. Nas duas unidades de ensino, as vagas são, prioritariamente, a filhos de militares desde que tenham as maiores notas obtidas no processo seletivo. Se o filho do militar não obtiver nota para ingressar, sua vaga fica disponível para os filhos de civis.

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Bullying na escola: seu filho está protegido?

No posto de uma das capitais com maiores índices de provocações e ofensas do país, seguro anti-bullyng ainda é desconhecido por empresas e escolas de Maceió

Rafaela Pimentel e Yasmin Assis

Tudo começa com um apelido inofensivo. Nos trabalhos em grupos ou em jogos, ele é sempre o último a ser escolhido. Aos poucos, a rotina de intimidação e ofensas assume um poder de transformação na vida escolar e até mesmo na personalidade das vítimas. Do racismo às humilhações difamatórias, o bullying é uma das formas de violência que mais cresce no país. E em Alagoas a situação é ainda mais alarmante.

No posto de uma das cidades com maiores índices de homicídio entre jovens, a capital Maceió protagoniza um dos principais palcos desta prática. Em última pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a saúde escolar no país, já em 2012 pelo menos 57,9% dos estudantes declararam ter sofrido algum tipo de provocação pelos colegas. Desse total 35,2% são alunos de instituições privadas.

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Hoje, cinco anos depois deste diagnóstico, as unidades de ensino em Maceió ainda andam a passos curtos na busca por medidas preventivas e permanecem, inclusive, vulneráveis a possíveis processos jurídicos. Enquanto estados como São Paulo e Rio de Janeiro disseminam uma nova modalidade de seguro no mercado, o anti-bullying, e resguardam-se de futuras indenizações às famílias: o serviço ainda é desconhecido entre as escolas e a maioria das seguradoras de Alagoas.

O medo que as famílias e jovens possuem em tomar a iniciativa legal contra a instituição de ensino é um dos principais fatores que fazem com que este tipo de proteção permaneça inexplorada. Isso porque, muitas vezes, esta atitude tende a transformar a convivência escolar da criança ainda mais complicada, tornando-as um alvo mais frágil às agressões físicas ou emocionais. Foi ainda no colégio, com apenas 17 anos, que a rotina de constrangimentos e acusações iria mudar a vida de J.F de maneira definitiva.

“Quando cursava o 2º ano da escola, mandei fotos pessoais para um menino que gostava. A gente estudava juntos e durante muito tempo isso nunca me causou problema até que estas imagens vazaram. Estava na ceia de natal com a minha família quando descobri e naquele momento sabia que tudo ia mudar. Não tinha noção de como reagir ou que medidas tomar, eu era apenas uma adolescente e de repente comecei a ser criticada e recriminada de todos os lados, principalmente, pela própria instituição”, desabafa J.F


Desde responsabilizar a falta de “boas maneiras” ou culpar a ausência de religião da vítima, a estudante chegou a ser convidada a se retirar do colégio.

img-20161003-wa0048“Não recebi qualquer tipo de apoio psicológico. É assustador como as unidades de ensino ainda não sabem tratar este tipo de situação. Naquela época optei por não tomar providências jurídicas, mas hoje entendo que esta é uma medida importante como alerta às famílias e escolas”, afirma.

Além de desumano, o posicionamento intolerante da escola representa o despreparo com que as instituições ainda lidam com estes casos. Nestas situações, de acordo com a psicóloga clínica Nielky Borges, é justamente por se caracterizar como um ambiente de socialização que, a depender da postura assumida, as unidades de ensino podem ser tornar tanto um local de proteção como desencadeadora de problemas.

“Entendemos bullying como um agente tóxico, um estressor que pode favorecer o desenvolvimento de inúmeros transtornos mentais. Uma das emoções mais frequentes nestes casos é a raiva e quando a mesma não é vivenciada de forma funcional, pode levar a inúmeros problemas”, explica a especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental. Por isso, a comunicação entre escola e pais é essencial, principalmente, no aspecto da prevenção.

Vulnerabilidade x segurança

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Se por um lado o medo do aumento de desgaste para as crianças inibe a ocorrência de mais processos, do outro cresce a percepção das famílias de que do portão para dentro a responsabilidade passa a ser da escola. É aqui que o trabalho pedagógico exclusivo de combate ao bullying deixa de ser suficiente. O Código Civil entende que o colégio é encarregado da reparação dos estudantes e sem precaução as unidades de ensino ficam suscetíveis a indenizações por danos físicos e morais.

