A Dinâmica das Relações Afetivas na Era Digital

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Arte: Thiago Guimarães

Por Thiago Guimarães

Não seria exagero afirmar que a partir do avanço das novas tecnologias o modo como as pessoas se relacionam começou a mudar. Em um mundo cada vez mais inquieto, a onda cibernética se propaga com velocidade e atinge toda a sociedade com a promessa de facilitar a comunicação social deixando-a mais prática, confortável e segura. De uma maneira ou de outra, estamos todos conectados.

Quando pensamos em interação social podemos encontrar na rede um mecanismo de aproximação eficaz que possibilita, entre outras coisas, a construção de relacionamentos afetivos. Com o surgimento das primeiras redes sociais, em meados dos anos 2000, as coisas começaram a enveredar para um caminho sem volta.

Como consequência desse fenômeno, a interação virtual passou a ser algo comum na vida das pessoas, que por sua vez, gastam cada vez mais tempo na frente da telinha.

A gameficação dos sentimentos

Reprodução: Internet
Reprodução: Internet

Se tratando de paquera, todas as redes sociais sempre funcionaram como potenciais canais de azaração, levando-se em consideração a proposta inicial de conectar pessoas. Entretanto, o público necessitava de ferramentas mais direcionadas que pudessem atender demandas mais específicas.  Nessa perspectiva, as grandes empresas começaram a criar aplicativos e sites para todos os perfis de usuários.

Atualmente, basta abrir sua loja virtual no celular e descobrir um universo de chats e aplicativos para todos àqueles que desejam encontrar alguém especial. Se pararmos para pensar, a cada minuto milhares de pessoas recorrem a esses dispositivos, seja para buscar a alma gêmea, bater papo ou simplesmente encontrar sexo casual.

Na concepção da consultora sexual Milka Freitas, esses recursos cibernéticos revolucionaram a maneira como as pessoas se relacionam, até mesmo nas esferas mais íntimas dos sentimentos. A especialista destaca que os aplicativos se tornaram uma importante alternativa para aqueles que não gostam ou não tem tempo para sair de casa, para quem busca por encontros imediatos, ou mesmo para os mais tímidos.

Todavia, vale considerar que mesmo diante da eficácia e praticidade que os aplicativos prometem, nem sempre as coisas acontecem como o esperado. O índice de desapontamento ainda é grande entre os usuários, como explica Milka:

Tudo que se faz em excesso pode agredir o seu emocional. Se você usar os aplicativos eventualmente, ou seja, não ficar dependendo somente disso para resolver a sua vida amorosa, eles podem ser uma boa alternativa. O importante é saber dosar o tempo e importância que dispensamos para isso”, avalia Milka.

A chamada Era Digital sugere a ideia de que se você não possui perfil em alguma rede social pode até se considerar fora do jogo. De certa forma isso pode até conter um percentual de verdade, mas claro que tudo isso vai depender do círculo social que você frequenta e da maneira como estabelece suas relações.

Outro ponto que vale ser considerado se deve ao fato que no espaço virtual podemos conhecer boa parte da vida da outra pessoa, ou ao menos aquilo que ela queira mostrar ou nos fazer acreditar, inclusive aspectos mais íntimos sem nunca tê-la vista pessoalmente. Através das redes é possível ver amigos em comum, lugares que frequenta, escola onde cursou o ensino médio, nome do cachorro e até a comida preferida.

Muitas vezes, paquerar na internet parece ser algo mais empolgante e divertido que fora dela. Mas será mesmo que saltar etapas de conhecimento mútuo pode ser algo positivo?

Milka avalia que, por cultura, temos o hábito de acreditar que a primeira impressão é a que fica. Nos aplicativos de relacionamento não poderia ser diferente. Em decorrência dessa pressão em mostrar sempre o nosso melhor lado já no primeiro contato, acreditamos que só teremos uma única chance de conquistar o crush.

Talvez por esse motivo, algumas pessoas recorrem a certas estratégias para ganhar vantagem no jogo da sedução. Os artifícios vão desde o uso de Photoshop para melhorar as fotos até mentir a idade, classe social e preferências sexuais. Tem gente que exagera tanto nos retoques que assume uma outra identidade. É o caso da cantora Annita, que em agosto de 2016 revelou em seu snapchat que usava tanto photoshop nas fotos que quando ia aos encontros ninguém a reconhecia.

Em poucas palavras, nessa gameficação dos sentimentos jogam-se todas as cartas para ganhar aquela partida e levar o prêmio para casa, ou para o cinema, motel, como preferir!

A consultora sexual Milka Freitas bateu um papo com estudantes sobre uso de aplicativos para relacionamento. Confira:

Cassino Virtual

Nesse universo de paqueras online pode-se encontrar de tudo um pouco. As buscas vão desde sexo sem compromisso até relacionamentos longos e duradouros. Há, ainda, aqueles que apostam todas as fichas em relações que ofereçam vantagens econômicas, luxo e viagens. Tem até aplicativo para os já compromissados que desejam descobrir se o companheiro tem um perfil em um deles. Uma espécie de delação digital. Um verdadeiro business!

Deficientes físicos, pessoas com sobrepeso, gays, lésbicas, nerds, cristãos, solteiros com filhos, atletas e idosos também têm seu espaço garantido em ferramentas exclusivas e quase sempre gratuitas. E o melhor de tudo isso, com a comodidade de usufruir desse catálogo humano enquanto viaja no ônibus, durante o intervalo da faculdade ou mesmo aguarda na fila do banco. Maravilhoso!

Mas, nesse cassino virtual nem tudo são flores. As exigências estão cada vez maiores e se quisermos competir nesse jogo temos que nos submeter a algumas regras, quase sempre implícitas, além de um pouco de sorte, claro. Dito isso, o comportamento da sociedade em rede revela que nem todas as pessoas estão preparadas para esse jogo de amor e sorte.

Assim como na vida offline, nas redes sociais de paquera a lei da atração funciona quase sempre como uma espécie de pacto narcisista, através do qual nos sentimos atraídos por alguém que julgamos semelhante, tenha interesses em comum e compartilhe das mesmas intenções.

Frequentemente, observa-se que a tecnologia que nasceu para facilitar e aproximar as relações humanas tem causado justamente o efeito contrário. Esse fenômeno que vai na contramão do objetivo esperado pode representar apenas o reflexo de uma sociedade cada vez mais perfeccionista, imediatista, que busca o par ideal em meio às inúmeras possibilidades que a internet oferece.

Afinal, a quantidade de perfis que permeiam na rede não para de aumentar.


Tinder, o queridinho dos aplicativos de paquera

 

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Reprodução Internet

Com a promessa ousada de pôr fim à rejeição, os amigos americanos Justin Mateen e Sean Rad criaram em 2012 o aplicativo de paquera que mais tarde se tornaria o mais famoso do mundo, o Tinder. Atualmente utilizado em 196 países – de acordo com dados publicamente divulgados pela própria empresa –, o tinder define-se por uma plataforma pensada para encontrar novas pessoas com interesses em comum, com base nas informações coletadas através do Facebook, no momento da adesão.

Em entrevista concedida ao link, em 2013, quando o Tinder chegou ao Brasil, o cofundador Justin disse que o aplicativo funciona como na vida real. Segundo ele, quando se conhece alguém fora da rede, a primeira coisa que se nota sobre a outra pessoa é a aparência física e, logo em seguida, amigos e interesses em comum.

site do Tinder revela que até o final de 2016 o aplicativo já contava com mais de 10 milhões de usuários somente no país tupiniquim, o que equivale a toda população de Portugal.

O sucesso do aplicativo pode ser traduzido em números

 

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Arte: Thiago Guimarães

Mas, afinal, como funciona o Tinder?

A facilidade de manuseio tem popularizado aplicativos de relacionamento em todo o mundo. O Tinder segue como o aplicativo mais utilizado nesse segmento de mercado

Reprodução: giphy.com

É tudo muito simples. Na tela principal do tinder aparecem fotos de usuários potencialmente compatíveis, com base na geolocalização e faixa de idade previamente configuradas, além das informações extraídas do Facebook como já mencionado.

Em cada perfil visualizado se obtém a opção de curtir ou não a outra pessoa. Como em uma espécie de “cardápio humano”, o usuário visualiza a foto e, se por acaso sentir-se atraído, desliza a foto para o lado direito da tela. Caso não goste do que vê, basta deslizar o dedo no sentido contrário.

Em prática, se ocorrer uma atração recíproca, o famoso Match, o novo casal terá a oportunidade de bater um papo online. É importante ressaltar que o aplicativo mostra apenas pessoas que estão geograficamente próximas. Mas existe a possibilidade de aumentar a distância para ver mais perfis online.

A grande engenhosidade do tinder é a discrição, tendo em vista que a outra pessoa somente terá conhecimento do seu interesse se ela também te curtir. O aplicativo só permite contato direto entre pessoas que realmente manifestem interesse mútuo.


Relações digitais, sentimentos reais?

Se por um lado a internet causa a sensação de conforto, acolhimento e aproximação, por outro, o encontro real pode não seguir no mesmo ritmo

Reprodução: internet

O primeiro passo para encontrar alguém certamente é conectar-se com outras pessoas, ainda que seja em um ambiente virtual. Tal como na vida fora da telinha, os sites e aplicativos de relacionamento não vêm com um manual de instruções, tampouco existem fórmulas preconcebidas. O que existe, na realidade, é a manutenção de uma relação de respeito entre os usuários, independente do que se procura.

A psicóloga Anne Rafaele avalia que na perspectiva de satisfazer desejos, muitas pessoas recorrem às ferramentas virtuais no intuito de otimizar tempo e aumentar as chances de encontrar alguém que preencha suas necessidades, ainda que imediatas. O que para muitos pode ser encarado como um jogo ou passatempo, para outros se torna a única maneira de investir em uma relação amorosa.

Para essas pessoas que procuram um relacionamento mais estável, às vezes, as expectativas podem se revelar bastantes frustradas, causando insegurança, isolamento, medo, raiva e elevação do nível de ansiedade. Elementos que poderão influenciar negativamente em relacionamentos futuros e até mesmo em outras esferas sociais, como estudo e trabalho.

Lógico que isso também acontece na vida real, pois você projeta sobre a outra pessoa desejos e virtudes que, à medida que se conhece melhor, vão se desconstruindo ou se afirmando. Mas quando se trata de relacionamento virtual a expectativa que se cria é sempre potencializada, pois quase sempre acreditamos somente no que a outra pessoa está dizendo”, analisa a especialista.

Por isso, antes de criar um perfil nas redes é fundamental compreender o que se procura. Não há problema algum em procurar apenas por sexo casual, desde que isso seja feito de maneira responsável. Contudo, nem sempre é fácil sair satisfeito dessa selva digital, uma vez que  é preciso ter bastante paciência e, sobretudo, não criar grandes expectativas.

A psicóloga acrescenta que o par perfeito pode ser encontrado em qualquer lugar, mas leva-se em consideração que a comunicação frente a frente, muitas vezes, pode inibir sentimentos e bloquear pessoas mais tímidas ou com pouca habilidade de se relacionar.

Além disso, o papo online é considerado uma maneira mais interessante de conhecer pessoas em virtude dos inúmeros recursos que o ambiente virtual pode oferecer, como imagens, gifs, vídeos, áudio. Com a aproximação do dia dos namorados, sites e aplicativos de namoro podem ser uma ótima opção para adiantar a vida dos tímidos, dos ocupados e até dos avessos a baladas. Vale lembrar que o presente não pode ser virtual.

Para entender melhor como se constroem as relações amorosas no ambiente virtual consultamos a Psicóloga Anne Rafaele. Confira:


Sim, o amor é possível

Foi através de amigos em comum no Facebook que a jovem estudante Ariane Barros, 26, conheceu seu atual noivo, o italiano Martin Mannino, 33, em julho de 2014. Durante cinco meses eles conversaram no chat, trocaram fotos e descobriram as primeiras afinidades.

Ainda em 2014, no período de férias natalícias de Martin, o italiano resolveu encurtar o espaço e viajou para Maceió a fim de conhecer Ariane. De acordo com ela, o contato pessoal superou as expectativas mais otimistas do plano virtual.

Foto: cortesia/arquivo pessoal (Arte: Thiago Aquino)

Após uma semana de sua chegada à capital alagoana, Martin viajou para Salvador, como já estava previsto em seu itinerário de férias. Em menos de 24 horas o italiano sentiu a ausência da estudante e retornou a Maceió. Desde então, eles não se separaram mais. O relacionamento ainda que temporariamente mantido a distância já dura três longos anos. A cada três meses ela viaja para revê-lo na região da Sicília, sul da Itália, onde ele reside.

Os planos não param por aí. Até o final deste ano eles planejam morar juntos de vez. O grande empasse vai ser trocar a feijoada pelo espaguete. Pelo visto isso não será um problema já que amor venceu todas as distâncias físicas que os separavam, com a ajudinha da internet, claro.


Evolução dos chats de paquera ao longo dos anos

Com o surgimento de aplicativos e sites exclusivos para relacionamento tudo ficou mais fácil, mas nem sempre foi assim

Em uma época não tão distante – mais precisamente em meados da década de 1990 até metade dos anos 2000 –, o acesso à internet era feito de forma discada, também chamada dial-up. Quase sempre os internautas deveriam esperar após a meia-noite para entrar na Web devido a tarifa bem mais barata.

O ritual preparatório era regido pelo tom de discagem, seguido de ruídos que mais pareciam contatos extraterrestres. Os mais jovens certamente nunca tiveram essa experiência mítica que embalava madrugadas quando o acesso à rede ainda era algo novo e surpreendente.

Ouça o som da internet discada:

 

Você entrou na sala…

Para muitos, todo esse rito ainda pode causar uma certa nostalgia. Isso por que foi justamente nessa época que surgiu o pioneiro no segmento de paquera virtual no Brasil, o mitológico Bate papo UOL. Criado em 1996, o bate papo era o maior serviço de chat em língua portuguesa do mundo. 

Sua proposta era conectar pessoas de forma anônima em todas as partes do Brasil e exterior. Foi, sem sombra de dúvidas, um frenesi que marcou a adolescência de muitos adultos de hoje.

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A página era subdividida em categorias, como idade, cidade, sexo, entre outras. Nas salas de sexo, por exemplo, fotos eróticas rolavam pela janela em meio às conversas apimentadas entre os usuários.

Por falar em usuários, esses utilizavam os nicknames mais excêntricos que nem sempre condiziam com aquilo que realmente eram por trás da telinha. Nesse ponto, pouca coisa mudou com o passar dos anos.

O Bate papo ainda existe e até ganhou novos layouts e uma versão mobile, mas a proposta da UOL se tornou obsoleta diante da chegada de recursos mais modernos e eficazes.

 

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Com um layout primário e recursos escassos, outro chat que fez bastante sucesso na primeira metade dos anos 90 foi o mIRC, principal cliente de IRC (Internet Relay Chat). O bate papo foi criado e desenvolvido por Khaled Mardam-Bey, em 1995, com o objetivo de ser um programa de chat que permitisse conversar com milhares de pessoas sobre temas específicos.

Print Screen tela bate papo mIRC

Não haviam imagens e para usufruir dos recursos era preciso instalar o programa no computador. Em 2003, o mIRC liderava entre as 10 maiores chats, segundo um ranking da empresa de pesquisa Nielsen. Em 2008, o programa atingiu a marca de 150 milhões de downloads. A rede chegou a ter quase 50 mil usuários e 1 milhão de conexões todos os dias.

Mesmo em meio a aparente bagunça, o mIRC se consolidou como ponto de encontro de jovens entre os anos de 1998 e 2003. Ele ainda existe, mas já não é mais o mesmo.

Quem você conhece?

E quando se fala nessa época, é impossível não citar o eterno queridinho dos brasileiros, o Orkut. A rede social que já foi a mais popular do Brasil foi criada em janeiro de 2004 pelo engenheiro Orkut Buyukkokten. Durante os anos 2000, quando iniciou o boom das redes sociais, os xavecos online aconteciam de maneira mais dissimulada.

Uma das marcas registradas do Orkut eram as comunidades. Nelas, os fóruns instigavam joguinhos de “pega ou passa” que rendiam boas paqueras e diversão. Se de um lado as comunidades eram garantia de boas risadas, os famosos depoimentos privados serviam como cantadas furtivas, carregadas de emoji.

Naquele tempo não existia a famosa cutucada, como existe hoje no Facebook. Então, para dar um passo a frente na possível relação, mandava seu buddy poke interagir com o buddy poke do outro usuário, com a possibilidade de mandar flores, abraços e até beijos.

Na hora de solicitar amizade ao crush não se observavam os likes das fotos, mas sim a descrição do perfil, sempre importante para saber se a outra pessoa era considerada legal, afetuosa, sexy, entre outras características.

A rede de Zuckerberg

No mesmo ano em que nasce o Orkut foi lançado também o Facebook, a rede social de Mark Zuckerberg. O Facebook nasceu em uma Universidade Americana e logo se tornou a rede social mais acessada do mundo, ofuscando de vez os anos de glória do finado Orkut no Brasil.

Reprodução: Internet

Se engana quem pensa que o Facebook não oferece a possibilidade de paquera. Entre os inúmeros recursos, a rede social permite o envio e compartilhamento de fotos e até vídeos em tempo real. Ferramentas como a sugestiva “cutucada” tornaram o Facebook mais uma possibilidade de paquerar online, apesar de não ser esse o objetivo de sua criação.


A democratização dos aplicativos e sites de paquera

Apesar de ser o mais popular, o Tinder também tem seus concorrentes de peso, que apostam nas ideias mais criativas para ganhar novos adeptos

 

 

Grande parte dos aplicativos e sites de relacionamento são gratuitos ou disponibilizados com um custo baixo de utilização, o que desperta cada vez mais o interesse de jovens, adultos e idosos.

Com a popularização dos Smartfones, os aplicativos e chats de paquera foram ganhando cada vez mais espaço. Há quem compara os celulares quase como uma extensão do próprio corpo. Mas, diante das inúmeras plataformas disponíveis no mercado, fica difícil escolher qual seria aquele ideal.

