A casa transformada em hospital

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O cotidiano de tristeza e limitações das famílias que utilizam o Home Care; serviço de assistência médica domiciliar não para de crescer em Maceió

homecare

 

Terça-feira 24 de dezembro de 2013. É véspera de Natal. Aquela seria uma noite incomum na casa de Sérgio. Toda a família estava reunida para um grande jantar. Diferente dos outros anos, ele decidiu celebrar apenas com a mulher Soraya e suas duas filhas. Tudo tranquilo e previsível. Enquanto ria da piada que acabara de contar, Sérgio teve um engasgo inesperado. Logo começou a ter dificuldade de respirar e de um simples refluxo involuntariamente aspirou a comida para o pulmão.  Em seguida, ele sofreu um acidente vascular cerebral (AVC).

Por repetidas vezes, a filha mais velha, Gabriela, fez respiração boca a boca enquanto esperava o socorro médico. Do momento da ligação para a emergência até a chegada da ambulância, Sérgio ficou 40 minutos sem oxigenação no cérebro.

Já na UTI do hospital, os 126 dias da família foram preenchidos pelas longas horas de espera e a esperança cada vez mais distante de uma recuperação. Mesmo sem falar, sem conseguir se mexer ou reconhecer alguém, o quadro dele era estável e mantê-lo internado já não fazia sentido. Assim, como os mais de 500 casos existentes em Maceió, a família Pimentel foi mais uma que recebeu a indicação dos médicos para continuar o tratamento em casa através do serviço de assistência domiciliar, conhecido como Home Care. A partir daí, médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e técnicos de saúde passaram a frequentar diariamente a casa de Sérgio.

As empresas de Home Care, antes pouco reconhecidas e sem muita credibilidade, se multiplicaram e começaram a ganhar força na capital alagoana. Há 15 anos, a Unimed, através do sistema de Unicare, foi quem deu a largada inicial desse novo “negócio” e não demorou muito para que outras empresas privadas também quisessem participar, terceirizando o seu serviço para os convênios de saúde. Hoje, além da pioneira Unicare, outras cinco empresas entraram numa espécie de disputa pelos pacientes.

Mas o preço do serviço personalizado é alto. Para quem tem plano de saúde, superar a burocracia não é tarefa fácil.  A maioria, como a família de Sérgio, precisa levar a decisão para a Justiça na tentativa de acelerar o procedimento; outros, como dona Ana, hoje com 96 anos e portadora de Alzheimer, chegam a receber alta do hospital antes mesmo dos convênios liberarem o serviço. “Foi quase desumano o tempo que nos fizeram esperar”, conta Gabriela Pimentel, filha de Sérgio. “No começo o plano recusou o nosso pedido e levaram mais dois meses para conseguirmos a liberação com o juiz”.

Quarto - Sérgio 5

Entra e saí de médicos, enfermeiros….

Instalado o Home Care, a rotina se transforma bruscamente. As horas de dormir, comer e acordar já não são as mesmas. Várias vezes ao dia as famílias precisam conviver com as visitas médicas sem horário marcado, entradas e saídas de técnicos no meio da noite e entregas de medicamentos e materiais a qualquer momento.  É uma vida regrada. Passeios comuns tornam-se cada vez mais raros e o cotidiano cheio de privações.

As paredes quase sempre brancas com os medicamentos organizados nas estantes e as bombas de oxigênios no canto do quarto parecem definir o ritmo das casas. As televisões ligadas, as músicas mais altas e as conversas animadas aos poucos dão lugar para a calmaria e o silêncio.

Comum na vida de dona Ana, o cotidiano tranquilo não foi uma novidade. Mas quem via artesã sempre ativa, em meio às rendas e tricôs na sua casinha no Pontal da Barra, não imaginaria que um dia ela ficaria dependente dos cuidados dos filhos. Vítima de dois AVCs, Dona Ana precisou ser levada às pressas para o hospital e depois de quatro meses internada e com apenas alguns movimentos recuperados, os médicos já recomendavam o serviço de assistência domiciliar. Voltar para casa sozinha não era mais uma opção para ela.

Eduardo, o filho do meio da família Silva, foi quem tomou a frente das decisões e logo começou a procurar no seu convênio de saúde o que precisava ser feito para a instalação do Home Care. Como se não fosse suficiente a própria dificuldade em conseguir a liberação do atendimento, que demorou mais de trinta dias, nenhum dos quatro irmãos de Eduardo estavam dispostos a receber Dona Ana em casa. Nessa época, ele morava com sua irmã Eva enquanto as obras da sua casa não terminavam.