Na teoria, o bullying é entendido sob a ótica jurídica como uma intimidação sistemática, que pode acontecer tanto em escolas quanto no ambiente de trabalho. Uma vez presente nos espaços de ensino, passa a ser papel de toda e qualquer instituição agir na prevenção destes episódios, seja por meio de campanhas ou projetos de conscientização. Às famílias está garantido o direito de providenciar um boletim de ocorrência indicando as datas e horários das ameaças/agressões.

Em meio a propagação recente da modalidade, o professor doutor em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Marcos Ehrhardt, defende a ideia de que o seguro anti-bullying é apenas uma ampliação na cobertura de Responsabilidade Civil já consolidada no mercado. O que acontece, na realidade, é um apoio mais específico e sistemático às unidades de ensino na garantia de respaldos a indenizações pontuais para casos de ofensas que envolvam o ambiente escolar.

“Nestas situações mais particulares, a conduta correta é que as escolas informem aos pais de ambas crianças – vítimas e abusador – e tomem as medidas pedagógicas necessárias. Elas podem vir por meio de advertência, suspensão ou até mesmo expulsão. Caso os pais da vítima queiram ainda assim entrar com a ação, o Juizado da Infância e Juventude que fica responsável pela análise do caso e as possíveis indenizações por danos morais”, esclarece Marcos Ehrhardt.

A grande novidade, contudo, é que a preservação do patrimônio, não é o único benefício proporcionado aos segurados neste tipo de serviço de responsabilidade civil. Uma vez aderido o seguro, as instituições de ensino – sejam elas colégios, escolas de idioma ou universidades – são ainda resguardadas na defesa jurídica de funcionários, e até mesmo no pagamento de fisioterapia, apoio psicológico, transporte para a frequência dos estudos e aulas domiciliares às vítimas.

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Mesmo na posição de única aluna negra na escola, T.A.S é mais uma das milhares de crianças que sofreu bullying, e não contou com o respaldo adequado da instituição. Sem seguro ou qualquer tipo de trabalho de prevenção na escola, T.A.S permaneceu vulnerável ao cotidiano de humilhações verbais repetitivas praticadas pelos colegas de sala. Mais uma vez, o receio e falta de conhecimento impediram que mais uma família fosse adiante à exigência de seus direitos garantidos por lei.

img-20161003-wa0050“Ser a única estudante negra da minha escola já me fazia diferente dos outros. Nunca tive muitos amigos e as meninas da sala mal falavam comigo. Por gostar de sentar perto do quadro e dos professores, as pessoas achavam isso mais um motivo para me chamar de nomes e ofensas. Eram coisas tão absurdas que algumas eu nem mesmo sabia o significado, até que um dia contei para os meus pais e eles ficaram abismados”, revela T.A.S, mais uma vítima que optou por não processar a instituição.

Desafios em Alagoas

Em Alagoas, o cenário ainda é de desconfiança. Com valores que variam de acordo com o perfil dos estudantes e o porte das escolas, o seguro anti-bullying ainda é visto com receio pelas unidades de ensino. Apesar das vantagens já consolidadas, o medo de passar a impressão de descaso com os problemas de agressão e a baixa ocorrência de processos ainda inibe a projeção desta nova modalidade.

Atuando como multinacionais, as seguradoras Ace e Tokio Marine são uma das poucas no Brasil que já oferecem o anti-bullying. Aderido como um serviço mais especializado ou apenas um adendo à modalidade de Responsabilidade Civil, as companhias de seguro ainda estão em fase de adaptação verificando estatísticas, sinistralidades para posteriormente expandir as atividades em mercados menores, como explica o diretor do Sindicato dos Corretores de Alagoas (Sincor), Ailton Júnior.

“Sempre estamos prontos para informar e qualificar nossos associados, é um processo de adaptação. O que existe, e é muito comum em todos os segmentos de seguradoras, é o cliente esperar receber um processo por para tomar ciência da necessidade e vantagem de possuir um seguro para resguardo. Como os casos de indenização ainda são pouco expressivos em Alagoas, esta modalidade ainda não encontrou mercado exploratório desejável”, pontua o diretor do Sindicato dos Corretores de Alagoas, Ailton Júnior.

A reportagem por diversas vezes tentou entrar em contato com o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino de Alagoas (Sinepe), mas até o fechamento do material não obteve resposta.

 

Conheça as histórias de T.A.S e J.F:

 

 

 

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O sal do Chico

Seca e vazão de rio aumentam em mais de 240% casos de hipertensão em comunidades ribeirinhas

Texto de Rafaela Pimentel e Yasmin Assis

“O mar tá invadindo dentro do rio, água salgada mesmo. As ‘mulé’ vão lavar roupa, o sabão não quer espumar. Água pra beber aqui também ninguém pode pegar, só pra cima de Piaçabuçu. E agora tá muito difícil pra pessoa viver. De repente comecei a perceber que a água tava secando e rapaz, a gente vai fazer o quê? Ele não pode secar de vez porque nosso Senhor tá no céu né? Minha mulher fica reclamando, se tivesse mesmo que nem naquela época a gente vivia melhor”.