Para muita gente, o fato de julgar outras pessoas basicamente por meia dúzia de fotos ainda pode soar um pouco superficial, é compreensível. Por esse motivo, diversos aplicativos foram idealizados para atender às demandas de perfis diferentes de usuários. Assim, não custa nada provar alguns deles e, caso não goste, basta desinstalar.

Confira abaixo os aplicativos e sites mais populares e curiosos:

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Essas ferramentas de relacionamento virtual podem ser comparadas a uma festa, para qual você não precisa se arrumar, nem se deslocar e gastar dinheiro. Basta haver um aparelho eletrônico com acesso à internet para descobrir pessoas interessantes perto de você. No entanto, as redes sociais de paquera também podem destruir relacionamentos. Tudo vai depender do uso que se faz delas, além da maneira como cada um conduz a conversa.

No YouTube é fácil encontrar dezenas de tutoriais ensinando como abordar o crush e garantir que o papo evolua. Apesar de todo essa solidariedade compartilhada, regras básicas como educação, gentileza e transparência serão sempre bem-vindas.

Público gay

Algo interessante que se observa nos aplicativos exclusivamente gays é a preocupação dos usuários em manter o anonimato. Parte considerável das pessoas preferem não expor fotos reais de rosto e estão quase sempre desconfiados na hora de se apresentar e fornecer informações pessoais, o que gera sempre um clima de incerteza e desconfiança recíproca. Talvez por essa razão, muitos usuários gays optam por aplicativos e sites mais comuns, onde possam escolher o melhor tipo de abordagem sem grandes questionamentos.


Deu Match, e agora?

A postura que se adota após a combinação é essencial para o desenvolvimento da conversa

Reprodução: Giphy.com

Antes de mais nada é necessário acabar com esse estigma que pessoas encontradas em aplicativos não são interessantes para ter um relacionamento sério.

Se você começa uma aproximação com esse pensamento, a probabilidade de pôr tudo a perder aumenta consideravelmente.

Tudo vai depender da condução desse diálogo pós match. Por falar em match, algumas vezes aquela combinação que parece cair do céu nem sempre corresponde às expectativas.

Além do mais, não é certo que as redes sociais reflitam um recorte fiel da vida real, pois como foi dito pela psicóloga Anne Rafaele, o universo digital funciona como um grande palco onde as pessoas decidem o que querem demonstrar e mostrar. Não crie paranoias caso não aconteça como esperado, faz parte do jogo.

O primeiro passo logo após a combinação dos perfis é o início do bate papo online, onde as primeiras cartadas serão lançadas a fim de despertar um interesse que vá além do aspecto físico. Nessa fase inicial, seja sempre educado e demonstre entusiasmo em conhecer aspectos da vida da outra pessoa. Mas, atenção, perguntas em excesso ou que invadam a vida privada podem assustar nesse primeiro momento.

Não existe uma medida exata, como nas receitas de bolo, mas basta um pouco de bom senso e empatia para encontrar o limite sutil entre estar interessado, ser intrusivo ou apenas curioso. Um comportamento bastante comum e difundido nas redes é ocultar, mentir ou querer demonstrar algo que não representa a verdade.

Lembre-se que mesmo se tratando de uma cômoda ferramenta virtual, o encontro real será inevitável em um segundo momento. Não existe ninguém perfeito, portanto, não compre nem venda superficialidade. No final das contas, só prevalece o que é real.

Real VS Virtual

Os aplicativos podem ser muito úteis, desde que usados com responsabilidade como já foi dito pela consultora sexual Milka Freitas. Mas nunca se esqueça que por trás de cada perfil existem pessoas reais que, assim como você, estão ali por alguma razão que nem sempre deixam explícita. Às vezes nem sabem o que realmente querem.

É inegável que a comunicação digital oferece inúmeras potencialidades, como o compartilhamento de fotos, vídeos, músicas, áudios, entre outros fatores que, decerto, permitem que as pessoas se conheçam de forma mais acelerada e descubram as primeiras compatibilidades.

Mas, para chegar nesse ponto, a combinação deve ser feita – com exceção de alguns aplicativos que não necessitam do match. Para isso, o julgamento individual será sustentado nas fotos publicadas no perfil. Se existe uma grande vantagem nesse sistema, seria a possibilidade que o usuário tem de postar as melhores imagens, que enalteçam seus pontos positivos e oculte os menos favoráveis. Mas não faça como a Annita!

Em contrapartida, esse sistema  não te permite apresentar outros pontos que eventualmente poderiam interessar a outra pessoa caso a azaração acontecesse fora do plano virtual, como o modo de agir e caminhar, voz, olhar, cheiro, toque, entre outros.

Vale lembrar que ainda não saiu de moda conhecer pessoas em locais públicos, trocar olhares ou convidar para jantar fora. Muitas vezes a aparência física torna-se apenas um detalhe diante da capacidade do ser humano de encantar e seduzir seus semelhantes. Seja natural na hora de abordar alguém e valorize suas melhores armas. A melhor estratégia pode ser a sutileza.

A consultora sexual Milka Freitas avalia o uso dos aplicativos de paquera e dá algumas dicas para usuários de primeira viagem:


 

Efeitos negativos do uso excessivo dos aplicativos

O uso não saudável pode elevar o nível de ansiedade, provocar isolamento social e evoluir para dependência

O avanço das tecnologias é um fenômeno contínuo e irreversível. Diante dessa realidade, a grande questão que os especialistas em ciências humanas debatem trata da maneira como utilizamos esses recursos tecnológicos ao nosso favor, de modo que não nos tornemos reféns do mundo virtual.

Essa mudança comportamental dos velhos hábitos – que antecede o surgimento da internet e chega até a sociedade em rede que vemos hoje -, pode causar consequências desastrosas no ser social, caso não sejam adotadas medidas que previnam eventuais riscos de dependência ou outros efeitos psicológicos que comprometam a vida dos internautas.

A psiquiatra Suzzana Bernardes explica que o uso compulsivo de internet pode causar dependência, comparada até mesmo com a de usuários de drogas. Em virtude de ser um acontecimento relativamente recente, o assunto ainda está sendo estudado e debatido a fundo por especialistas do mundo inteiro. Tampouco existem dados sólidos divulgados que confirmem ou justifiquem esse comportamento.

Tendo como referência os aplicativos e sites para relacionamento, entendemos que nossas escolhas aparentemente “erradas” podem gerar um acúmulo de frustrações que crescem à medida que buscamos uma pessoa atrás da outra de maneira compulsiva. Lidar com a rejeição nem sempre é algo fácil, como explicou a psicóloga Anne Rafaele.. Esse tipo de situação acontece a todo momento e muitas vezes não nos damos conta por se tornar tão comum em nosso cotidiano que passa despercebido.

Ciúmes e Insegurança

Para a especialista, esse comportamento pode desencadear um quadro de dependência que, se não for tratado adequadamente, poderá evoluir para problemas mais graves, como quadros depressivos e de isolamento social.

Por um lado, a internet promove um contato maior e um conhecimento com pessoas de todo mundo. Em Contrapartida, essas pessoas se expõem em demasia, o que pode trazer inúmeros problemas”, complementa Suzzana.

Ainda de acordo com Suzzana, da mesma forma que esses mecanismos podem favorecer relacionamentos duradouros eles também podem destruí-los, uma vez que a questão da insegurança está muito presente na vida das pessoas, seja no ambiente online ou offline.

Pessoas ciumentas podem recorrer às redes sociais no intuito de monitorar atitudes do companheiro. Apesar de que o monitoramento através da internet reflete apenas a consequência da era digital, tendo em vista que monitorar os hábitos do parceiro (a) sempre foi algo comum.

Com a chegada da internet esse comportamento passou a ser potencializado devido aos inúmeros recursos disponíveis e a possibilidade de permanecer anônimo.

A psiquiatra Suzzana Bernardes elenca os principais sinais que podem indicar dependência.

Transtorno de Dependência de Internet

Usuários que dedicam mais de duas horas por dia conferindo suas redes sociais têm duas vezes mais possibilidades de provarem um isolamento social do que aqueles que passam menos de meia hora diária, é o que revelou uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade de Pittsburgh e publicada no American Journal of Preventative Medicine.

De acordo com a pesquisa, os usuários mais frequentes relataram que sentiram uma diminuição do sentimento de pertencimento social, além de um menor envolvimento com os outros e relacionamentos menos satisfatórios. A internet pode aproximar dos que estão longe, mas afastar dos que estão próximos.

Em tempos de redes sociais, seja para paquera ou não, a necessidade de ser visto e notado torna-se uma condição para que alguns indivíduos se sintam melhores consigo mesmo e consequentemente com o mundo.

A perda de autoestima ganha maiores proporções no ambiente virtual e podem afetar o círculo social do indivíduo caso não seja controlada, interferindo, inclusive, nas esferas de estudo e trabalho.

Se o individuo tem autoestima baixa isso vai lhe traz sofrimento e prejuízos nos relacionamentos. De qualquer forma, isso vai ocorrer independente de ser virtual ou real. O que deve ser feito é procurar ajuda profissional para tentar identificar a origem desse problema e cuidar adequadamente, muito provavelmente através de acompanhamento psicológico”, recomenda Suzzana.


Fragilidade das relações sociais: afinal, a culpa é da internet?

O comportamento compulsivo que se observa nesses mecanismos apenas reflete valores sociais escassos ou inexistentes, de acordo com sociólogo

O sociólogo Ascanio Gama Freires avalia que em uma sociedade acelerada e competitiva, na qual homens e mulheres têm igualdade de condições civis, os pais tornaram-se cada vez mais ausentes na formação educacional dos filhos. Como reflexo dessa ausência eles acabam, ainda que involuntariamente, terceirizando a responsabilidade de educar as crianças para outras pessoas, núcleos e instituições.

Partindo dessa concepção, conclui-se que essa suposta quebra de valores ou, se preferirmos, liquidez das relações, que coloca o ser humano como um mero objeto de desejo, apenas reflete o que já acontece na sociedade contemporânea onde não identificamos referências familiares sólidas.

Quando reportamos esse novo padrão de comportamento para o ambiente virtual ele se potencializa e ganha outras dimensões, pois na internet as pessoas se veem e se comunicam mais, além da possibilidade de se manterem aparentemente anônimas, o que gera a falsa impressão que tudo é permitido. Para Ascanio, a tecnologia não tem culpa pela relativização e banalização dos valores ou a inexistência deles, ela não tem autonomia para isso.

Como resultado da ausência do núcleo familiar enquanto educadores e formadores de caráter, os jovens crescem imersos na cultura midiática da televisão de massa e internet que, através de novelas, seriados, programas de TV e redes sociais, redefinem conceitos e posturas comportamentais, impondo, assim, suas ideologias”, analisa o sociólogo.

Até quatro ou cinco décadas atrás, a competência de educar as crianças era atrelada à mulher. Diante de uma cultura machista e conservadora, o homem era encarregado de trabalhar e sustentar a família. Após as grandes conquistas feministas ao longo dos anos, as mulheres ganharam espaço e voz e com isso o direito de sair de casa para trabalhar.

Todo esse processo teve, sem dúvidas, consequências positivas, mas também gerou um distanciamento ainda maior entre pais e filhos que com o tempo se intensificou.

O sociólogo Ascanio Freires reitera seu ponto de vista em relação ao papel da família nesse processo de formação de caráter. Ouça:

 

Influência das grandes mídias

A interação e sociabilização – componentes fundamentais para a formação de referências comportamentais e de caráter –, são difundidas pelos grandes veículos de comunicação de massa, que assumem o papel de educadores enquanto os pais se preocupam apenas em ganhar dinheiro.

Ainda segundo o sociólogo, nesse processo de formação de caráter ideal, o de alguém sério, disciplinado e honorável, constitui-se como componente essencial a presença da família, além de outras instituições sociais como a igreja.

Na ausência desses componentes, isso nos conduz ao culto da superficialidade, no qual as pessoas se esforçam para parecer coisas diferentes do que verdadeiramente são e acabam suprimindo a própria personalidade apenas com o intuito de agradar e ser valorizado.

A psicóloga Anne Rafaele compartilha da ideia de Ascanio quando declara que uma base institucional familiar sólida é determinante no que concerne a boas condutas sociais. Ela acrescenta que há muitos anos as grandes mídias têm investido em como disciplinar e manusear os comportamentos das pessoas.

De um modo geral, a mídia invade toda a sociedade, tanto como sujeito como ser social e político.

Desse modo, estabelece novas formas de subjetividades e valores, podendo realocar condutas sociais e morais de maneira imediata. Em poucas palavras, ela vai influenciar diretamente na forma de agir das pessoas.

Eu classificaria esse fenômeno como remodelação da intimidade, da forma de exercer a sexualidade das pessoas e de construir vínculos sociais”, conclui a profissional.

Como consequência desse imediatismo, procuramos por indivíduos que venham prontos ao nosso molde, da maneira como gostaríamos ou imaginamos. Sendo assim, não podemos esperar um comportamento diferente da parte de quem está do outro lado. Pensando por essa lógica, as pessoas acabam se anulando o tempo todo, pois sempre buscam por alguém melhor.

Na ausência de referências que definam qual a pessoa ideal, a estética ganha força e acaba transportando essa obsessão pelo aspecto físico para todas as esferas da vida. Nesse contexto, o interesse inicial se dá a partir de chamar a atenção para si, seja através de uma foto compartilhando bons momentos, uma frase bem colocada ou uma mentira bem contada.

Em virtude dessa nova dinâmica, a personalidade e caráter ficam em segundo plano, dando lugar a personagens pré moldados em conformidade com as exigências de outros indivíduos.

Promiscuidade digital

A psicóloga explica que desde muito cedo somos pressionados a dar respostas, posicionamentos, status para a sociedade. Quando adolescentes, já devemos escolher a profissão que seguiremos no futuro. Após a maioridade, espera-se uma postura mais responsável. Já aos 30 devemos estar graduados, ter um bom emprego, estar em um relacionamento estável e, melhor ainda, com casa e carro na garagem. Existem exceções, sem dúvidas. Mas, o que isso tem a ver? Vamos entender.

O comportamento frenético que tem se difundido por meio dos usuários de aplicativos para relacionamentos, sobretudo daqueles que buscam sexo a todo custo, pode ser resultado dessa cobrança social que recebemos de todos os lados, ainda que de maneira velada.

A tecnologia, nesse contexto, pode funcionar como uma válvula de escape para as tensões do dia a dia, pois é prático, discreto e eficiente. A consequência dessa postura pode resultar em um comportamento promíscuo, que certamente será reflexo do que já acontece na vida do indivíduo fora do ambiente digital, diga-se de passagem.

Devido a grande rotatividade de usuários o leque de pretendentes parece não ter fim e isso contribui ainda mais para tais comportamentos desmoderados.


Arte: Thiago Guimarães

Surgimento da Internet

Mas claro que sem a internet nada disso seria possível. A rede que conecta milhões pessoas mundo afora surgiu a partir de pesquisas militares desenvolvidas pelos norte-americanos durante a Guerra fria, que tinham como objetivo criar uma ferramenta capaz de proteger informações sigilosas em casos de bombardeios. Inicialmente, esse modelo de compartilhamento de dados era denominado ARPANET, criada pela ARPA, sigla para Advanced Research Projects Agency.

Somente em meados dos anos 1990 a internet ganhou força, quando o então físico britânico Tim Bernes-Lee inventou o sistema “www” – leia-se World Wide Web –, com o intuito interligar as Universidades de modo que as pesquisas acadêmicas fossem utilizadas contemporaneamente em um mesmo ambiente compartilhado entre as partes interessadas.

Como resultado da engenhosidade de Tim e sua constante busca pela melhoria, chegamos à internet como a conhecemos hoje.

O risco é virtual, mas o perigo pode ser real

A navegação na internet pode envolver alguns riscos, tendo em vista que mesmo diante de um mundo de informações, nunca saberemos ao certo quem está do outro lado. Por essa razão, a segurança continua sendo o maior desafio que as grandes empresas do setor enfrentam. Incansavelmente, muitas delas avançam nesse quesito pois constantemente são descobertas vulnerabilidades em diversos serviços disponibilizados. No entanto, os usuários podem e devem se precaver de eventuais dores de cabeça.

Uma regra básica para sair ileso desse campo minado é nunca fornecer dados pessoais exatos, como endereço, documentos e local de trabalho e estudo já no primeiro contato. Isso não quer dizer que você tenha que se manter anônimo ou mentir o tempo inteiro, mas sim estar atento. Devido a grande rotatividade de combinações e conversas, assim como podemos encontrar pessoas com boas intenções, outras podem não estar tão bem-intencionadas assim.

Vale recordar que menores de idade não podem fazer uso de aplicativos e sites para relacionamento. Isso em teoria, pois sabemos que algumas informações podem ser facilmente burladas. Por isso, os pais devem estar atentos quando seus filhos estiverem sozinhos no celular ou computador, sobretudo quando se trata de crianças.

O risco de sofrer algum tipo de violação de direitos ou ser vítima de sequestros ou pedófilos deve ser sempre considerado. Acompanhar ou monitorar a criança ou adolescente enquanto navega não significa invadir sua privacidade, mas zelar por sua segurança.

De volta para o público adulto, saber diferenciar a princípio esses dois perfis de usuários pode não ser uma tarefa fácil. Portanto, na dúvida, não tenha pressa em superar as etapas primárias de conhecimento recíproco e ganho de confiança.

Falar da rotina pode ser uma boa maneira de se aproximar e conhecer os hábitos da outra pessoa, mas também pode ser um prato cheio para violência sexual, fraudes e atentados. Tudo deve ser compartilhado aos poucos à medida que se conhece melhor a outra pessoa. 

Para Gustavo Acioly, especialista em internet e redes sociais, é sempre oportuno buscar referências antes de marcar um encontro real. Se sentir abertura, solicite fotos com amigos em locais públicos, pergunte sobre o que gosta de fazer, preferências, ambições, desejos.