Sem opção, a responsabilidade acabou ficando por conta dela. Mas bastaram dois meses de convivência para que o relacionamento entre Eva e a mãe se transformasse em antipatia. Inconformado com a situação, Eduardo não mediu esforços para acelerar as reformas de sua casa e levar Ana para ficar sob seus cuidados. “A vida caseira nunca foi um problema pra mim”, revela Eduardo. “Meu tempo hoje é todo dedicado a acompanhar visitas médicas, comprar remédios, mas é um prazer ter a oportunidade de estar perto da minha mãe quando ela mais precisa”.

Com atendimento clínico, fisioterapia diária e tratamento de fonoaudiologia, Dona Ana passou a ter uma vida cheia de limitações e aos poucos sem lembranças. Fora as sequelas do AVC que acabaram comprometendo alguns movimentos e também a fala, o Alzheimer foi mais uma surpresa para a família. Aos poucos Ana foi perdendo a consciência e a sanidade e são raras as vezes que hoje ela reconhece seu próprio filho.

Mais do que ser tratado como desconhecido pela mãe e se habituar a uma vida solitária, Eduardo começou a ter outras preocupações: as despesas ficavam cada vez mais altas. Com técnicas de plantão a cada 12h, muitas roupas, panos e lençóis para lavar, as contas de luz e energia triplicaram e as idas ao supermercado passaram a ser semanais. Para piorar, o serviço de Home Care não cumpria com todos os gastos prometidos e a compra de muitos medicamentos acabava ficando por conta da família.

A contrapartida quase nunca existiu. O alto padrão que a empresa tanto pedia no momento da liberação do serviço não era compatível com o trabalho que estava sendo oferecido. De um lado, os clientes se adaptavam a uma série de exigências e mudanças na própria casa; do outro a empresa não conseguia garantir o atendimento como fora, de fato, proposto.

Quarto - Dona Ana 3

Os dois lados do Home Care

Humanizar e aumentar as possibilidades do tratamento hospitalar. Burocracias excessivas dos convênios e técnicos despreparados. Os benefícios e as dificuldades do serviço andam juntas.  As vantagens começam com a redução de 90% dos riscos de infecção que normalmente podem ser adquiridas nos hospitais. Outro grande atrativo é a perda da obrigação dos cotidianos de visitas e revezamentos da internação.

Os ganhos fizeram com que a evolução do serviço acontecesse naturalmente, principalmente com o aumento do número de pacientes crônicos. A proposta é promover planos terapêuticos específicos dentro do conforto do lar e para isso o Home Care oferece dois programas diferenciados. Para os casos de menor complexidade, o Programa de Acompanhamento Domiciliar (PAD) presta atendimento e orientações técnicas para procedimentos pequenos; nele não há uma assistência diária, a família ou os cuidadores que ficam responsáveis pelo paciente.

Já em casos de alta e média complexidade, o Programa de Internação Domiciliar (PID) é o mais adequado. Podendo variar em regimes de 6h, 12h e 24h, além de disponibilizar o material médico do hospital, desde a cama até a bomba de oxigênio, o PID oferece também serviço de UTI móvel, exames simples na própria residência e transporte para deslocamento de outros procedimentos mais pontuais.

Atualmente, algumas empresas de assistência domiciliar já oferecem duas novas opções de atendimento: a motorização de Home Care e o Home Care Prevent. O primeiro é voltado para pacientes que tenham potencial de risco, mas que não precisam de um acompanhamento frequente, podendo receber visitas médicas a cada dois ou três meses. Enquanto que o modo Prevent, como o próprio nome sugere, realiza o tratamento preventivo, como aplicações de vacinas ou em casos pós-operatórios que dependem de medicamentos injetáveis.

“Como a quantidade de empresas privadas estava crescendo, foi importante o processo de diversificação e ampliação do atendimento, para garantir mais qualidade ao serviço”, conta José Fernandes, médico e diretor da Clinilar. “Eu trabalho com isso há quase 20 anos e os benefícios como a desospitalização mais rápida tem atraído um número cada vez maior de pessoas. A tecnologia avançou muito e por isso a segurança e a confiabilidade no Home Care cresceram drasticamente”, afirma.