Pescador há 45 anos, José Amilton é morador do povoado de Potengy, no município de Piaçabuçu, e faz parte das mais de 270 famílias que sofrem com o processo de salinização do Rio São Francisco. O período de seca elevado e a vazão ainda mais reduzida transformam a água característica da região, que antes era doce, em salobra. Os impactos já são sentidos pela população ribeirinha com a interferência direta na qualidade de consumo e ameaça potencial na redução dos recursos.

Sem água adequada para o abastecimento diário e o sumiço das espécies antes encontradas no rio, o cotidiano dos moradores não tem sido mais o mesmo. A saúde é um dos fatores que mais afetam a comunidade. Ao lado de seu Zé, pelo menos outras 120 pessoas já sentem o resultado deste desequilíbrio ecológico com o diagnóstico precoce da hipertensão. Em apenas dois anos, de 2014 até 2016, o número de hipertensos aumentou em 240% entre os habitantes.

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E se o hábito alimentar deixa de ser a principal causa da hipertensão, o perfil dos pacientes também mudou. Os idosos, que por muito tempo foram os mais afetados pela doença, agora dividem o posto com jovens adultos e até mesmo adolescentes. A principal causa? O consumo e contato direto com a água imprópria para o consumo, agravado pela ausência de um sistema de abastecimento e um programa de saneamento básico eficiente.

Responsável por uma das duas microáreas de atendimento da região, a agente de saúde Suelli Soares revela que esta é a primeira vez, em 16 anos de trabalho, que testemunha um surto alarmante de ocorrência de hipertensos. Com uma média de cinco pessoas em cada casa e vivendo prioritariamente da pesca, as famílias se vêm sem alternativa. A aquisição de água filtrada é inviável e a única solução é tentar equilibrar o consumo intenso de sal por meio de medicações e assistências médicas semanais, como explica a profissional.

“Durante todo o tempo em que estou aqui nunca vi uma invasão tão forte do mar como temos hoje. De 2014 pra cá tudo mudou e o pior não temos como evitar. Ficamos de mãos atadas. As pessoas não têm condições de comprar água mineral para o consumo diário e a consequência disso percebemos diretamente na saúde da população. Em um ano saltamos de 19 para 39 casos de hipertensão, hoje já são 60 apenas na minha área. Não temos condição de estar nesse alarme e não fazermos nada”, lamenta Suelli.

Na programação da semana, as quartas-feiras, antes reservadas apenas para o atendimento de diabéticos, passam a ter agora um novo foco: hipertensos. Assegurados pelo Estado, os remédios controlados junto ao trabalho de conscientização educativa são as únicas garantias no apoio ao tratamento, já que em longo prazo nenhuma medida foi tomada pelos órgãos gestores.

 

Os grandes vilões

Considerado um dos maiores do Brasil com 2.830 km de extensão, o Rio São Francisco – carinhosamente chamado de Velho Chico – tem sofrido mudanças intensas em sua forma física. Liderado pela combinação da forte seca com uma vazão média liberada mais reduzida, o avanço da cunha salina nas águas do rio é cada vez mais constante, já que a água doce não tem força suficiente para retrair a água do mar. A mudança de habitat afeta não somente o abastecimento da população, como a altera o tipo de vegetação e fauna que ali vivem.

Desde 2013, o cenário já apontava para estas transformações. O período de estiagem que atingia o Nordeste deu inicio a uma sequência de restrições mais acentuadas na vazão liberada pelas barragens de Sobradinho e Três Marias, na Bahia. O escoamento normal médio estabelecido em 1.300m³/s caía para 1.100m³/s naquele ano e ao final de 2015 a queda foi intensificada para a marca dos 800m³/s, podendo chegar, se aprovado, ao limite de 700m³/s ainda em outubro de 2016, conforme determinação da Agência Nacional das Águas (ANA).

Pouco a pouco, estas novas diretrizes mudam a cara dos padrões originais no estuário do Rio São Francisco. Resultado da construção de barragens, a variabilidade natural associada às modificações no fluxo anual de água doce já não existem mais na região. Em consequência disto, o mar já avança até 6 km rio acima, como explica o oceanógrafo e professor de Geografia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Paulo Petter.

“Os impactos das barragens são geralmente associados aos transtornos causados pela criação do lago artificial. No entanto, não menos relevantes que estes resultados é a influência sobre a transferência de água e materiais para a zona costeira com alterações qualitativas e quantitativas, que vão desde a intrusão de água salina passando pela perda de fertilidade nos estuários até alterações dos ciclos biogeoquímicos”, salienta o professor Paulo Petter.