Desperte em si mesmo a sensibilidade de entender quando a outra pessoa se contradiz nas respostas. Apesar de o imediatismo ser algo comum, até do ponto de vista dos princípios da internet, desconfie caso alguém queira marcar algo com muita pressa, sobretudo com mulheres.

Outra dica é buscar por seus outros perfis em redes sociais como Facebook e Instagram, onde se pode observar possíveis amigos em comum, páginas curtidas e entender o círculo social que ela frequenta”, sugere Gustavo.

Superada essa etapa, o encontro pode ser finalmente marcado. Afinal, ninguém quer conversar para sempre pelo celular. Quando o olho no olho torna-se inevitável, opte por encontros em locais públicos. E se mesmo assim não se sentir seguro e quiser arriscar, peça a companhia de um amigo para te acompanhar ou ao menos comente com ele com quem está saindo e para onde está indo.

Crimes virtuais

Outro perigo bastante frequente pode ser o roubo de informações de usuários e até a perda de dados. Para alguns sites e aplicativos mais eficientes, existem requisitos de segurança que podem ser definidos para manter essas informações mais seguras. Sempre que possível conecte-se em dispositivos de confiança que, de preferência, só você utilize.

Além disso, mantenha sempre o sistema de antivírus ativo no celular, computador ou tablet. Se for criar um perfil, observe sempre os termos de contrato eletrônico, que deverão ser respeitados.

Engenharia social

Trata-se de um termo pouco conhecido pela maioria das pessoas que utiliza internet. Ele refere-se a capacidade que alguns cybercriminosos têm de conseguir informações confidenciais utilizando-se de habilidades psicológicas de persuasão, ou simplesmente abusando da ingenuidade ou confiança do usuário.

Se a armadilha for bem montada, o criminoso pode obter informações privadas, tais como senhas e informações bancárias. Para montar o ataque, ele pode se disfarçar como mais um usuário em busca do amor nas redes sociais e, desse modo, transmitir a ideia de pessoa íntegra e respeitável.

Quando desconfiar de algo, uma dica é copiar e colar a frases recebidas no Google e veja se aparece algo suspeito. Muitas vezes, essas pessoas utilizam os mesmos discursos para todas as vítimas.

Phishing

A palavra phishing é uma variação do inglês (fishing), que significa pesca. O termo remete à ideia de lançamento de uma isca na esperança de que, enquanto a maioria ignorará a isca, alguns serão tentados a mordê-la.

Phishing é uma forma de fraude eletrônica, caracterizada por tentativas de adquirir fotos, músicas e outros dados pessoais ao se fazer passar por uma pessoa confiável ou uma empresa enviando uma comunicação eletrônica oficial. Isso ocorre de várias maneiras, principalmente por e-mail, mensagem instantânea e SMS.

Arte: Thiago Guimarães

Quem nunca ouviu essa frase que envie o primeiro nude. Para quem está sempre conectado em redes sociais o envio de imagens e vídeos sensuais nus ou seminus, também chamado de sexting, é uma prática bastante comum, sobretudo entre os mais jovens. A conduta, porém, divide opiniões de usuários e especialistas.

Inúmeros são os casos de personalidades que tiveram materiais íntimos vazados. Logo, a principal preocupação dos usuários em enviar fotos íntimas não é expor o corpo em posições quase acrobáticas, mas sim de a pessoa que as recebe salvá-las e repassá-las.

Em tempos onde os conceitos de privacidade foram redefinidos ninguém quer correr o risco de ser exposto dessa forma, seja por invasão de hackers ou por vingança de ex-companheiros.

Por outro lado, a tentação de ver e ser visto muitas vezes fala mais alto, uma vez que aumenta a autoestima e aproxima casais que estão distantes. Outro motivo que leva algumas pessoas a esse comportamento é o desejo biológico do exibicionismo.

A maioria dos pedidos partem dos próprios companheiros e são repassadas através do Whatsapp. Alguns aplicativos como o Snapchat oferecem a possibilidade de compartilhar nudes com mais segurança, já que as imagens se cancelam após algum tempo. Mesmo assim, existe a possibilidade de a pessoa fazer um print do material, mesmo sabendo que o emissor será notificado.

Trocar fotos íntimas pode ser sim algo saudável, desde que exista uma confiança mútua. De qualquer forma, vale sempre a pena se precaver”, alerta Milka Freitas.

Cuidados simples podem evitar constrangimentos

Mas se você não abre mão de enviá-los mesmo sabendo dos riscos, evite mostrar seu rosto e marcas que o identifiquem nas fotos, como tatuagens ou pintas. O ideal é que sempre apague suas fotos e vídeos íntimos, mas se preferir armazená-los seja cauteloso. Um modo seguro é compactar os arquivos em uma pasta zip com senha.

No celular, existem aplicativos eficientes com senha para esconder seus tesouros, como o Private Photo Vault. Outra dica válida é evitar mandar o mesmo nude para várias pessoas. Sabemos que é difícil, mas considere que se a imagem vazar fica difícil saber quem foi o responsável.

Tome cuidado ao usar conexões WiFi compartilhadas em lugares públicos; elas podem ser armadilhas para roubar seus dados. Em virtude desse risco, evite usá-las pra mandar nudes e, se for inevitável, procure sites e aplicativos que forneçam conexões criptografadas.

Lei classifica ação como crime

Em 2012, foi criada a Lei Nº 12.737/2012, chamada de Lei Carolina Dieckmann, que marca o início das penalidades para quem comete crimes cibernéticos, alterando o Código Penal para tipificar como infrações uma série de condutas no ambiente digital, principalmente em relação à invasão de computadores, além de estabelecer punições específicas.

Se mesmo após tomar todos esses cuidados você for vítima de crime virtual, procure uma delegacia especializada na sua cidade ou na inexistência de uma delas peça orientação em qualquer outra delegacia.

Em Maceió, a vítima pode procurar a Seção de Combate a Roubos a Bancos (Serb), que atua também na investigação de crimes de internet. Algumas instituições como a ONG Safernet oferecem auxílio psicológico e orientações na esfera jurídica.

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Santana sem Mundaú: após enchente, cidade em AL vê rio secar

Por trás de desastres, há uma enxurrada de ações que provoca impactos ambientais

THIAGO AQUINO*

Águas do rio Mundaú desaparecem durante seca severa
Águas do Rio Mundaú desaparecem durante seca severa (Foto: Bacural Drones / cortesia)

“O Rio Mundaú morreu”. Esta afirmação é do pescador Júlio Honorato, de 60 anos, morador de Santana do Mundaú e que durante 30 anos viu o rio cheio de vida. Após sete anos da enchente que deixou mais de 3 mil desabrigados, o município que recebe o nome do rio tem vivenciado algo nunca visto: onde, antes, havia correnteza d’água hoje há apenas bancos de areia, pedras, baronesas, lixo, esgoto e animais.

O cenário é de abandono. O mau cheiro chama atenção de quem atravessa a pé enxuto e até os urubus se tornaram companheiros do rio. Em alguns pontos, há água parada em poços resultantes de extração de areia. Já em outros, a água corrente circula em dois ou três centímetros. A redução do volume de água fez aparecer objetos presentes no curso do rio. Vaso sanitário e até parte de uma carroça enferrujada se misturam às areias.

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Quem está impressionado com as imagens é Romildo Máximo, 43, que mora há mais de 20 anos em Guarulhos, SP, mas é natural do município da Zona da Mata Alagoana, a 110 km de Maceió. Ele e a esposa Adriana Santiago sempre visitam as famílias e, desta vez, foram surpreendidos com os efeitos da estiagem. Em um aplicativo móvel, eles compartilharam fotos com o sentimento de tristeza. “É a primeira vez que venho passear e vejo o rio numa situação dessa. É lamentável”, afirma Romildo.

As baronesas e outros tipos de vegetação escondem a água de cor escura, formam uma camada verde e consolam o rio. O problema é que o surgimento delas não é por um bom motivo. O biólogo Ronaldo Gomes Alvim explica que a presença das plantas é sinônimo de poluição. “A soma do baixo nível de água com o descarte de produtos químicos através do esgoto, faz proliferar o crescimento das baronesas”, justifica. “Elas servem como um tipo de filtro, mas consomem o oxigênio da água, provocando a morte de peixes”.

seca na zona da mata

Um dos motivos para a baixa vazão da água é a seca prolongada. O meteorologista Vinícius Nunes Pinho, da Secretaria Estadual de Recursos Hídricos e Meio Ambiente (Semarh), esclarece que não se trata apenas de uma estiagem. “Um dos causadores dessa falta de água foi o inverno de 2016. Nosso estado já vem passando por um período de estiagem desde 2015 e, no ano seguinte, choveu apenas 40% do que era esperado. Onde chove normalmente em torno de 1.300 a 1.400mm, choveu pouco mais de 600 mm”, recorda o especialista.

Seca em zona da mata surpreende até o meteorologista Vinícius Nunes (Foto: Thiago Aquino)
Seca em zona da mata surpreende meteorologista (Foto: Thiago Aquino)

Vinícius afirma que a recarga hídrica durante o inverno comprometeu o período do verão: “Aquela chuva supriu a necessidade apenas durante o inverno, mas não sobrou para adiante. A partir do momento quando não há chuva dentro da normalidade no inverno, já consideramos uma seca severa e ela vem se estendendo até agora”.

O mestre em Hidrometeorologia afirma que diversos fatores influenciaram a pouca chuva. “No ano passado foi o El Niño, o resfriamento das águas do Oceano Pacífico. Agora é o Oceano Atlântico que está mais resfriado que o normal na costa do nordeste, o que significa menor evaporação e menos combustível para que a chuva ocorra”, diz.

O desaparecimento da água do rio e a crise hídrica são situações atípicas, o que acaba surpreendendo os moradores. “É uma das regiões onde mais chove em Alagoas. Quem imaginaria que sete anos após a enchente, a Zona da Mata Alagoana sofreria com uma seca severa?”, questiona, surpreso, o meteorologista.

Chuvas em 2017 não serão suficientes para amenizar os reflexos da seca (Foto: Ilustração / Semarh)
Chuvas em 2017 não serão suficientes para amenizar os reflexos da seca (Foto: Ilustração / Semarh)

Começa na segunda quinzena de abril o período chuvoso, mas os efeitos da seca devem continuar.  “A perspectiva é que tenhamos um pouco mais de chuva do que ano passado. O volume vai ser mais próximo da normalidade, mas ainda não vai ser suficiente para repor todo o déficit que a região vem sofrendo”, reconhece.

A Sala de Alerta da Semarh mantém um sistema de monitoramento da seca em Alagoas. O município de Santana do Mundaú, até o boletim de abril, está na faixa vermelha do mapa, o que significa seca excepcional. Esse quadro pode comprometer o próximo verão.

“A tendência é que melhore um pouco, no entanto, mesmo chovendo dentro da normalidade, não resolve. No inverno as pessoas vão sentir a melhora, mas não terá água suficiente para o próximo verão. A situação é crítica”, alerta Nunes.

A pesca

Confira o vídeo abaixo!

Falta de peixes

Os pesquisadores garantem que o desaparecimento de peixes e crustáceos é resultado da falta de saneamento e do uso de agrotóxicos.  O processo por trás do crescimento das baronesas também provoca a morte das espécies.

Espécies de peixes e crustáceos encontrados com fartura no rio Mundaú do passado (Arte: Thiago Aquino / Imagens: Google Imagens)
Espécies encontradas com fartura no Mundaú do passado, segundo pescadores (Arte: Thiago Aquino / Imagens: Google Imagens)

“O nutriente MPK – que são nitrogênio, fósforo e potássio – quando usado em área agrícola, é carregado pela chuva até o rio e vai alimentar algas. Elas formam uma barreira impedindo a entrada de luz, que proporciona o consumo de oxigênio. Com a redução dele na água, os peixes morrem, porque são sensíveis a essa redução”, explica a engenheira florestal Milena Caramori.

Esses mesmos nutrientes são encontrados no esgoto que é lançado sem tratamento no rio. “O detergente e a urina, por exemplo, servem de adubo químico, o que a planta consome para crescer”, lembra.

A denúncia de pescadores de que veneno era jogado no rio também traz mais um motivo para as espécies não terem sido preservadas. “É um tipo de veneno que sequestra o oxigênio e o peixe morre e boia. O objetivo é de uma pesca mais fácil, mas o impacto ambiental é impressionante”, detalha Valmir Pedrosa, doutor em Recursos Hídricos e Saneamento.

“Rio com vida só em pintura”

Não há registros fotográficos da época em que Santana do Mundaú demonstrava ser um paraíso. Quem recordou um trecho do rio e colocou na tela um Mundaú completamente diferente de hoje foi Rosivaldo Rodrigues, 55. Por trás de cada parte do quadro, o pintor tem história para contar.

Rosivaldo retrata o rio Mundaú dos anos 70 em pintura (Foto: Thiago Aquino)
Rosivaldo retrata o Rio Mundaú dos anos 70 em pintura (Foto: Thiago Aquino)

“Jogamos bastante bola em um areado que tinha nas margens do rio. Havia grupos divididos pelas localidades antes e depois da ponte, ninguém passava para o lado do outro, mas sempre tinha um torneio, quando todo mundo se juntava. Era bom demais”, narra.

O artista comenta que tentou mostrar na pintura o “Banho da Maroca”, citado por muitos moradores da cidade como um ponto de encontro para diversão e pesca. “Isso aqui só podemos ver agora em pintura”, lamenta Rosivaldo.

Registros de extração de areia durante análise em 2012 (Fotos: Elvis Pantaleão)
Registros de extração de areia durante análise em 2012 (Fotos: Elvis Pantaleão)

O problema do rio não é apenas provocado pela falta de chuva. Uma série de ações vem matando o Mundaú.  Um trabalho realizado entre 2011 e 2012 apresentou um diagnóstico ambiental de trechos da Bacia Hidrográfica do rio em Santana do Mundaú. No áudio abaixo, Elvis Pantaleão, um dos autores e mestre em Engenharia Ambiental, explica a conclusão da pesquisa.

Após cinco anos deste estudo, a realidade não mudou. O esgoto de toda área urbana é jogado no rio sem nenhum tratamento. Com pouca água, o leito do rio parece servir apenas como canal de esgoto. Água escura e mau cheiro mostram um rio nunca visto antes. Até galinhas buscam minhocas na terra úmida.

Porcos, cavalos, bois são criados dentro do Mundaú. Com vários mandatos no Legislativo, o vereador Ivan Ferreira (PMN) reconhece que nenhuma lei municipal específica proíbe esta situação. “Não tem lei que proíba o domínio de área na margem do rio como propriedade privada para criação de animais”, diz. “Mas também não há alguma que autorize”, observa o vereador.

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A Agência de Defesa e Inspeção Agropecuária de Alagoas (Adeal) não respondeu se oferece alguma ação de conscientização ou fiscalização destes pequenos produtores ribeirinhos. Até o fechamento da reportagem, ela não retornou os e-mails.

Impactos

Diego Freitas, doutor em Ciência Política e membro da Associação Brasileira de Avaliação de Impacto (ABAI), aponta que para compreender o problema de escassez de água do Rio Mundaú é preciso analisar todo o contexto onde e como o rio está inserido na sociedade.

Diego Freitas
Diego Freitas explica os impactos causados pela urbanização (Foto: Thiago Aquino)

“Historicamente as aglomerações urbanas se formam a partir dos rios. Então, o Mundaú se encontra numa região antropizada, ou seja, ela traz atividades econômicas como pecuária e agricultura – que são atividades de altos impactos -, além da urbanização, resultando num processo de mudança no uso do solo e que altera as características físicas locais”, analisa Freitas.

Ele critica a própria sociedade por não cuidar dos recursos pelos quais é beneficiada. “O problema é que a sociedade precisa do rio, mas ele não se torna uma prioridade,do ponto de vista de gestão pública, para as condições adequadas e necessárias”, afirma.

Com atuação em Avaliação de Impacto Ambiental, o professor do Centro Universitário Tiradentes, Unit, elenca as principais causas para os impactos ambientais sofridos pelo Rio Mundaú: o fim da mata ciliar, o descarte irregular de resíduos, a extração de areia e o uso de agrotóxico em áreas agrícolas.

impactos ambientais

Também há práticas dos próprios moradores que contribuem para a degradação do Mundaú. O funcionário público Luiz Antônio, 54, queixa que existe a coleta de lixo na cidade, mas que mesmo assim o lixo vai parar no rio. “Tem gente que espera o caminhão do lixo passar, pega as sacolas e joga de rio afora”, diz o morador.

Antônio também critica a retirada de areia com as dragas. “Foram nove dragas desde a enchente que acabaram com o rio. Até uma ponte na zona rural caiu, porque antes mesmo da enchente, a draga foi puxando areia debaixo da ponte e quando a cheia passou a estrutura cedeu”, revela.

A reportagem solicitou informações ao Instituto do Meio Ambiente (IMA) sobre a atuação do órgão diante das ações de extração de areia em Santana do Mundaú, mas não obteve resposta por e-mail aos questionamentos.

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Tragédia deixou município em situação de calamidade pública (Foto: MD Imagens)
Tragédia deixou município em situação de calamidade pública (Foto: MD Imagens)

Para quem não conhece o histórico do Rio Mundaú, não imagina que foram as águas que passaram por ele que deixaram o município em estado de calamidade pública por seis meses. De acordo com a Defesa Civil Estadual, a enchente de 2010 deixou, no município, 4.250 desabrigados e desalojados e uma pessoa desaparecida naquela sexta-feira, 18 de junho.  A enxurrada destruiu o comércio de Santana do Mundaú, prédios públicos e igrejas.

Gilmar foi visto pela última em cima de prédio (Foto: O Jornal)
Gilmar foi visto pela última vez em cima de prédio (Foto: O Jornal / Reprodução)

O comerciante Gilmar Alves Brasileiro, aos 45 anos, foi levado pelas águas do Rio Mundaú e o seu corpo nunca foi encontrado. O irmão, vereador José Alves Brasileiro, popularmente conhecido como Genor, recorda que Gilmar chegou a retirar uma moto do prédio, que também funcionava como bar, e a colocou em uma rua mais alta, mas voltou à pousada por receio do prédio ser saqueado.