Quarto - Seu Cícero

Desconhecidos e despreparados

Se por um lado as famílias ganham em conforto e comodidade com o trabalho do Home Care, por outro a perda da privacidade é um dos elementos mais invasivos desse processo. Em média são cinco técnicos de enfermagens que se revezam em plantões de 12h, mais uma série de profissionais que fazem visitas diárias, sem contar com entregas semanais de medicamentos e materiais.

São pessoas desconhecidas, com diferentes costumes e valores frequentando cotidianamente um novo ambiente. Os problemas de convivência logo começam a aparecer, seja na rejeição às técnicas de enfermagem pelo seu tom de pele ou até mesmo reclamações de que profissionais dormiram durante o turno de trabalho. Com razão ou não, são muitas as dificuldades de relacionamento que surgem e elas são inevitáveis.

Há quase dois anos com a assistência domiciliar, Eduardo precisa lidar diariamente com o despreparo de profissionais. Já nos primeiros meses de Home Care, o filho de dona Ana se deparou com técnicos que não sabiam sequer manusear materiais como um simples aparato de dieta – sua mãe chegou a ficar mais de 40 minutos sem se alimentar – até enfermeiras com atendimentos muito robóticos e sistemáticos.

Com a família Pimentel não foi diferente. Entre preconceitos, muita arrogância e até caso de roubos dentro da própria casa, a dificuldade em conviver com pessoas de comportamento, valores e condutas diferentes ainda é um desafio diário. No total, foram 15 cuidadoras e mais de 20 pedidos de troca de técnicos de enfermagem, desde o período de internação no quarto do hospital até a liberação do serviço de assistência domiciliar.

Nesse momento, a adequação de cada casa é fundamental para que se entenda se a família está, de fato, preparada para receber o Home Care. O perfil crônico dos pacientes em muitos casos não é suficiente para a aprovação do atendimento domiciliar.  “Paralela às avaliações dos médicos e enfermeiras que interessa aos convênios, nós analisamos as condições estruturais do local e tentamos visualizar a questão emocional e social de cada família”, explica a assistente social da empresa Clinilar, Emanuelle França.

 

 

Obstáculos da desospitalização

Outro ponto que chama a atenção para o Home Care são as baixas estatísticas de alta, que variam em média de dois a três casos por ano. Apesar de potencializar o processo de desospitalização, é muito comum encontrar pacientes que estejam sob o cuidado domiciliar há mais de cinco anos, por exemplo. Na maioria das vezes, o desligamento da assistência não acontece de maneira tão fácil.

Acostumados com a atenção e a cobertura das despesas financeiras, algumas famílias não aceitam que o doente está pronto para seguir sem aquele serviço e acabam levando o problema para ser decidido na justiça. Contudo, no final, quem sai perdendo são os pacientes que tentam conseguir a liberação do Home Care. Nesses casos, o dinheiro que seria direcionado para estes novos integrantes é usado para manter aqueles que já tinham condição de receber alta médica.

Cada vez mais rotineira, a situação leva os convênios de saúde a dificultarem a autorização do serviço. Alguns, como a Bradesco Saúde hoje em dia só aprova o recurso mediante a justiça. “Todo o processo do pedido até a liberação do Home Care foi muito desgastante”, conta Gabriela Pimentel, filha de Sérgio. “Todas as manhãs, depois de dormir com meu pai no hospital eu ainda precisava ir a Defensoria Pública para tentar agilizar o procedimento. Foram mais sessenta e nove dias de espera”, destaca.

Para lidar com o impasse, as empresas tem procurado administrar o problema antes mesmo de comunicar a decisão para as famílias. “Hoje, apenas 5% dos nossos pacientes são procedentes de liminar judicial”, conta Geraldo Liberal, diretor administrativo da Saúde e Suporte.  “Temos profissionais preparadas trabalhar com esses casos específicos, desde psicólogas que acompanham todo o processo de internamento junto à família até assistentes sociais para fazer o intermédio de alguma situação”, conclui.

Com uma resolução própria desde 2006 – RDC/ANVISA Nº11 – que garante os requisitos mínimos para o funcionamento do serviço, o Home Care tem alcançado grandes transformações. Se no inicio o desafio estava em romper as barreias junto às famílias de que o tratamento domiciliar era uma importante saída para tirar o paciente do hospital, hoje a situação se inverteu e já são elas que procuram por contra própria os planos para a aquisição do serviço.