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Na tentativa de amenizar os problemas causados pela salinização do São Francisco, a Prefeitura de Piaçabuçu, por meio da Secretaria Municipal do Meio Ambiente busca o apoio dos governos estadual e federal. O primeiro passo foi a solicitação de uma análise de água junto ao Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), responsável pela gestão descentralizada dos recursos naturais como a proteção aos mananciais e o desenvolvimento sustentável. O processo já está sendo tocado pelo órgão, mas ainda não apresenta avanços.

Em paralelo a estas ações, a secretaria luta ainda frente ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) pela aprovação do Projeto Água Doce. A proposta é o apoio federal na aquisição de um dessalinizador para a região, já que atualmente o município ainda não conta com o serviço por alegar falta de recursos. O aparelho representa hoje a maior chance para os moradores voltarem a ter acesso mais uma vez à água potável.

“Temos buscado apoio de todos os lados. O conteúdo da água do nosso rio está sendo devidamente averiguado pelo Comitê para que possamos conduzir as próximas etapas. Ainda no mês passado estive em Brasília para firmar parcerias de uma possível compra de um dessalinizador, o projeto está em fase de análise e uma vez aprovado será uma grande ajuda para a nossa cidade. Sozinhos, infelizmente, não conseguimos fazer muita coisa”, lamenta o secretário municipal de Meio Ambiente, Milton Muniz.

Saneamento básico

Enquanto aguarda o inicio das atividades do Plano Municipal de Saneamento Básico ofertado pelo CBHSF, o povoado de Potengy, incluído recentemente no projeto, segue sem um plano de abastecimento adequado. Isso porque, o único órgão habilitado na região, a Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) alega ser responsável apenas pelo atendimento e monitoramento da zona urbana de Piaçabuçu e a comunidade de Mandim/Sudene, cabendo à prefeitura o suprimento específico dos ribeirinhos de Potengy.

Com avanços na fiscalização e supervisão do aumento da salinidade, a cidade de Piaçabuçu já conta com o implemento de uma paralisação obrigatória diária na captação das águas do Rio São Francisco liderada pela Casal.  “Todos os dias, os registros são fechados por 6h, para que assim a água captada possa ter potabilidade e ser adequada para consumo humano”, explica Eduardo Morais Júnior, chefe de núcleo do órgão no município.

(Des) Esperança

Nem maré grande, nem maré morta. Depois das repetidas alterações sofridas pelo fenômeno da cunha salina, fazer a distinção entre o que é água doce e salina virou uma tarefa inviável para os ribeirinhos. Viver da pesca também é um desafio. Os peixes e espécies de camarões tão característicos do Velho Chico como o Robalo, a Carapeba, a Tainha, e que atuavam como principal fonte de renda na região, estão sendo naturalmente substituídos por variedades de peixes de água salgada.

Filha de mãe e pai pescadores (e também hipertensos), a moradora Jailda Barbosa não acredita que viveria para ver tamanha mudança no povoado. Dependentes da água do rio para as atividades cotidianas – desde o banho, higiene bucal ao preparo dos alimentos – as famílias ficam sem saída diante da piora do desdobramento da invasão do mar e o desequilíbrio da natureza. Com a fonte de renda cada vez mais prejudicada, ter um cuidado especial com o consumo e tratamento é quase que impensável.

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“A gente até encontra peixe, mas peixe do mar. Não conseguimos usar água mineral o tempo todo. Tenho três filhos então quando temos condições compramos, mas na maioria das vezes acabamos consumindo água salgada mesmo, que é a única disponível para todos. Para nós que vivemos apenas desta atividade fica muito difícil, né? É continuar pescando, porque a única alternativa para um pescador é isso”, desabafa Jailda Barbosa.

 A esperança para os moradores de Potengy é a próxima quadra chuvosa. Sem o presente no rio, a água colhida é usada para o banho e a limpeza das roupas. Com o avanço do mar, a água já adquire um aspecto grudento, de nata, tornando-se inviável para uso. Os shampoos e detergentes já não espumam mais e o preparo dos alimentos ganhou um cuidado redobrado, sobretudo, na hora de temperar as refeições em casa.

“A vida era outra. Tínhamos comida na mesa, roupa lavada e água para beber, agora tudo mudou. Nada enxágua, saímos do banho nos coçando, os cabelos bem duros e ainda muito de nós ficamos doente com isso. Esse canal do sertão transformou as coisas por aqui, tiraram da gente para dar para eles, mas temos fé  que vamos voltar a ser como antes”, conta a dona de casa, Fátima dos Santos.

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