“Quando a água começou a subir, ele foi pegando o que podia e levando para o primeiro andar. A água não parou de subir e ele, mesmo já cansado, ainda recorreu ao segundo andar. Depois disso ficou na cobertura do prédio, onde ficou até os seus últimos momentos com vida”, relata Genor. A pousada foi arrastada para uma rua próxima e parte dela, curiosamente, ficou intacta.

Irmão de Genor foi levado pelas correntezas durante a enchente de 2010 (Foto: Thiago Aquino)
Irmão de Genor foi levado pelas correntezas durante a enchente de 2010 (Foto: Thiago Aquino)

“Se eu não estivesse na correria na minha casa também por causa da cheia, eu não teria deixado meu irmão lá. Na enchente de 92, eu e meu pai éramos comerciantes e deixamos o prédio, mas Gilmar não tinha visto aquilo antes e se confiou na estrutura do prédio”, lamenta Genor.

enchente mundaú
Parte de pousada foi arrastada (Foto: Gazeta do Povo)

Além da dor da perda, os parentes e amigos de Gilmar ainda carregam a tristeza de não encontrar o corpo. O vereador diz que a família não recebeu nenhum apoio de imediato: “Após a água baixar, rodei toda a região a pé à procura dele. Infelizmente só depois de três dias é que o Corpo de Bombeiro chegou para fazer buscas. Foi em vão”.

O cenário devastador repercutiu na imprensa, mobilizou o país em uma rede de solidariedade e mudou os rumos de Santana do Mundaú, que comemorava 50 anos de emancipação quatro dias antes da tragédia e assistia à Copa do Mundo no Brasil.

Hoje, a cidade vive dividida. São 1.261 casas, uma praça, duas escolas, postos de saúde e secretarias que funcionam no Residencial Santana do Mundaú construído pelo Programa da Reconstrução.

extremos

É grande a possibilidade das cidades ribeirinhas sofrerem com uma enchente no inverno e verem o rio secar no verão. O principal motivo é o desmatamento. Quem comenta esse fenômeno é a engenheira florestal Milena Caramori, autora do estudo sobre a influência da mata ciliar na qualidade da água.

Engenheira florestal garante que é possível recuperar rio (Foto: Thiago Aquino)
Engenheira florestal garante que é possível recuperar rio (Foto: Thiago Aquino)

“Quando uma área é 100% florestada, de toda água precipitada temos 90% de água infiltrada no solo. As próprias árvores consomem de 60 a 70% por evatranspiração. O restante abastece o aquífero, formação geológica subterrânea capaz de armazenar água. É essa água que vai interagir com o rio, regularizando o fluxo de água”, explica. “Em época de seca severa, é importante que este aquífero esteja abastecido para manter a vazão do rio até que venha outra chuva”.

Sem este ciclo natural, o desequilíbrio ambiental é inevitável e é o motivo para as mudanças climáticas e os desastres ambientais. “Uma área desmatada aumenta a taxa de escoamento superficial porque reduz a taxa de infiltração. A água que infiltraria vai escoar rapidamente em direção ao rio. Com o solo desprotegido e o saturamento da superfície, areia e terra serão carregadas pela chuva, causando assoreamento”, expõe Milena, professora do Centro Universitário Tiradentes, Unit. “Isso, no inverno, agrava o pico de cheia, porque o rio aumenta o volume rapidamente”.

Mata ciliar influência na qualidade do rio (Arte: arvoresertecnológico.tumblr)
Mata ciliar influência na qualidade do rio (Arte: arvoresertecnológico.tumblr)

Professor da disciplina de Hidrologia na Universidade Federal de Alagoas, Ufal, e co-autor do artigo que analisou a enchente de 2010, Valmir Pedrosa avalia que o histórico de enchentes e o atual cenário do rio não descartam próximos desastres: “É um rio que pode oferecer grandes episódios de cheias, como já aconteceu, assim como pode apresentar períodos críticos de baixas vazões”.

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Ações integradas

Pedrosa tem experiência na área de Engenharia Sanitária, com foco em Planejamento Integrado dos Recursos Hídricos, e garante que para reverter a situação do Mundaú “não é só uma ação”.

É preciso ações integradas, diz professor de Hidrologia (Foto: Thiago Aquino)
É preciso ações integradas, diz Valmir Pedrosa (Foto: Thiago Aquino)

“Nunca vai ser só educação ambiental, nunca vai ser só reflorestamento, nunca vai ser só mobilização social em torno do rio, controle da extração de areia, criação do comitê da bacia do rio… É tudo isso ao mesmo tempo”, defende o professor dos cursos de Engenharia Civil e Engenharia Ambiental da Ufal.

Da Câmara de Vereadores ao governo federal, o grande desafio de recuperar o Mundaú deve ser enfrentado por todos. “São vários órgãos que podem salvar o rio: municipais, estaduais e federais, mas é preciso que se integrem. Destacaria o papel do prefeito que conhece a realidade e, numa situação dessa, ele tem um papel importante para mobilizar e fiscalizar”, comenta Valmir.

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No áudio abaixo, ele comenta a realidade do rio e o que pode ser feito para salvá-lo.


Educação ambiental: “trabalho em longo prazo”

A educação é falha, diz mestre em Educação Ambiental
A educação é falha, diz mestre em Educação Ambiental (Foto: Thiago Aquino)

A recuperação do Rio Mundaú é mais complexa do que se imagina, mas não impossível. Ronaldo Alvim, PhD em Biologia Social e mestre em Educação Ambiental, afirma que a solução não está em apenas conscientizar a população, mas na educação: “Conscientizar não leva a mudança de hábito. Mudança de hábito se chama vontade popular e isso depende de uma educação consistente que vai levar a pessoa pensar como faz para viver melhor no seu mundo”.

O doutor em Meio Ambiente Natural e Humano em Ciências Sociais põe em dúvida se isso é uma realidade próxima. “O problema é que a educação é falha: como esperar isso de um lugar onde poucos tiveram a oportunidade de estudar? Quem chega ao Ensino Superior, não volta mais lá”, reflete.

O que diz a ANA

A Agência Nacional das Águas, ANA, garante que “tem trabalhado com os estados de Pernambuco e Alagoas no sentido de apoiar a implementação da gestão de recursos hídricos”. O órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente informou que estudos estão sendo elaborados sobre as bacias hidrográficas do Mundaú e do Paraíba para discussões previstas para agosto deste ano.

politicas

Ganhar dinheiro por preservar

Questionada se a Prefeitura Municipal pode solicitar algum projeto de preservação e/ou recuperação do rio, a Agência lembrou e recomendou o projeto Produtor de Água que estimula a política de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). “O Programa apoia, orienta e certifica projetos que visem a redução da erosão e do assoreamento de mananciais no meio rural, propiciando a melhoria da qualidade e a regularização da oferta de água”, informou.

Para ser beneficiado com um dos projetos, o Município deve ficar atento aos editais que são lançados pela ANA a cada três ou quatro anos. O último foi lançado em 2014 e selecionou 18 projetos que recebem apoio técnico, institucional e financeiro. “Os pagamentos diferem entre R$ 120,00 e R$ 800,00 por hectare por ano a depender da área e do serviço ambiental prestado. São feito por depósito nas contas dos produtores rurais beneficiários”, explica a assessoria.

Questionamentos ignorados

Mesmo com várias tentativas, a reportagem não conseguiu um posicionamento da Prefeitura de Santana do Mundaú diante dos problemas citados. Por telefone, foi solicitada, aos assessores, uma entrevista com o prefeito Arthur Freitas (PMDB), mas não houve retorno.

*ESTUDANTE DE JORNALISMO

Reportagem produzida entre fevereiro e abril de 2017 sob orientação do professor Josbeth Macário

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Quando o medo passa dos limites

O cotidiano de quem sofre de fobias específicas

Texto de Naildo Pedro e Higo Fernando

 

“Medo de ter, medo de perder
Cada um tem os seus
E todos tem alguns
Suando frio, as mãos geladas
Coração dispara até sufocar”

O trecho retirado da música da cantora Pitty relata bem a situação de pessoas sujeitas aos próprios temores. Em meio à multidão, por trás de cada olhar existem medos que ninguém imagina. A única certeza é que todos nós os temos. Quais são os seus? E como eles interferem na sua vida?

Cerca de 13% da população brasileira possui algum tipo de fobia, o mais preocupante é que menos da metade procura ajuda médica para resolução do problema por considerá-lo pouco relevante ou por receio do julgamento dos outros.

Todo ser humano sente medo, essa é uma característica saudável e normal. É um mecanismo de defesa natural do nosso corpo contra os perigos da vida e do meio que nos cerca. Porém, quando esse sentimento passa a ser uma reação exagerada e atrapalha as situações cotidianas, em vez de proteger, atrapalha. Provoca no indivíduo, dependendo do problema, sintomas físicos e mentais como falta de ar, ataques de pânico, isolamento social e consequentemente impactos negativos no bem-estar de quem é afetado pelo transtorno.

Isto é, fobias são caracterizadas por medos intensos e irracionais, por situações, objetos ou animais que objetivamente não oferecem ao indivíduo perigo real e proporcional à intensidade de tal medo, como temer dormir e não acordar mais, por exemplo, ou a figura de um palhaço ou de qualquer outra feição aparentemente inofensiva. A depender das circunstâncias, se não houver tratamento adequado o problema pode se prolongar da infância à fase adulta.

É o caso da dona de casa Sônia Lopes, de 38 anos. Ela sofre de duas fobias específicas – medo exagerado e desproporcional de objetos, animais ou determinada situação. As mais comuns estão relacionadas a insetos, altura, doenças e ambientes. Esse último é o caso da doméstica, que possui claustrofobia e escotofobia – medo de espaços fechados e de escuro respectivamente. Mas existe também fobias específicas relacionadas a eventos como andar de avião, ônibus ou elevador, ver sangue ou ferimentos, nadar e até se olhar no espelho.

Sônia tem pavor de ambientes fechados e de escuro. Prefere subir dez andares de um prédio usando as escadas do que entrar em um elevador. Ela começou a sentir medo excessivo quando ainda era criança. “Percebi que sofria desses problemas quando tinha 8 anos. Não gostava de brincar de esconde-esconde por ter que procurar lugares apertados. Recentemente precisei usar um elevador pressionada pelo meu marido. Senti minha visão embaçar e já ia cair, ele me segurou e quando as portas se abriram senti o ar voltar.”

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Sônia Lopes sempre dorme pronta para possíveis apagões.

Quando se vê diante do escuro, a dona de casa afirma entrar em pânico. Só de pensar na possibilidade de ficar na escuridão fica pálida. Por isso, deixa  velas, fósforos e lanternas próximos a cama. Caso falte energia, não hesita em recorrer a outras fontes de luz. “Quando falta energia o meu coração  acelera, fico ofegante, o ar começa a faltar, como se minha garganta fechasse. É uma agonia horrível, o mesmo que sinto em lugares fechados.”

Assim como Sônia, inúmeros brasileiros sofrem do mesmo problema, mas a busca por ajuda é relativamente pequena. Em Maceió, uma recente pesquisa realizada pelo Centro Universitário Tiradentes entrevistou aproximadamente 100 alunos do horário noturno que foram questionados sobre terem ou não algum tipo de fobia. 76 dos participantes são mulheres e 21, homens. O levantamento verificou que 62% dos participantes possuem algum tipo de fobia específica, com maior prevalência em mulheres, que representam 47% dos 62%. Em relação a procura pela ajuda psicológica, a maioria diz depender do medo trazer sofrimentos e perdas na vida da pessoa.grafico-04

Foram colocados alguns objetos e situações para que os participantes assinalas­sem qual(is) lhe causam medo excessivo e persistente, podendo responder a mais de uma alternativa, os seguintes resultados foram obtidos: Altura 18,8%, Animais 12,5%, Es­curidão 11,3%, Lugares fechados 9,4%, Doenças 8,8%, Aviões 6,2%, Tempestades 5,0%, Sangue-Injeções-Ferimentos (S-I-F) 5,0%, Elevadores 5,0%, Ruídos altos 4,4%, Água 3,7%, Engasgar 3,7%, Lugares abertos 0,6%, Vômitos 1,2% e Outros: Estresse, bruxos, lo­bisomem, ladrão, tarado, fogo e tartaruga 4,4%. A partir dos dados obtidos foi possível observar que a fobia do tipo ambiente natural (altura), de animal, escuridão e do tipo situacional (lugares fechados) são as mais frequentes entre os participantes.

 

CURIOSOS TEMORES

A estudante de enfermagem Larissa Gaia, de 19 anos, sofre de uma estranha fobia chamada heliofobia, medo irracional do sol. Embora pareça inofensivo, esse medo pode ser bastante grave e levar à deficiência de vitamina D como resultado de ficar dentro de casa o tempo todo ou só sair durante a noite. Ela recorda que o problema começou no ensino médio, aos 15 anos, e até então vem transformando sua vida em verdadeiros dias nublados.

Ela lembra que começou a sentir medo exagerado de se queimar e desenvolver câncer de pele, então passou a se esconder nas sombras e preferir sair à noite. “Não sei exatamente quando começou, sei que estudava pela manhã e ia e voltava de carro à escola para não me expor ao sol. Cheguei a faltar aula quando não havia possibilidade de ir de carro. Meus pais não desconfiavam, e eu também tinha vergonha de contar pra eles ou qualquer outra pessoa.”

Agora no ensino superior, a estudante ainda sofre impactos no cotidiano por conta do medo exagerado. “Como meu curso é integral, muitas vezes tenho que me deslocar para à faculdade ou outro local pelo dia. Isso já me deixa aflita, então começo a pensar no que fazer para evitar ao máximo o contato com o sol.”

Larissa sempre veste roupas longas, blusas que cubram os braços, não sai sem o protetor solar e sem uma sombrinha na bolsa. Ela também já conta com o auxílio de medicação para suprir a carência de vitamina D no organismo. Sobre buscar ajuda psicológica, a estudante diz achar que não há mais solução para o problema, e que pode viver normalmente com as limitações diárias. Tipo de pensamento esse que deve ser evitado, pois existem tratamentos específicos para cada situação.

Esse é apenas um dos espelhos da casa de Letícia, que são todos cobertos pela estudante.
Esse é apenas um dos espelhos da casa de Letícia, que são todos cobertos pela estudante.

Se a fobia de Larissa é no mínimo diferente, a da estudante de nutrição Letícia Correia é que causa estranheza. Desde de criança, ela lembra ter medo exagerado de espelhos e se olhar neles. “Minha avó sempre teve uma aversão a espelhos, sempre disse ser portal de espíritos, ou que nossa alma poderia ser roubada. Eu sempre cresci com isso, hoje não consigo passar na frente de um espelho sem fechar os olhos e sentir arrepios.”

Geralmente, a eisoptrofobia, ou fobia de espelhos, está ligada ao temor diante do sobrenatural. As pessoas temem ver no reflexo do espelho fantasmas e outros seres, como é o caso de Letícia. Superstições ligadas a esse objeto (como a crença de que quebrar um espelho dá sete anos de azar) também reforçam o transtorno.

Letícia, agora com 23, diz que não pretende procurar tratamento. Não acredita que isso cause danos significativos na minha sua vida. Estranhamente, ela não possui medo de se olhar na câmera frontal do aparelho telefônico ou outros dispositivos. Para passar um batom ou uma maquiagem, sempre conta com o auxílio de outra pessoa, e quando não há ninguém para ajudar, recorre ao seu smartphone. Se arruma como qualquer outra garota, através da tela do celular dá seus últimos retoques.

 

RISOS E TERROR

Eles são engraçados, ou pelo menos para a maioria. Levam alegria e espalham sorrisos por trás de toda uma extravagância. Mas nem todos os enxergam dessa maneira. Os palhaços são figuras cômicas que existem antes mesmo de Cristo vir ao mundo. Descritos como um dos dominadores da arte de fazer rir, hoje a realidade mostra um outro lado da moeda. Com a recente onda de aparições de palhaços macabros ao redor do mundo, fica claro que esses seres não levam somente alegria, mas podem despertar pavor. Obras como A Coisa de Stephen King também servem como exemplo.

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A estudante do ensino médio Laís Lima, de 19 anos, sofre de coulrofobia – o medo irracional de palhaços. Comum em crianças, esse transtorno costuma ser desenvolvido após experiências traumáticas envolvendo a figura e por vezes superado ao longo de seu crescimento. O caso de Laís é diferente. Recorda que adquiriu esse problema já em sua adolescência. “Meu medo de palhaço não é algo que trago da infância, comecei a senti-lo em torno dos meus 14 anos. Enxerguei um outro lado dos palhaços, como uma pessoa falsa, macabra, que se esconde atrás de uma fantasia para atrair pessoas e ser o menos suspeito de ter cometido um crime.”

Por morar no interior, sempre que chega algo que tire a pequena cidade da mesmice todos querem ir, mas quando é um circo que aparece a jovem é a primeira a se esconder. Laís já se acostumou a arranjar outra programação enquanto seus amigos vão para as atrações, não vai nem que lhe paguem. Sobre as recentes aparições de palhaços assustadores ela logo põe a mão no peito. “Quando vi as notícias se espalhando pela mídia eu fiquei apavorada. Pior ainda quando surgiram os boatos de que já havia um palhaço aqui na cidade, eu nem queria sair de casa”.

 

MEDO ORIGINA MEDO

Lavar as mãos e manter hábitos de higiene é uma necessidade básica do ser humano, sendo uma das medidas mais importantes para impedir a propagação de enfermidades. Mas e quando isso se torna uma obsessão e o medo de contrair doenças atrapalha a vida do indivíduo?

O estudante de Direito, que prefere não revelar o nome, tem 22 anos e aparenta ser alguém que não tem nada a esconder. O que ninguém sabe é que ele sofre de misofobia, medo patológico do contato com a sujeira e contaminação de germes. Também conhecida por germofobia e bacteriofobia, designam o medo excessivo de germes e bactérias. Um caso famoso desse transtorno foi relatado na produção cinematográfica O Aviador.

O jovem revela que sua vida já não é mais a mesma há 2 anos, quando o ritual de limpeza começou a ganhar mais força e sua rotina passou a ser alterada. “Comecei lavando as mãos mais de uma vez consecutiva, chegando a seis vezes, sempre com sabonete antibacteriano. Depois comecei a evitar abrir portas por conta das maçanetas, usar banheiros públicos e limitar meu contato físico com as pessoas.”

Ele não sai de casa sem álcool em gel na bolsa, sempre procura lavar as mãos assim que pode e também tem problema pra dividir comida caso alguém peça. Não gosta que toquem seu cabelo, rosto e pele em geral, também não fica à vontade quando precisa dividir algum lanche. Já foi criticado por pessoas que perceberam esse tipo de comportamento, mas se defende ao dizer que ninguém sabe o que ele passa.

O universitário, que reconhece precisar de ajuda, já decidiu que vai buscar tratamento. “Isso tem me atrapalhado muito, é terrível só poder se sentir seguro em casa, depois de tomar longos banhos e lavar constantemente as mãos. Quero minha vida de volta”, desabafa o estudante.

Todas as fobias citadas até agora são só alguns dos exemplos de dramas pessoais muitas vezes desconhecidos por familiares e amigos, provavelmente alguém que você conhece é portador da doença, ou até você mesmo. As fobias ditas específicas, não são consideradas tão graves como a fobia social e a agorafobia. Isso não quer dizer que não podem ser tão danosas quanto e não precisem ser tratadas. É observável o impacto causado na vida das pessoas pelos transtornos que só possuem tendência a aumentar. A pessoa acometida de fobia social sente intensa angústia ao ter de falar em público, apresentar um seminário, fazer uma palestra, ler um trecho de um livro, etc. O medo à exposição é mais forte com pessoas estranhas ou tidas como superiores. Na agorafobia, o medo exagerado é de espaços amplos ou com muitas pessoas, seus portadores têm, frequentemente, crises de medo e angústia quando estão fora de casa, seja em um congestionamento, em meio à multidão, em um grande supermercado, no cinema.

O resultado disso é a perda da vivência total do indivíduo em corpo social. “Pelo fato da gente estar interagindo o tempo todo em sociedade, precisamos nos comunicar, entrar em contato com as pessoas, e no comportamento fóbico temos a estratégia de evitação, de fuga, tenho medo daquilo então vou fugir daquela situação porque vai me fazer sentir confortável. Então uma pessoa com fobia social vai ficar fugindo, seja da vida acadêmica, de relacionamentos, do trabalho, por isso essas pessoas possuem um teor significativo muito maior em relação ao prejuízo que esse transtorno acarreta”, explica a psicóloga Nielky Nóbrega.

A ansiedade sempre se fez presente no dia a dia de nossas vidas, entretanto a socie­dade contemporânea vem sendo classificada como a sociedade da ansiedade, carregados por um ritmo acelerado de um sistema alienador vamos nos tornando ansiosos patológicos. Preocupações com o futuro, sobrecarga de deveres e prazos e suas consequentes alterações emocionais estão acarretando cada vez mais transtornos inesperados associados à ansiedade, muitas vezes originando fobias específicas.

Aceitar que tem o problema e buscar ajuda é precisamente a primeira atitude a ser tomada para iniciar o tratamento. Deve ficar claro que fobias são como qualquer outra doença, e caso sejam negligenciadas podem trazer danos irreversíveis a vida dos portadores. “Se essas pessoas buscam tratamento antecipado, elas podem prevenir o desenvolvimento de outros problemas. Se eu tenho uma fobia social e não consigo me relacionar com as pessoas e me isolo cada vez mais, a probabilidade de eu desenvolver uma depressão é muito maior, isso é o que chamamos de comorbidade, ou seja, eu tenho um problema e em decorrência desse problema eu posso desenvolver outro”, acrescenta Nielky Nóbrega.

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Seguro para celular: uma garantia de ficar conectado com segurança em Maceió

Assaltos constantes na capital têm influenciado a procura pelo serviço              | Thiago Aquino

FOTO: Thales Souza
Foto: Thales Souza

Usar o celular discretamente na rua ou no ônibus e até evitá-lo por medo de assalto. A sensação de insegurança de quem mora em Maceió pode ser explicada pelo crescimento do número de assaltos a pedestres na capital. No primeiro semestre de 2016 foram registrados 3.545 roubos, 1.129 a mais do que o mesmo período de 2015. E, neste tipo de ocorrência, o objeto levado com mais frequência pelos assaltantes é o celular. As vítimas têm um final diferente: perda total ou a indenização quando se tem o seguro.

Os dados dos assaltos são da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas e são baseados nos registros das vítimas no Boletim de Ocorrência, o BO. No entanto, esse número tende a ser maior. Nem sempre quem tem o celular roubado presta queixa. A universitária Palloma Souza não está na estatística, mas já foi assaltada duas vezes entre 2015 e 2016. Ela não procurou uma delegacia para realizar o BO, não tinha seguro e teve um prejuízo de cerca de R$ 1, 6 mil reais.

Universitária teve dois celulares roubados num período de um ano
Universitária perdeu dois celulares num período de um ano [Foto: Thiago Aquino]
O primeiro pesadelo foi no início de 2015. Enquanto atendia uma ligação, acreditando não ter nenhum estranho numa das ruas do Jacintinho, foi abordada por dois homens armados em uma moto. Já no último assalto, há cerca de seis meses, a estudante – mesmo com o smartphone guardado na bolsa – foi surpreendida por dois jovens de bicicleta.

“O pior dos dois momentos foi o último, pois além de celular roubado, fui verbalmente e fisicamente agredida por eles, um trauma que não me deixou nem assistir aula naquele dia”, relata a estudante.  “Continuo pagando o aparelho que os assaltantes levaram”.

Palloma Souza detalha, no áudio abaixo, os momentos dos dois assaltos:

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“Era Pokémon” eleva número de seguro para celulares

Ser discreto com o aparelho ou evitar usá-lo publicamente não impede o prejuízo. Pensando nisso, um número cada vez maior de usuários busca o seguro como alternativa. De acordo com o corretor Djaildo Almeida, a demanda por este tipo de serviço vem crescendo nos últimos três anos. Na maioria dos casos, a procura se dá pelo receio das pessoas serem vítimas de assalto. “Quanto maior o risco, maior a procura”, comenta.

“Na ‘Era Pokémon’ o seguro é indispensável, porque as pessoas – principalmente, adolescentes, jovens e quem está circulando todos os dias na rua – estão expostas e sujeitas a violência e o seguro é uma garantia de não ficar no prejuízo”.

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Diretor de uma seguradora, Djaildo lembra que é importante o usuário ficar atento aos serviços de seguro que são oferecidos pelas operadoras telefônicas. “Muitas vezes o cliente aceita o seguro da operadora no momento da compra, mas quando necessita fica no prejuízo porque nem sempre fica ciente do que está no contrato”. Para ele, a alternativa mais segura é conhecer o serviço através de um corretor e garante: “Sempre apresentamos aos clientes o que o seguro oferece e em que momentos ele será beneficiado com o retorno do investimento”.

Por que ter um seguro para celular? Quem responde é o corretor no vídeo abaixo: 

Vídeo: Thiago Aquino

Quem curtiu a ideia de ter um seguro para aparelhos móveis foi o piloto de linha aérea, Carlos Alberto Fernandes. Ele procurou pelo serviço em 2015, assinou o contrato e há 30 dias precisou recorrer ao seguro porque foi vítima de um assalto em uma rua no bairro do Antares. Ele estava com um iPhone 6, que custou mais de 3 mil reais, quando foi abordado por dois assaltantes.

Segundo Alberto, o seguro é uma alternativa para quem quer usar o aparelho celular com mais tranquilidade e ter a certeza de que, se acontecer algum imprevisto, o serviço vai cobrir. “É vantajoso e vale a pena pagar pelo seguro porque, mesmo você sendo pego de surpresa, vai ter a quem recorrer com uma garantia de não ficar no prejuízo”, afirma o cliente.

Alberto foi vítima de assalto e aguarda indenização
Alberto foi vítima de assalto, perdeu um iPhone e aguarda indenização de seguradora [Foto: Thiago Aquino]
Com a expectativa de receber a indenização nos próximos dias, Carlos Alberto vai continuar com o seguro. Para o cliente, a amenização do prejuízo, recebendo cerca de R$ 2.800,00 de indenização “faz valer a pena aderir ao seguro e ter investido os R$ 700 reais durante o contrato”.

Outros equipamentos com seguro

Apesar de o roubo ser a ocorrência mais comum coberta pelo seguro, não é apenas o celular que pode estar coberto pela apólice. De acordo com o corretor Djaildo Almeida, o interessado pode ampliar o número de pertences que queira assegurar em casos de sinistros: equipamentos portáteis como notebook, tablet, câmera e filmadora estão na lista de pertences que também são assegurados.

Equipamentos cobertos por seguro [Imagem: reprodução / Jaraguá Seguros]
Equipamentos cobertos por seguro [Imagem: reprodução / jaraguaseguros.com.br]
O aumento da procura, segundo Almeida, também pode ser explicado pelo valor acessível aos clientes, que varia de acordo com o produto. São de 15% a 20% do valor descrito na nota fiscal. O pagamento pode ser dividido durante todo ano em parcelas de até 6 vezes sem juros. A opção de pagamento também é flexível: crédito, débito ou no carnê. “Nestas condições, podemos dizer que até adolescentes e jovens podem ter o seguro do seu aparelho”.

Aplicativo evita fraudes

Para assinar o contrato, o cliente precisa apresentar a nota fiscal do produto, informar quais benefícios que melhor se enquadra e instalar um aplicativo localizador no aparelho. Esse procedimento, de acordo com Djaildo é para segurança do próprio cliente em ter a garantia da indenização. “Hoje em dia com o grande número de assaltos, qualquer pessoa pode chegar numa delegacia e fazer o BO e apresentar como argumento para receber o valor indenizatório, mas com o localizador a gente monitora onde o cliente estava nos últimos momentos do dano e, então, isso confirma a situação e evita fraudes”, esclarece o diretor da Jaraguá Seguros.

Garantias e benefícios do seguro para equipamentos portáteis
Garantias e benefícios do seguro para equipamentos portáteis [Reprodução: jaraguaseguros.com.br]
WhatsApp supera telefone em atendimento entre cliente e seguradora

whtasSe, entre os equipamentos portáteis, o smartphone é o produto que mais motiva as indenizações oferecidas pelas seguradoras, ele também é responsável por ser ponte de negociação entre os clientes e as seguradoras. A Jaraguá Seguros, por exemplo, mantém um site interativo onde os próprios internautas podem conferir os tipos e benefícios dos seguros, fazer a simulação e solicitar os serviços. Para chegar até o momento do contrato, no entanto, as pessoas procuram tirar dúvidas direto com o corretor, não na sede da seguradora, mas pelo WhatsApp. “As pessoas querem mais comodidade e, pensando nisso, buscamos nos aproximar delas. O atendimento pelo aplicativo vem superando o telefone”, afirma o diretor Djaildo.

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Abandonados pelas famílias, idosos dependem de abrigos e de voluntários em AL

O envelhecimento do país e o aumento da violência contra idosos vêm preocupando entidades; elas alegam despreparo do Estado e falta de Educação

Thiago Aquino

Cerca de 600 idosos vivem em instituições de longa permanência (ILPPIs)
Cerca de 600 idosos vivem em instituições de longa permanência (ILPIs) em Alagoas [Fotos: Thiago Aquino]
Sonhar em ter filhos, criá-los, cuidar da melhor forma possível e receber uma recompensa amarga quando os cabelos embranquecem: o abandono. É assim que cerca de 600 idosos enfrentam a vida, em Alagoas, vivendo em instituições de longa permanência. O Ministério Público Estadual garante que, em todas as classes sociais, há violação dos direitos dentro da própria casa e que nem o Poder Público consegue dar conta do recado. A Pastoral da Pessoa Idosa assiste mais de 2 mil idosos na capital e no interior, tentando amenizar os problemas da segunda população que mais sofre violência, num país que está em processo de envelhecimento, como aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Negligência, abuso financeiroestatistica, violência psicológica e física. Foram dessas maneiras que mais de 62 mil idosos em todo Brasil foram tratados, de acordo com o último balanço anual do Disk 100. O levantamento da Secretaria Nacional dos Direitos Humanos revela que durante o ano passado houve 8.534 denúncias a mais que 2014.

A pele enrugada de quem já trabalhou, criou os filhos e que gostaria apenas de atenção por tudo que já fez nem sempre é compreendida.  No estado, cerca de 600 idosos que vivenciaram essas situações vão parar nos 20 abrigos presentes na capital e no interior, hoje intitulados como instituições de longa permanência para idosos (ILPIs).  Segundo os diretores das casas, há também famílias que alegam não terem condições financeiras, estruturais e até tempo para manterem a vovó ou o vovô dentro da própria casa.

O aposentado Luiz Clarindo, 93, é morador do Abrigo São Vicente de Paulo, localizado no bairro da Cambona, em Maceió. Quem o vê discretamente no seu cantinho, pintando os papéis em branco, não imagina o quanto já sofreu por ser dependente de uma mão amiga. A gentileza de “Seu Luiz” ao presentear sua arte a quem chega por perto esconde um episódio chocante: já foi mantido preso em cárcere privado dentro de sua própria casa. Após ser resgatado, foi encaminhando ao abrigo.

Lápis de cor e papel são o passa tempo de idoso
Lápis de cor e papel são o passatempo de Luiz Clarindo em abrigo

Quem gosta de contar a própria história é o cadeirante Luís Cavalcante de Lima, 73. O currículo recheado é de quem já trabalhou muito: marceneiro, músico, soldado, motorista, tratorista, e ele faz questão de lembrar que também foi vaqueiro. Questionado sobre o porquê de estar no abrigo, ele responde com firmeza e com espontaneidade: “Eu tenho família, mas os problemas de saúde davam muito trabalho e prefiro estar aqui, porque recebo todos os cuidados”, explica. “Daqui só vou sair para o cemitério”.

As duas histórias com o mesmo destino, mas com passados diferentes, são exemplos dos motivos que levam um número cada vez maior de idosos a abrigos, segundo a diretoria da instituição: vítimas de violência ou a família argumenta que não tem condição financeira, estrutural ou tempo disponível para se dedicar aos cuidados com a saúde. Neste último caso, eles demonstram chegar cientes e de forma espontânea.

“Falta o calor humano”

Gerenciado pela Sociedade de São Vicente de Paulo, SSVP, o Abrigo São Vicente de Paulo atende 26 homens e mantém a alimentação, os serviços de limpeza e os 18 funcionários, entre eles, enfermeira e assistente social, através da renda dos idosos e de doações que chegam através do trabalho de telemarketing e da mobilização dos vicentinos, membros da SSVP.

Abrigo cuida de 26 idosos em Maceió
Abrigo cuida de 26 idosos em Maceió

Segundo Maria Bernadete, diretora da instituição, a comida e o bom trato não faltam, mas há ausência de algo muito importante e que não tem preço. “O que a gente percebe neles é o desejo de terem por perto pessoas com quem possam conversar e se distrair. Graças a Deus, nunca falta o necessário, mas muitas vezes falta o calor humano, as visitas das pessoas”.

Falta o acompanhamento, inclusive, dos próprios familiares. De acordo com o Abrigo São Vicente, dos 26 idosos, apenas seis recebem visita dos seus parentes. “Ligamos sempre para convidá-los para participar das festividades, mas nunca aparecem. Temos casos de idosos que nem sabem onde vivem seus familiares”, informa a diretora.

 “Descobertos de qualquer proteção”

Bernadete é diretora de abrigo e reconhece que falta presença das famílias
Bernadete é diretora de abrigo e reconhece que falta presença das famílias

Bernadete, que também é vice-presidente do Conselho Municipal do Idoso, reconhece que os recursos do Governo Federal repassados pelo Estadual e Municipal são mínimos. “A cada dois meses, recebemos esse auxílio, que, dividindo entre os moradores, não passam de R$ 50,00 reais por mês”, informou. Sobre o apoio governamental, ela é direta: “nossos idosos, infelizmente, estão descobertos de qualquer proteção. Falta um olhar mais atento”.

Interior

Em União dos Palmares, na zona da mata alagoana, está o maior abrigo para idosos do interior, em número de moradores. A Casa do Pobre Santo Antônio já tem uma história de 62 anos e é referência, segundo a Pastoral da Pessoa Idosa, em promover atividades de entretenimento e saúde aos idosos. Psicólogos, fisioterapeutas, assistentes sociais, nutricionistas e educadores físicos realizam trabalhos com os moradores.

Em União dos Palmares, a Casa do Pobre Santo Antônio é o maior do interior em número de moradores
Em União dos Palmares, a Casa do Pobre Santo Antônio é o maior do interior em número de moradores

Em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, há também atendimento médico e odontológico.  O abrigo sempre lança campanhas de incentivos a visitas e a população sempre corresponde. Escolas, grupos culturais e comunidade promovem bons papos, sorrisos e boa companhia.

“A nossa intenção é tirar a imagem de que o abrigo é um lugar da solidão, de tristeza e de abandono”, diz a diretora, Ana Paula Moura. “Eles não estão aqui para receber pessoas com sentimento de dó, precisam mesmo é do contato com os outros para compartilhar suas histórias, e isso é fundamental”.

> Ouça o relato abaixo do aposentado Antônio Fernandes e saiba porque ele escolheu o abrigo para viver: 

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Envelhecimento nos abrigos

O último levantamento feito pela Secretaria Estadual de Assistência de Desenvolvimento Social e pelo setor de Saúde do Idoso da Secretaria Estadual de Saúde, SESAU,  mostra que Alagoas conta com 20 instituições de longa permanência, acolhendo cerca de 600 idosos. Doze delas se concentram em Maceió e as demais, no interior.

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Uma pesquisa divulgada em 2008 pelo IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada, enumerou 16 delas e revelou que quase 90% se declararam como filantrópica-religiosas. Atualmente, as entidades alagoanas não reconhecem nenhum abrigo público. “Todos funcionam graças a renda dos próprios idosos. Mesmo um abrigo gerenciado por um órgão governamental, não cabe o conceito de ser público, porque as características seguem as mesmas dos filantrópicos”, defende Crismédio Neto, presidente estadual da Pastoral da Pessoa Idosa, PPI. “Percebemos que até os filantrópicos poderiam ser considerados particulares”.

Representante também do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso, Neto acredita que o abrigo não é o melhor caminho. Para ele, a cultura do descarte é fruto da falta de educação, e que colocar uma pessoa com mais de 60 anos num abrigo não deixa de ser um abandono. “Por mais bem tratadas que essas pessoas sejam e afirmem que estão bem, sabemos que o melhor lugar para se viver na velhice é dentro de casa, recebendo o carinho do filho e dos netos, mesmo que o ambiente seja pobre e simples”, explica o voluntário. E ele garante: “Se a família cumprisse seu papel, não precisaríamos de abrigos, muito menos do Estatuto da Pessoa Idosa”.

[Pesquisa diz que brasileiros temem solidão na velhice]

O ideal para a Pastoral da Pessoa Idosa seria o Centro Dia do Idoso, que existe em poucos estados e é mantido pelo Governo Federal. O objetivo do projeto é que o idoso passe o dia na instituição com atividades físicas, momentos de recreação, entretenimento e que, à noite, ele volte para casa, para o ambiente familiar.   Em Alagoas, o projeto está pronto e a Rede Alagoana de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa, REALDI, espera a aprovação do governo estadual. O movimento é constituído de entidades da sociedade civil com representações dos órgãos públicos.

Violência do silêncio

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Crismédio Neto é presidente estadual da Pastoral da Pessoa Idosa que faz acompanhamento em residências

Na semana do Dia Internacional do Idoso, 1º de outubro, Neto afirma que não há motivo para comemorar. Segundo ele, a sociedade e o Poder Público não estão preparados para lidar com uma multidão de sexagenários que aumenta a cada dia. “Não podemos nos calar e dizer que está tudo bem. É preciso chamar atenção do Poder Público para que não seja omisso, porque quando se fala em políticas para o idoso o assunto se enfraquece. Chamo atenção porque a violência contra o idoso acontece sem barulho, silenciosamente, dentro das casas e, muitas vezes, as denúncias não chegam aos órgãos competentes”.

O líder alerta que a rejeição dos idosos homossexuais, indígenas e deficientes vem aumentando em Alagoas. Para ele, além de existir costas viradas para as pessoas apenas pelo fato de ser velhas, o preconceito também vem acumulando os descasos. “Independente de raça, cor e religião, toda pessoa idosa merece o respeito e a dignidade”.

Prisões nos prédios da Ponta Verde

netoCrismédio Neto deixa claro, ainda, que os casos de violação acontecem da periferia a bairros da orla marítima. Segundo ele, o desprezo e o abuso financeiro acontecem em todas as classes. “Existem prisões em apartamentos da classe alta. São pessoas que foram bem sucedidas, prestaram serviços relevantes para o Estado e que hoje não estão desfrutando do melhor da vida e sim isoladas”, lamenta. “O idoso vem sendo tratado como copo descartável: só procura quando necessita de dinheiro, sem nenhum vínculo de afeto e de amor”.

MP confirma alto índice de violência contra idosos

Quem confirma o posicionamento da Pastoral é o promotor Hélder Jucá Filho, da Promotoria de Justiça Especializada na Defesa da Saúde, do Idoso e do Deficiente Físico. O representante do Ministério Público se diz impressionado com as atitudes de familiares. E detalha as características da violação: “Tivemos processo aqui de idoso com uma renda de 14 mil reais, por exemplo, e que não tinha direito de comprar uma caixa de fósforo, porque o filho gastava tudo e o deixava num lugar afastado dentro de casa, num ambiente inabitável”.

Promotor Hélder Jucá informa que denúncias de negligência e abuso financeiro são constatnes
Promotor Hélder Jucá informa que denúncias de negligência e abuso financeiro são constantes

“Carreira de faca”

O promotor reconhece que a falta de estrutura do Ministério Público acaba prejudicando o trabalho em apurar denúncias. A carência de funcionários e até de transporte faz que ele prefira fazer visitas domiciliares como um cidadão comum. Ele conta um fato inusitado que por pouco não acabou em tragédia. “Cheguei numa casa onde visivelmente tinha um retrato de negligência, tentei dialogar com o filho – porque geralmente tento resolver dessa forma antes de prosseguir com os processos – e o resultado foi que levei uma carreira de faca”. Jucá argumenta que a demanda é grande e que as condições não ajudam. “Aqui eu tenho que ser promotor, psicólogo, juiz e policial”.

Hélder Jucá também defende que os maus tratos dentro de casa é um “abandono vigiado”. Ele explica que o motivo de muitos filhos manterem o pai ou a mãe dentro de casa é a garantia da renda mensal. “Essas pessoas sabem que, se o idoso sair de casa e for para uma casa de acolhimento, vão perder o acesso ao benefício”.promotor

A hereditariedade dos maus costumes, segundo o promotor, também é um fator presente na sociedade. As cenas de violência e o modo como o idoso é tratado em casa vão se repetir na vida daquele que causou as situações de violação. “Já chegou aqui um homem que já foi advertido por maltratar o pai e que, 10 anos depois, voltou para pedir que fosse feito com o filho o que foi feito com ele no passado,e falei abertamente para ele: o seu filho simplesmente copiou o modo de você agir”, relembrou Jucá.

Qualidade dos abrigos

Sobre os abrigos no estado, o Ministério Público garante que também acompanha de perto a realidade para que eles cumpram o que o Estatuto da Pessoa Idosa e o Regulamento Técnico da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ANVISA, determinam. “Nem sempre eles conseguem seguir as regras e o MP tem que dialogar com essas instituições para que essas pessoas tenham a dignidade garantida”. Ele citou o problema da renda dos idosos, que 70% é reservada para a instituição e que 30% deve estar nas mãos dos moradores. “Isso deve ser cumprido, apesar que muitos deles são totalmente dependentes e, então, não acontece”, destaca.

Questionado sobre a qualidade das instituições de longa permanência, o promotor afirma que vê o esforço de muitos em manter a casa em ordem, mas que há uma ou outra que é preciso estar de olho e sempre fiscalizar. Já sobre a atuação do Estado, o promotor afirma que falta qualificação dos profissionais nos órgãos especializados nos cuidados aos idosos e que os governos deveriam buscar meios para aumentar os recursos destinados aos abrigos filantrópicos, já que não tem algum gerenciado e mantido totalmente pelo Poder Público.

Estatuto do Idoso completou 13 anos no dia 1º de outubro
Estatuto do Idoso completou 13 anos no dia 1º de outubro, mas ainda não é uma realidade

Conselho Estadual da Pessoa Idosa

Quem lamenta a falta de atenção do Poder Público para com os idosos de Alagoas é o vice-presidente do Conselho Estadual do Idoso. Petrúcio dos Santos informa que, dos 102 municípios, apenas 25 contam com os trabalhos do Conselho Municipal do Idoso. Com o papel de estar presente na comunidade para realizar visitas, receber denúncias e encaminhá-las ao Ministério Público ou até mesmo a Polícia, a entidade reclama da falta de incentivo dos próprios municípios. “Somos ponte entre os idosos e os órgãos competentes, mas infelizmente muitos prefeitos não se preocupam com isso”, lamenta Petrúcio. “Nem os conselhos que estão em trabalho recebem apoio, se necessitarmos de algum transporte, por exemplo, tiramos do bolso”.

Petrúcio dos Santos, Vice-presidente do Conselho Estadual do Idoso, critica a ausência do Poder Pública no combate a violência
Petrúcio dos Santos, vice-presidente do Conselho Estadual do Idoso, critica a ausência do Poder Público no combate à violência

O representante também recorda o desligamento do Centro Integrado de Atenção e Prevenção  à Violência  Contra a Pessoa Idosa, CIAPPI,  ligado à Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social de Alagoas. O órgão foi criado em 2009 e realizava ações de prevenção, atendimento psicológico, social e jurídico ao idoso em situação de vulnerabilidade social, além de manter o “Disque-Idoso” para o recebimento de denúncias, mas fechou as portas cerca de 4 anos depois. “Era o único órgão de amparo ao idoso alagoano, que, infelizmente, no governo anterior,parou de funcionar,e o atual também não se preocupou em reativá-lo”, reclama o líder. “Se acontece hoje alguma coisa com um idoso, a quem vamos recorrer? À polícia? Ela vai alegar que é com o MP e vive versa, enquanto isso a vítima continua sofrendo”.

Aos 71 anos e com boa disposição, o voluntário afirma que o motivo de fazer parte do Conselho Estadual do Idoso surgiu antes mesmo de chegar aos 60 anos: “eu era ciente de que chegaria a velhice e sonhava em ser bem cuidado”. Segundo Petrúcio, a forma de tratar o idoso, no Brasil, é completamente diferente da Europa, e garante que ele mesmo vivenciou isso ao visitar vários países. “Na França, os idosos são quem discutem o destino do país. Na Turquia, quando um idoso se aproxima do ônibus, todo mundo se afasta para que ele possa passar. Já aqui em Maceió, os jovens fingem em estar dormindo para não oferecerem o lugar”, comparou Santos.

Voluntários tentam amenizar violações

A reportagem acompanhou uma visita de voluntárias da Pastoral da Pessoa Idosa, PPI, na comunidade Paraíso do Horto, no bairro da Chã da Jaqueira. Identificadas com a camisa, as seis mulheres circulam pelas ruas para localizar suas assistidas. Uma das idosas é a aposentada Cícera Tereza de Jesus, de 92 anos. Ela recebeu a visita com o sorriso de quem já aguardava a chegada.

Voluntárias realizam visitas domiciliares e buscam o bem estar para os idosos
Voluntárias realizam visitas domiciliares e buscam o bem estar dos idosos

Com o livro de anotações, a líder da Pastoral, Cláudia Santana, faz os questionamentos sobre a rotina da idosa, o que fez durante o mês e se está precisando de alguma coisa. Cláudia recorda que a assistida já foi vítima do abuso financeiro: uma filha não morava com ela, mas era quem controlava o benefício da aposentadoria e não fazia bom proveito dele para que Tereza de Jesus tivesse uma vida melhor. Após o fato chegar ao conhecimento do Ministério Público, a situação foi resolvida e, hoje, a moradora da Chã da Jaqueira deixa claro: “Aqui está bom, não me falta nada e só vou sair daqui quando morrer”. A voluntária confirma que a vida da aposentada é outra. “Graças a Deus foi mais uma vida preservada da violação de seus direitos”.

A aposentada Cícera Tereza já foi vítima de abuso financeiro
A aposentada Cícera Tereza já foi vítima de abuso financeiro

A Pastoral da Pessoa Idosa atua com visitas mensais e acompanha a situação de cada idoso nos aspectos de saúde, financeiro, psicológico e do bem estar. Se for constatado qualquer tipo de violação e não for resolvido, a entidade repassa ao Conselho Estadual do Idoso e ao Ministério Público. “Não é apenas um trabalho fiscalizador, mas, sim, de conhecer as pessoas, dialogar e tentar resolver qualquer problema a partir desse relacionamento que se cria”, frisa o presidente estadual, Crismédio Neto.

A coordenadora da Pastoral na região da Chã da Jaqueira tem essa rotina há 8 anos. Questionada sobre o que mais chamou atenção em quase uma década de trabalho, ela lembra, emocionada: “Recentemente, uma assistida nossa faleceu num abrigo. Ela foi parar no local após pedir inúmeras vezes para sair de casa, porque sofria agressão física da namorada do neto. Isso me tocou profundamente, porque não imaginava tanta injustiça para uma pessoa frágil e que necessitava de cuidados”.

Vinculada à Igreja Católica, a PPI está presente em Maceió e em mais dez cidades alagoanas. São mais de 300 líderes espalhados pelo estado e mais de 2 mil idosos acompanhados. As histórias presenciadas por voluntários são transformadas em laços de afeto, de amor e de carinho pela pessoa idosa.

> Confira, no vídeo, alguns momentos da visita: 

CREAS

O Centro de Referência Especializada em Assistência Social, o Creas, que deveria estar em todas as cidades para auxiliar no trabalho de visitas e diagnósticos das famílias, ainda está em processo de implantação. De acordo com a Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social, dos 102 municípios, 53 contam com os trabalhos do Creas. A unidade pública faz orientações e oferece serviços especializados a indivíduos e famílias com direitos violados.

[Brasil téra 73,5 milhões de idosos em 2060]

A assistente social Maria Brasil explica que o Creas atua na comunidade para garantir os direitos por lei nas áreas da Saúde, Educação, Assistência Social e Lazer. “As equipes realizam visitas e vai depender da situação daquele idoso – já que é um dos públicos que o Creas atende – para saber que atendimento vamos oferecer e, se tratar de alguma forma de violência, cabe aos órgãos competentes acompanharem o caso”.

Delegacias especializadas

Em Alagoas, apenas no primeiro semestre deste ano foram mortos 26 idosos, segundo dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública. O número chamou atenção e fez a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas, SSP, criar o projeto “Cuidado de você”, designando quatro delegacias especializadas para receber denúncias de crimes contra a pessoa idosa. As delegacias determinadas para esses tipos de casos são a do 4º (Pinheiro), 5º (Salvador Lyra), 6º (Cruz das Almas) e 8º (Benedito Bentes) Distritos Policiais da Capital. Na última semana de setembro, agentes da Segurança Pública concluíram a capacitação em atendimento à pessoa idosa vítima de violência.

Sem dados

A reportagem tentou fazer um levantamento dos números de todos tipos de violência contra idosos em Alagoas, mas não obteve êxito. A Pastoral da Pessoa Idosa não tem registrados os casos que encaminhou aos órgãos públicos. A Promotoria Especialista informou que não tinha o balanço dos números. A Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social informou que o Conselho Estadual do Idoso teria dados concretos, mas também não conseguiu.

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Educar para acabar com a violência contra o idoso. Esta é a solução apontada pela presidente da Associação Nacional de Gerontologia do Brasil, ANG. Com mestrado em Gerontologia Social, pela Universidade de Barcelona, na Espanha, Tereza Rosa Lins Vieira faz parte da Rede Alagoana de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa, REALDI, e afirma que a ausência do Estado, os maus costumes das famílias e o crescimento da população idosa tendem a piorar o quadro de violência contra os sexagenários.

Para a mestra e doutora em Educação para Pessoas Adultas pela Universidade de Salamanca, Espanha, o melhor caminho é a educação para o envelhecimento. “Se o idoso é abandonado pela família, não tem a quem recorrer, os crimes ficam impunes e se as instituições de longa permanência não estão preparadas, o que fazer?”, questiona Tereza Lins.

“É de fundamental importância que as pessoas tenham acesso a essa educação: mostrar que a velhice não é um bicho, que todos vão envelhecer e que estarão na mesma situação”, defende Rosa, que carrega, também, em seu currículo o pós-doutorado em Educação, pela Universidade Federal de Pernambuco. “Se todos são omissos, a violência contra os idosos só vai ser erradicada pela educação”.

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Bullying na escola: seu filho está protegido?

No posto de uma das capitais com maiores índices de provocações e ofensas do país, seguro anti-bullyng ainda é desconhecido por empresas e escolas de Maceió

Rafaela Pimentel e Yasmin Assis

Tudo começa com um apelido inofensivo. Nos trabalhos em grupos ou em jogos, ele é sempre o último a ser escolhido. Aos poucos, a rotina de intimidação e ofensas assume um poder de transformação na vida escolar e até mesmo na personalidade das vítimas. Do racismo às humilhações difamatórias, o bullying é uma das formas de violência que mais cresce no país. E em Alagoas a situação é ainda mais alarmante.

No posto de uma das cidades com maiores índices de homicídio entre jovens, a capital Maceió protagoniza um dos principais palcos desta prática. Em última pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a saúde escolar no país, já em 2012 pelo menos 57,9% dos estudantes declararam ter sofrido algum tipo de provocação pelos colegas. Desse total 35,2% são alunos de instituições privadas.

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Hoje, cinco anos depois deste diagnóstico, as unidades de ensino em Maceió ainda andam a passos curtos na busca por medidas preventivas e permanecem, inclusive, vulneráveis a possíveis processos jurídicos. Enquanto estados como São Paulo e Rio de Janeiro disseminam uma nova modalidade de seguro no mercado, o anti-bullying, e resguardam-se de futuras indenizações às famílias: o serviço ainda é desconhecido entre as escolas e a maioria das seguradoras de Alagoas.

O medo que as famílias e jovens possuem em tomar a iniciativa legal contra a instituição de ensino é um dos principais fatores que fazem com que este tipo de proteção permaneça inexplorada. Isso porque, muitas vezes, esta atitude tende a transformar a convivência escolar da criança ainda mais complicada, tornando-as um alvo mais frágil às agressões físicas ou emocionais. Foi ainda no colégio, com apenas 17 anos, que a rotina de constrangimentos e acusações iria mudar a vida de J.F de maneira definitiva.

“Quando cursava o 2º ano da escola, mandei fotos pessoais para um menino que gostava. A gente estudava juntos e durante muito tempo isso nunca me causou problema até que estas imagens vazaram. Estava na ceia de natal com a minha família quando descobri e naquele momento sabia que tudo ia mudar. Não tinha noção de como reagir ou que medidas tomar, eu era apenas uma adolescente e de repente comecei a ser criticada e recriminada de todos os lados, principalmente, pela própria instituição”, desabafa J.F


Desde responsabilizar a falta de “boas maneiras” ou culpar a ausência de religião da vítima, a estudante chegou a ser convidada a se retirar do colégio.

img-20161003-wa0048“Não recebi qualquer tipo de apoio psicológico. É assustador como as unidades de ensino ainda não sabem tratar este tipo de situação. Naquela época optei por não tomar providências jurídicas, mas hoje entendo que esta é uma medida importante como alerta às famílias e escolas”, afirma.

Além de desumano, o posicionamento intolerante da escola representa o despreparo com que as instituições ainda lidam com estes casos. Nestas situações, de acordo com a psicóloga clínica Nielky Borges, é justamente por se caracterizar como um ambiente de socialização que, a depender da postura assumida, as unidades de ensino podem ser tornar tanto um local de proteção como desencadeadora de problemas.

“Entendemos bullying como um agente tóxico, um estressor que pode favorecer o desenvolvimento de inúmeros transtornos mentais. Uma das emoções mais frequentes nestes casos é a raiva e quando a mesma não é vivenciada de forma funcional, pode levar a inúmeros problemas”, explica a especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental. Por isso, a comunicação entre escola e pais é essencial, principalmente, no aspecto da prevenção.

Vulnerabilidade x segurança

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Se por um lado o medo do aumento de desgaste para as crianças inibe a ocorrência de mais processos, do outro cresce a percepção das famílias de que do portão para dentro a responsabilidade passa a ser da escola. É aqui que o trabalho pedagógico exclusivo de combate ao bullying deixa de ser suficiente. O Código Civil entende que o colégio é encarregado da reparação dos estudantes e sem precaução as unidades de ensino ficam suscetíveis a indenizações por danos físicos e morais.

Na teoria, o bullying é entendido sob a ótica jurídica como uma intimidação sistemática, que pode acontecer tanto em escolas quanto no ambiente de trabalho. Uma vez presente nos espaços de ensino, passa a ser papel de toda e qualquer instituição agir na prevenção destes episódios, seja por meio de campanhas ou projetos de conscientização. Às famílias está garantido o direito de providenciar um boletim de ocorrência indicando as datas e horários das ameaças/agressões.

Em meio a propagação recente da modalidade, o professor doutor em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Marcos Ehrhardt, defende a ideia de que o seguro anti-bullying é apenas uma ampliação na cobertura de Responsabilidade Civil já consolidada no mercado. O que acontece, na realidade, é um apoio mais específico e sistemático às unidades de ensino na garantia de respaldos a indenizações pontuais para casos de ofensas que envolvam o ambiente escolar.

“Nestas situações mais particulares, a conduta correta é que as escolas informem aos pais de ambas crianças – vítimas e abusador – e tomem as medidas pedagógicas necessárias. Elas podem vir por meio de advertência, suspensão ou até mesmo expulsão. Caso os pais da vítima queiram ainda assim entrar com a ação, o Juizado da Infância e Juventude que fica responsável pela análise do caso e as possíveis indenizações por danos morais”, esclarece Marcos Ehrhardt.

A grande novidade, contudo, é que a preservação do patrimônio, não é o único benefício proporcionado aos segurados neste tipo de serviço de responsabilidade civil. Uma vez aderido o seguro, as instituições de ensino – sejam elas colégios, escolas de idioma ou universidades – são ainda resguardadas na defesa jurídica de funcionários, e até mesmo no pagamento de fisioterapia, apoio psicológico, transporte para a frequência dos estudos e aulas domiciliares às vítimas.

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Mesmo na posição de única aluna negra na escola, T.A.S é mais uma das milhares de crianças que sofreu bullying, e não contou com o respaldo adequado da instituição. Sem seguro ou qualquer tipo de trabalho de prevenção na escola, T.A.S permaneceu vulnerável ao cotidiano de humilhações verbais repetitivas praticadas pelos colegas de sala. Mais uma vez, o receio e falta de conhecimento impediram que mais uma família fosse adiante à exigência de seus direitos garantidos por lei.

img-20161003-wa0050“Ser a única estudante negra da minha escola já me fazia diferente dos outros. Nunca tive muitos amigos e as meninas da sala mal falavam comigo. Por gostar de sentar perto do quadro e dos professores, as pessoas achavam isso mais um motivo para me chamar de nomes e ofensas. Eram coisas tão absurdas que algumas eu nem mesmo sabia o significado, até que um dia contei para os meus pais e eles ficaram abismados”, revela T.A.S, mais uma vítima que optou por não processar a instituição.

Desafios em Alagoas

Em Alagoas, o cenário ainda é de desconfiança. Com valores que variam de acordo com o perfil dos estudantes e o porte das escolas, o seguro anti-bullying ainda é visto com receio pelas unidades de ensino. Apesar das vantagens já consolidadas, o medo de passar a impressão de descaso com os problemas de agressão e a baixa ocorrência de processos ainda inibe a projeção desta nova modalidade.

Atuando como multinacionais, as seguradoras Ace e Tokio Marine são uma das poucas no Brasil que já oferecem o anti-bullying. Aderido como um serviço mais especializado ou apenas um adendo à modalidade de Responsabilidade Civil, as companhias de seguro ainda estão em fase de adaptação verificando estatísticas, sinistralidades para posteriormente expandir as atividades em mercados menores, como explica o diretor do Sindicato dos Corretores de Alagoas (Sincor), Ailton Júnior.

“Sempre estamos prontos para informar e qualificar nossos associados, é um processo de adaptação. O que existe, e é muito comum em todos os segmentos de seguradoras, é o cliente esperar receber um processo por para tomar ciência da necessidade e vantagem de possuir um seguro para resguardo. Como os casos de indenização ainda são pouco expressivos em Alagoas, esta modalidade ainda não encontrou mercado exploratório desejável”, pontua o diretor do Sindicato dos Corretores de Alagoas, Ailton Júnior.

A reportagem por diversas vezes tentou entrar em contato com o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino de Alagoas (Sinepe), mas até o fechamento do material não obteve resposta.

 

Conheça as histórias de T.A.S e J.F:

 

 

 

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Abuso sexual na escola: as relações são privadas, mas o Poder é Público!

Por: Fábio Medeiros
Por: Fábio Medeiros

Por: Raíssa França e Ingryd Rodrigues

Estão cada vez mais comuns os casos de abuso sexual voltados para crianças e adolescentes de escolas públicas e privadas em Maceió. De modo geral, só no primeiro semestre deste ano, as 59º e 60º Promotorias da Capital registraram 107 ações contra homens acusados de estupro infantil. Da 59º Promotoria, foram registrados quatro casos em janeiro, 15 em fevereiro, 19 em março, 14 em abril e 12 em maio. Já da 60º foram ajuizadas sete ações em fevereiro, 12 em março, seis em abril, e 18 em maio.

Antes do fechamento desta reportagem, no dia 28 de setembro, duas adolescentes de 16 e 17 anos estavam voltando da escola quando foram abordadas por um homem armado, em um carro da cor preta, que obrigou as duas a entrarem no veículo. Elas foram sequestradas, estupradas e jogadas em um trecho da rodovia AL -101 Norte.

Os números das Promotorias divulgam somente o que foi ajuizado de uma forma geral, entretanto, ainda há muito silêncio envolvido: seja por parte das vítimas, que preferem não ser identificadas – evitando, assim, uma exposição indesejada -, seja por parte do Poder Público. De acordo com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Maceió, apenas três conselhos tutelares repassam, de forma muito precária, sem dados concretos, nem relatórios sólidos, o número de casos de abuso sexual envolvendo menores.

Apesar dos poucos dados fornecidos, ainda há muito para denunciar. Entre relatos colhidos para a reportagem, os entrevistados decidiram tornar público o assunto que consideravam privado, porém, preferiram utilizar pseudônimos para não serem identificados. Em diferentes casos, todos concordam com algo: é preciso denunciar.

“Prints”

Se as notificações são poucas, muito menor é o número de crimes que chega ao conhecimento do público. A mobilização da sociedade só surge quando acontecem situações extremas, como as narradas acima ou como foi o caso da adolescente de 16 anos de um colégio particular, que foi vítima de assédio pelo coordenador de ensino médio da instituição.

O pai da garota, que é advogado criminalista, não se calou diante da situação e utilizou as redes sociais para denunciar o fato. Ele divulgou o “print” da conversa onde o coordenador fazia comentários de apelo sexual e chamava a menor para se dirigir até a sala dele. O advogado reuniu uma série de “prints”, depoimentos e áudios e deu entrada em um requerimento judicial na Delegacia-Geral para que houvesse investigação.

Segundo ele, o delegado-geral encaminhou o requerimento para a Delegacia da Criança e do Adolescente da capital. “Uma comissão de pais foi formada, pois outros casos ocorreram dentro da escola, estamos querendo justiça”, comentou. O colégio, após o caso, afastou o coordenador do cargo.

Motorista

Foto: Ingryd Rodrigues
Foto: Ingryd Rodrigues

Por outro lado, algumas histórias nunca foram levadas para a justiça. Bianca*, 21 anos, foi uma das vítimas que guardou durante nove anos o abuso sexual sofrido quando ela tinha 12 anos. O acusado era motorista do transporte de uma escola particular, 33 anos, casado e pai de dois filhos. A princípio, tudo começou com uma passada de mão, elogios e carícias. Mesmo com medo, a garota, que era conhecida como a ‘nerd’ se sentiu intimidada pelo motorista que afirmava gostar dela. “Ele aproveitava o momento de me levar para casa e pedia para que eu sentasse na frente, junto com ele, para que pudesse me alisar”, contou.

Segundo Bianca, o estupro ocorreu quando ela foi fazer uma arrecadação de alimentos nas ruas do bairro e sem saber, foi até a casa do acusado. Ele a convidou para entrar e retirou a roupa dela, obrigando-a ao ato sexual. “Ele primeiro tirou minha roupa e eu deixei, ele me deitou nua no sofá e eu deixei, mas quando percebi que ia acontecer algo mais sério, falei para ele que não queria e que estava com medo, mas ele me forçou”, desabafou.

Após o abuso, a adolescente desistiu de voltar à escola e comentou com uma amiga o que tinha acontecido, mas, por descuido, o primo viu a conversa em uma rede social e contou para a mãe da vítima: “Ela decidiu me retirar da escola e não ia contar para a diretora sobre o estupro, mas, por insistência da gestora, minha mãe contou tudo”.

Mesmo com o depoimento da garota, a diretora reuniu os pais de Bianca e o motorista para esclarecer a denúncia, mas, com medo, a menor não teve coragem de assumir. “Não fizemos exame de corpo de delito e a diretora disse que era mentira minha, o acusado negava e por medo de comentários maldosos, minha mãe decidiu esquecer”. A garota ainda disse que o acusado a ameaçava dizendo que ela teria destruído a vida dele e fazendo pressão psicológica para que ela se sentisse a culpada.

Entre lágrimas e sentimento de culpa, Bianca sentiu sua vida ser destruída em um piscar de olhos. Foram anos de terapia, depressão, comentários de que a menor teria ‘seduzido’ o motorista, relacionamentos que não duraram e uma série de traumas que a vítima carrega até hoje. Como não houve denúncia, o ‘seguir em frente’ se tornou a única escapatória de Bianca, que afirma ter se arrependido de não ter denunciado antes. “Eu acreditei que ele gostasse de mim, mas me sinto estúpida ao pensar nisso, as pessoas precisam denunciar”, ressaltou. O agressor ainda continua trabalhando no colégio.

No vídeo abaixo, a jovem relata como tudo começou, o estupro e reação dos familiares, além da paixão pelo agressor.

O lado psicológico

Segundo a psicóloga Roseanne Albuquerque, apaixonar-se pelo abusador é conhecido como Síndrome de Estocolmo, que é quando a pessoa passa a ter simpatia ou sentimentos pelo agressor. “É uma maneira que a vítima encontra de proteger a própria vida, é um mecanismo de defesa. Isso acontece em situações de abuso físico, social, sexual ou sequestros. Há uma ideia de gostar e de proteger o abusador para manter a vida intacta e sentir-se amado”.

Além disto, a psicóloga ressaltou que a criança que sofreu abuso pode apresentar traumas para o resto da vida, como distúrbios do sono, na sexualidade, desconfiança, insegurança, problemas sociais, além de depressão ou até mesmo suicídio. “Caso não tenha sido feito um trabalho psicoterápico, a vítima pode deprimir a ponto de chegar ao suicídio”, comentou.

Se o abuso acontecer dentro da instituição de ensino ou por algum professor, por exemplo, a criança pode desenvolver apatia, ausentar-se das aulas e ter uma queda no rendimento escolar. “Ela passa a não ter alegria de viver, sem ter confiança naquele educador que deveria protegê-la e educá-la, no ambiente escolar isso pode atrapalhar os estudos e a formação da criança.”

Para a psicóloga, a família tem um papel fundamental de atentar em relação às possíveis mudanças dos filhos. É necessário que eles acompanhem o desenvolvimento do menor, olhando o que eles estão fazendo, com quem conversam e se estão reprimidos. “Se perceber alguma mudança no comportamento, é importante que os pais procurem ajuda especializada.”

Ela ainda acrescentou que a família deve denunciar o acusado e não varrer o caso para debaixo do tapete, por vergonha ou medo. “A postura adequada é denunciar sempre, não se omitir diante de tamanho absurdo, que é algo devastador na vida da criança e o abusador, muitas vezes, fica impune. Lembrando que o abusador está sempre próximo a família”, pontuou.

A psicóloga ainda ressaltou que o tratamento psicoterápico é um dos meios mais importantes para que a criança ou o adolescente se recupere e consiga ter uma história de sucesso. “A criança reprime e não quer contar, mas através de desenhos, tratamentos lúdicos, nós podemos perceber o que aconteceu e tratá-la da melhor forma possível”.

Ouça a entrevista completa com a psicóloga Roseanne Albuquerque

Abuso sexual em Maceió

Foto: Ingryd Rodrigues
Foto: Ingryd Rodrigues

O desafio de fazer barulho sobre casos assim é grande, como no caso de Bianca, a população maceioense ainda encontra certa resistência com relação ao assunto. É preciso conscientizar às famílias de que a cultura do abuso sexual é danosa em qualquer faixa etária: seja criança, jovem ou adulto, considerando a estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a escola é um dos locais com ocorrência do estupro, atingindo 2% de crianças e 1% de adolescentes de todo o Brasil.

Em Alagoas, não há como especificar quantos casos aconteceram dentro de um ambiente escolar, com profissionais da educação ou até mesmo se foi em escola pública ou particular. Os dados a seguir são de acordo com o Núcleo de Estatística e Análise Criminal (Neac) da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP), que registrou até o mês de setembro deste ano, 327 ocorrências de estupro de menores em geral, apenas na capital. Desses números, 140 foram com crianças de 0 a 11 anos e 135 de 12 a 17.

 Sem informar números, a conselheira tutelar, Valmênia Santos, contou que a região II recebe inúmeras denúncias de colégios particulares e públicos, principalmente de vítimas de escola pública. Segundo a conselheira, existe um artigo no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que diz que, a qualquer suspeita de abuso, a escola (pública ou particular) tem obrigação informar ao Conselho Tutelar.

“Recebemos várias denúncias de ambas as instituições, principalmente as escolas públicas. Quando recebemos as denúncias, podemos encaminhar a vítima para um Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREA), Delegacia da Criança e do Adolescente ou psicóloga”. Ainda de acordo com a conselheira, é obrigatório que as instituições acionem o conselho, embora as particulares prefiram resolver por elas mesmo.

Por outro lado, a Secretaria de Educação de Alagoas, por meio da assessoria de Comunicação, afirmou que não há casos de abuso em colégios públicos. Se isso acontecer, é aberto um processo administrativo contra o professor para que ele seja afastado.

Dentro da escola

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Foto: Joaquim Araujo

Tatiana*, 18 anos, também foi uma das crianças abusadas por um professor de Física de uma escola particular. As mãos na coxa da garota e beijos na bochecha já indicavam assédio que o acusado cometia. Além das carícias, ele a ameaçava dizendo que daria nota baixa para ela.

“Eu sentia muito medo de contar as pessoas e a minha família, então eu deixava que ele fizesse aquilo comigo porque eu pensei que ele contaria para alguém”, desabafou. Na época do ocorrido, Tatiana tinha 16 anos e era uma das melhores estudantes da instituição. Com jeito tímido, a vítima acreditava que o professor não chegaria a um ponto mais sério.

“Foi em um dia, dentro do estacionamento da escola, que ele me obrigou a fazer sexo oral nele e pegou nas minhas partes íntimas. Eu chorava e dizia que não queria, mas ele me mandava calar a boca e me forçava.”, contou.

A menor teve depressão e abandonou o último ano da escola. Não contou aos pais e nem aos amigos, dois anos depois relatou o caso para a reportagem na esperança de ajudar outras garotas que podem ser vítimas. “É preciso denunciar, não pense duas vezes, estou arrependida de não ter feito isso antes”, ressaltou.

Como denunciar?

O crime de estupro encontra-se no art.213 do Código Penal, configurando-se com a conduta de constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique o ato libidinoso. De acordo com o advogado Gutemberg Alencar, a pena de reclusão prevista vai de 6 a 10 anos. “É considerado crime qualificado se a vítima tiver idade entre 14 e 18 anos, com pena de reclusão de prevista de 8 a 12 anos. Vale lembrar que caso a vítima seja menor de 14 anos, nos termos do artigo 217-A, é considerado estupro de vulnerável, com pena de reclusão de 8 a 15 anos. Os incapazes previstos no paragrafo 1° do referido artigo também se enquadram como estupro de vulnerável”, alertou o advogado.

Ainda de acordo com o advogado, nos crimes sexuais de estupro, procede-se através de ação penal pública condicionada mediante representação do ofendido. “No caso da vítima de estupro ser menor de 18 anos ou vulnerável, procede-se mediante ação penal pública incondicionada, ação pública também titularizada pelo Ministério Público, sendo esta dispensada à manifestação de vontade da vítima ou de terceiros para ser exercida.

Caso o Ministério Público ou autoridade judiciária não tomem conhecimento de imediato da notícia de crime, o procedimento necessário para uma vítima de estupro menor de 18 anos é realizar a notícia crime pessoalmente, normalmente acompanhado de seus responsáveis, por meio de representação na delegacia ou mesmo no Ministério Público. “Será aberto um inquérito, apurado os fatos e instaurada a ação pública incondicionada, bem como realizado o exame de corpo de delito que é feito no Instituto Médico Legal (IML)”, afirmou Alencar.

Se o menor sofreu abuso sexual e não foi instaurada a ação pública incondicionada, a vítima pode oferecer denúncia ao completar 18 anos. “O depoimento de vítimas de estupro ou de assédio sexual tem grande valor como prova em uma ação judicial porque, em geral, são praticados na clandestinidade, sem a presença de testemunhas. No caso desses crimes serem praticados contra crianças e adolescentes justificam-se ouvir a vítima na modalidade do “depoimento sem dano”, por psicólogo, em sala especial, de modo a respeitar sua condição especial de pessoa em desenvolvimento”, finalizou o advogado.

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O sal do Chico

Seca e vazão de rio aumentam em mais de 240% casos de hipertensão em comunidades ribeirinhas

Texto de Rafaela Pimentel e Yasmin Assis

“O mar tá invadindo dentro do rio, água salgada mesmo. As ‘mulé’ vão lavar roupa, o sabão não quer espumar. Água pra beber aqui também ninguém pode pegar, só pra cima de Piaçabuçu. E agora tá muito difícil pra pessoa viver. De repente comecei a perceber que a água tava secando e rapaz, a gente vai fazer o quê? Ele não pode secar de vez porque nosso Senhor tá no céu né? Minha mulher fica reclamando, se tivesse mesmo que nem naquela época a gente vivia melhor”.

Pescador há 45 anos, José Amilton é morador do povoado de Potengy, no município de Piaçabuçu, e faz parte das mais de 270 famílias que sofrem com o processo de salinização do Rio São Francisco. O período de seca elevado e a vazão ainda mais reduzida transformam a água característica da região, que antes era doce, em salobra. Os impactos já são sentidos pela população ribeirinha com a interferência direta na qualidade de consumo e ameaça potencial na redução dos recursos.

Sem água adequada para o abastecimento diário e o sumiço das espécies antes encontradas no rio, o cotidiano dos moradores não tem sido mais o mesmo. A saúde é um dos fatores que mais afetam a comunidade. Ao lado de seu Zé, pelo menos outras 120 pessoas já sentem o resultado deste desequilíbrio ecológico com o diagnóstico precoce da hipertensão. Em apenas dois anos, de 2014 até 2016, o número de hipertensos aumentou em 240% entre os habitantes.

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E se o hábito alimentar deixa de ser a principal causa da hipertensão, o perfil dos pacientes também mudou. Os idosos, que por muito tempo foram os mais afetados pela doença, agora dividem o posto com jovens adultos e até mesmo adolescentes. A principal causa? O consumo e contato direto com a água imprópria para o consumo, agravado pela ausência de um sistema de abastecimento e um programa de saneamento básico eficiente.

Responsável por uma das duas microáreas de atendimento da região, a agente de saúde Suelli Soares revela que esta é a primeira vez, em 16 anos de trabalho, que testemunha um surto alarmante de ocorrência de hipertensos. Com uma média de cinco pessoas em cada casa e vivendo prioritariamente da pesca, as famílias se vêm sem alternativa. A aquisição de água filtrada é inviável e a única solução é tentar equilibrar o consumo intenso de sal por meio de medicações e assistências médicas semanais, como explica a profissional.

“Durante todo o tempo em que estou aqui nunca vi uma invasão tão forte do mar como temos hoje. De 2014 pra cá tudo mudou e o pior não temos como evitar. Ficamos de mãos atadas. As pessoas não têm condições de comprar água mineral para o consumo diário e a consequência disso percebemos diretamente na saúde da população. Em um ano saltamos de 19 para 39 casos de hipertensão, hoje já são 60 apenas na minha área. Não temos condição de estar nesse alarme e não fazermos nada”, lamenta Suelli.

Na programação da semana, as quartas-feiras, antes reservadas apenas para o atendimento de diabéticos, passam a ter agora um novo foco: hipertensos. Assegurados pelo Estado, os remédios controlados junto ao trabalho de conscientização educativa são as únicas garantias no apoio ao tratamento, já que em longo prazo nenhuma medida foi tomada pelos órgãos gestores.

 

Os grandes vilões

Considerado um dos maiores do Brasil com 2.830 km de extensão, o Rio São Francisco – carinhosamente chamado de Velho Chico – tem sofrido mudanças intensas em sua forma física. Liderado pela combinação da forte seca com uma vazão média liberada mais reduzida, o avanço da cunha salina nas águas do rio é cada vez mais constante, já que a água doce não tem força suficiente para retrair a água do mar. A mudança de habitat afeta não somente o abastecimento da população, como a altera o tipo de vegetação e fauna que ali vivem.

Desde 2013, o cenário já apontava para estas transformações. O período de estiagem que atingia o Nordeste deu inicio a uma sequência de restrições mais acentuadas na vazão liberada pelas barragens de Sobradinho e Três Marias, na Bahia. O escoamento normal médio estabelecido em 1.300m³/s caía para 1.100m³/s naquele ano e ao final de 2015 a queda foi intensificada para a marca dos 800m³/s, podendo chegar, se aprovado, ao limite de 700m³/s ainda em outubro de 2016, conforme determinação da Agência Nacional das Águas (ANA).

Pouco a pouco, estas novas diretrizes mudam a cara dos padrões originais no estuário do Rio São Francisco. Resultado da construção de barragens, a variabilidade natural associada às modificações no fluxo anual de água doce já não existem mais na região. Em consequência disto, o mar já avança até 6 km rio acima, como explica o oceanógrafo e professor de Geografia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Paulo Petter.

“Os impactos das barragens são geralmente associados aos transtornos causados pela criação do lago artificial. No entanto, não menos relevantes que estes resultados é a influência sobre a transferência de água e materiais para a zona costeira com alterações qualitativas e quantitativas, que vão desde a intrusão de água salina passando pela perda de fertilidade nos estuários até alterações dos ciclos biogeoquímicos”, salienta o professor Paulo Petter.

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Na tentativa de amenizar os problemas causados pela salinização do São Francisco, a Prefeitura de Piaçabuçu, por meio da Secretaria Municipal do Meio Ambiente busca o apoio dos governos estadual e federal. O primeiro passo foi a solicitação de uma análise de água junto ao Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), responsável pela gestão descentralizada dos recursos naturais como a proteção aos mananciais e o desenvolvimento sustentável. O processo já está sendo tocado pelo órgão, mas ainda não apresenta avanços.

Em paralelo a estas ações, a secretaria luta ainda frente ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) pela aprovação do Projeto Água Doce. A proposta é o apoio federal na aquisição de um dessalinizador para a região, já que atualmente o município ainda não conta com o serviço por alegar falta de recursos. O aparelho representa hoje a maior chance para os moradores voltarem a ter acesso mais uma vez à água potável.

“Temos buscado apoio de todos os lados. O conteúdo da água do nosso rio está sendo devidamente averiguado pelo Comitê para que possamos conduzir as próximas etapas. Ainda no mês passado estive em Brasília para firmar parcerias de uma possível compra de um dessalinizador, o projeto está em fase de análise e uma vez aprovado será uma grande ajuda para a nossa cidade. Sozinhos, infelizmente, não conseguimos fazer muita coisa”, lamenta o secretário municipal de Meio Ambiente, Milton Muniz.

Saneamento básico

Enquanto aguarda o inicio das atividades do Plano Municipal de Saneamento Básico ofertado pelo CBHSF, o povoado de Potengy, incluído recentemente no projeto, segue sem um plano de abastecimento adequado. Isso porque, o único órgão habilitado na região, a Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) alega ser responsável apenas pelo atendimento e monitoramento da zona urbana de Piaçabuçu e a comunidade de Mandim/Sudene, cabendo à prefeitura o suprimento específico dos ribeirinhos de Potengy.

Com avanços na fiscalização e supervisão do aumento da salinidade, a cidade de Piaçabuçu já conta com o implemento de uma paralisação obrigatória diária na captação das águas do Rio São Francisco liderada pela Casal.  “Todos os dias, os registros são fechados por 6h, para que assim a água captada possa ter potabilidade e ser adequada para consumo humano”, explica Eduardo Morais Júnior, chefe de núcleo do órgão no município.

(Des) Esperança

Nem maré grande, nem maré morta. Depois das repetidas alterações sofridas pelo fenômeno da cunha salina, fazer a distinção entre o que é água doce e salina virou uma tarefa inviável para os ribeirinhos. Viver da pesca também é um desafio. Os peixes e espécies de camarões tão característicos do Velho Chico como o Robalo, a Carapeba, a Tainha, e que atuavam como principal fonte de renda na região, estão sendo naturalmente substituídos por variedades de peixes de água salgada.

Filha de mãe e pai pescadores (e também hipertensos), a moradora Jailda Barbosa não acredita que viveria para ver tamanha mudança no povoado. Dependentes da água do rio para as atividades cotidianas – desde o banho, higiene bucal ao preparo dos alimentos – as famílias ficam sem saída diante da piora do desdobramento da invasão do mar e o desequilíbrio da natureza. Com a fonte de renda cada vez mais prejudicada, ter um cuidado especial com o consumo e tratamento é quase que impensável.

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“A gente até encontra peixe, mas peixe do mar. Não conseguimos usar água mineral o tempo todo. Tenho três filhos então quando temos condições compramos, mas na maioria das vezes acabamos consumindo água salgada mesmo, que é a única disponível para todos. Para nós que vivemos apenas desta atividade fica muito difícil, né? É continuar pescando, porque a única alternativa para um pescador é isso”, desabafa Jailda Barbosa.

 A esperança para os moradores de Potengy é a próxima quadra chuvosa. Sem o presente no rio, a água colhida é usada para o banho e a limpeza das roupas. Com o avanço do mar, a água já adquire um aspecto grudento, de nata, tornando-se inviável para uso. Os shampoos e detergentes já não espumam mais e o preparo dos alimentos ganhou um cuidado redobrado, sobretudo, na hora de temperar as refeições em casa.

“A vida era outra. Tínhamos comida na mesa, roupa lavada e água para beber, agora tudo mudou. Nada enxágua, saímos do banho nos coçando, os cabelos bem duros e ainda muito de nós ficamos doente com isso. Esse canal do sertão transformou as coisas por aqui, tiraram da gente para dar para eles, mas temos fé  que vamos voltar a ser como antes”, conta a dona de casa, Fátima dos Santos.

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Sonho, suor e feijão – a rotina de trabalho infantil em Maceió

Foto: Ingryd Rodrigues
Foto: Ingryd Rodrigues

Por Raíssa França e Ingryd Rodrigues

Aos 11 anos, o garoto de aparência simples já sabe o que vai ser quando crescer. “Quero ser jogador de futebol”, contou. As feridas nos pés marcam a alegria da infância de um menino que joga bola, cai, se machuca. Mas também são sinais da longa caminhada diária pelo centro da cidade em busca de compradores para o feijão de corda que sustenta a família.

Se a habilidade com os pés ainda exige dedicação e persistência, a habilidade com as mãos é visível e já bastante amadurecida. Trabalham com a agilidade de quem, desde muito novo, está acostumado a colocar o feijão em um saquinho e amarrar para vender.

Foto: Ingryd Rodrigues
Foto: Ingryd Rodrigues

Por enquanto, o sonho do menino vai ter que esperar. A rotina é puxada. Ele acorda todo dia às 4h da manhã para acompanhar a mãe, o padrasto, a avó e a tia no trajeto a pé do bairro do Vergel, onde mora, até o Mercado da Produção para separar os saquinhos e vender pelas ruas no centro da cidade.

Quem compra, pouco repara. A história do garoto já passa despercebida aos olhares das tantas pessoas que cruzam pelo seu caminho. O trabalho infantil é uma realidade. E em Alagoas, Estado cuja capital se apresentava como última colocada no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre as metrópoles do país, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a realidade é ainda mais desconcertante.

Foto: Ingryd Rodrigues
Foto: Ingryd Rodrigues

É possível, a todas as horas do dia e da noite, encontrar crianças trabalhando nos sinais, em frente a supermercados, vendendo doces dentro dos ônibus e perambulando pelas ruas para garantir o feijão de cada dia para a família, ou, como no caso do garoto – futuro jogador de futebol – vendendo feijão para garantir as outras refeições.

A mãe do garoto diz ter consciência de que o trabalho na infância pode prejudicar o desenvolvimento, e diz que o estudo também é prioridade. “Ele vende comigo, mas estuda. No horário da tarde, ele vai para casa almoçar e vai para aula”, disse a mãe. “Eu preciso pagar meu aluguel, minha comida e comprar uma sandália para ele, então tenho que vender feijão”. Segundo ela, com a venda, arrecadam por semana R$ 70 que, somados ao Bolsa Família, garantem a renda familiar. “Se não trabalhar, não tem o que comer”.

Foto: Ingryd Rodrigues
Foto: Ingryd Rodrigues

Ainda de acordo com ela é melhor que a criança esteja em sua companhia do que sozinha dentro de casa ou na rua com desconhecidos. “Não tenho com quem deixá-lo”. Mas, mesmo ao lado da mãe, os riscos podem acontecer. “Um dia, ele se perdeu. Nós só encontramos porque um rapaz levou até em casa, já que ele não sabe o caminho”, finalizou a mãe.

Dona Maria Aparecida trabalha há 24 anos com uma banca no Mercado da Produção. Apesar de discordar da prática dos pais, que colocam as crianças para trabalhar, está bastante acostumada a ver a cena no local.

(Assista ao vídeo da comerciante Maria Aparecida)

Fiscalização 

O Ministério Público do Trabalho de Alagoas tem o papel de fiscalizar os municípios e notificá-los caso haja trabalho infantil. Quando há notificações, o procedimento é buscar resolver as irregularidades sem envolver a justiça, por meio de procedimento promocional onde incentiva os municípios a adotarem ações educativas para acabar com a prática.

“Nós propomos que o município assine um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) de forma que ele se comprometa em coibir o trabalho infantil”, explicou a procuradora do MPT de Alagoas, Rosemary Lôbo e ainda acrescentou “as denúncias, muitas vezes, partem da sociedade que encontram casos e nos informam”.

Caso haja insistência das irregularidades, o MPT ajuíza ação Pública contra o município. “Eles podem pagar multas de acordo com o caso”, finalizou a procuradora. Segundo dados encaminhados pela assessoria do Ministério Público Estadual houve um registro de aumento do trabalho infantil em Alagoas.

Apenas de janeiro até março de 2016, o MPT recebeu 20 denúncias, o que proporcionalmente supera a marca de 2015, quando o órgão recebeu 72 durante todo o ano.

 

Fábio Medeiros
Fábio Medeiros/Raíssa França

Conselho Tutelar em parceria com MPT

O Conselho Tutelar recebe denúncias da população pelo disque 100 ou através de ações em parceria com o MPT. Conforme a conselheira tutelar responsável pela Região 2, que atende os bairros do Centro, Walmênia Santos, alguns casos são repassados diretamente para que o Conselho possa identificar o que está acontecendo. “Nós pegamos o endereço do local que está havendo exploração de trabalho infantil, o nome do responsável e encaminhamos para o Ministério Público”.

Em caso de denúncias, o MPT entra em contato com o Conselho para que o órgão possa se informar se a criança está estudando, se está recebendo os benefícios sociais. “É uma parceria entre o MPT e o Conselho, que andam lado a lado”, disse Walmênia.

Caso haja denúncias de exploração, o Conselho entre em contato com o pai ou mãe, dá uma advertência e comunica ao Ministério Público. “A lei diz que o adolescente só pode trabalhar a partir dos 14 anos, se for em condições de aprendiz, fora isso, abaixo da idade não pode trabalhar de nenhuma maneira, é preciso estudar para garantir o completo desenvolvimento”, disse a conselheira.

Se o menor não tiver família e nem responsável, em última instância, é feito um encaminhamento para que ele vá para um abrigo e comunica-se ao juiz. “É difícil acontecer isso já que o Estado não possui muitos abrigos voltados para esse tipo de situação”.

Na região 2 do Conselho Tutelar, em três meses – de janeiro a março – foram registrados 1.226 atendimentos em situações que envolvem abuso sexual, trabalho infantil e abandono.

Infância x Trabalho

Não bastassem os riscos de vida pela exposição nas ruas, o trabalho infantil compromete o desenvolvimento escolar, além de apresentar sérios riscos à saúde física, mental e social da criança.

A psicóloga Ana Éryka Guimarães alertou que a criança que trabalha em uma situação de risco está sujeita, além dos acidentes, a problemas de saúde devido ao excesso de trabalho. “Elas podem ter fadiga constante, irritabilidade, distúrbios do sono, respiratórios, queimaduras, entre outras”, pontuou, acrescentando que os danos psicológicos também podem ocorrer de várias maneiras. “Não há como especificar um, depende muito do trabalho que ela exercer”, comentou a psicóloga.

O lado social do menor também preocupa. “Eles são privados do estudo, do lazer e crescem sem perspectiva de vida futura, sem direito à escola, e é nesse processo que ela aprende a brincar. É também no brincar que a criança constrói sua personalidade”, explicou Ana Éryka.

Ouça aqui a entrevista com a Psicóloga

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Terça-feira 24 de dezembro de 2013. É véspera de Natal. Aquela seria uma noite incomum na casa de Sérgio. Toda a família estava reunida para um grande jantar. Diferente dos outros anos, ele decidiu celebrar apenas com a mulher Soraya e suas duas filhas. Tudo tranquilo e previsível. Enquanto ria da piada que acabara de contar, Sérgio teve um engasgo inesperado. Logo começou a ter dificuldade de respirar e de um simples refluxo involuntariamente aspirou a comida para o pulmão.  Em seguida, ele sofreu um acidente vascular cerebral (AVC).

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