Em Maceió, a Unicare foi a grande responsável pelo amadurecimento da cultura de assistência domiciliar na região. Promovendo reuniões com as famílias a fim de repassar a consciência da atuação do serviço, incluindo seus benefícios e privações, a instituição deu o impulso que precisava para a disseminação da prática do Home Care entre os planos e as instituições privadas.

Quem também teve um papel importante na consolidação do atendimento foram as cooperativas de técnicos de saúde que hoje completam o quadro de atividades presentes no sistema de Home Care. Para cada residência são escalados em média quatro técnicos fixos e mais um coringa para situações emergências, que aos poucos vão sendo selecionados pelas famílias de acordo com a necessidade e adequação de cada paciente.

Cada vez mais comum entre os casos de assistência domiciliar, os pedidos de troca de profissionais já fazem parte da rotina de muitas famílias, que ficam receosas diante da falta de experiência que alguns técnicos apresentam. O ensino muito teórico e as raras oportunidades práticas durante o período de formação acabam lançando no mercado profissionais pouco qualificados e instruídos.

“Eu tenho um diálogo bem aberto com a empresa de Home Care, sempre pedi para não me mandar pessoas desqualificadas, mas essa não é a realidade”, relata Eduardo. “Já chegou técnico na minha casa que não sabia sequer aferir a pressão da minha mãe, outros não conheciam a bomba de aspiração. É inaceitável que existam profissionais que não conseguem lidar com situações básicas, eu não tenho a obrigação de saber fazer o trabalho deles”, ressalta.

Das dificuldades às contradições

Responsável por promover treinamentos mensais desde o uso de equipamento e aparatos até realização de procedimentos, muitas cooperativas acabam negligenciando essa função. Não há nenhum tipo de exigência para que os técnicos de enfermagem participem da atividade; muitos, inclusive, começam a acompanhar um paciente antes mesmo de passar por uma capacitação prévia.

Mal preparados, não são poucas as ocasiões em que os profissionais não sabem manusear determinado material ou mesmo realizar procedimentos básicos, como a troca de curativos. “Eu já presenciei casos em que o técnico não sabia utilizar um medicamento correto no paciente, como aplicar xilocaína, substância que provoca dormência, sob as escaras, que é um local de ferimento”, conta Célia Cavalcante, que trabalha como cuidadora há mais de quinze anos.

Em contrapartida, a má qualificação dos profissionais vem acompanhada da falta de assistência por parte das clinicas de Home Care, que nem sempre prestam o atendimento adequado. Seja no auxílio a determinado técnico durante intercorrências ou nas longas demoras para enviar medicamentos, o serviço acaba dificultando o tratamento dos pacientes e, em muitos casos, até chega a comprometer a realização de procedimentos.

Com cinco escolas para técnicos de enfermagem apenas em Maceió, atualmente são mais de 9 mil pessoas trabalhando para empresas de cooperativa em todo o Estado. Ganhando em média R$ 50 por cada escala de doze horas, não há um número máximo de plantões estabelecidos, eles são distribuídos e pré-determinados de acordo com a escolha de cada técnico.

Os exageros acabam interferindo na qualidade do trabalho prestado. As reclamações são constantes e elas vão desde profissionais que dormiriam durante o expediente até aqueles que estavam tão cansados ao ponto de não conseguirem desempenhar os procedimentos de maneira correta. Marcos da Silva faz parte deste grupo. Em dois anos atuando no sistema de Home Care ele já chegou a fazer 40 plantões semanais.

Depois de passar por turnos dobrados, trabalhados seguidos entre uma residência e outra, hoje Marcos garante que não vale mais a pena terminar o mês com um salário um pouco mais alto em detrimento do bem-estar do paciente. “Aos poucos a dinâmica das cooperativas está mudando. Os novatos, por exemplo, só podem participar de plantões acompanhados de algum técnico mais experiente, o que ajuda muito na qualidade do atendimento”, revela Marcos.

Mais detalhado e exclusivo do que o trabalho oferecido nos hospitais, a assistência domiciliar promove um acompanhamento diferenciado, na medida em que os pacientes recebam a dedicação total dos técnicos de saúde. A aproximação junto à família acaba sendo natural e fica difícil não se apegar a cada história de uma forma diferente.

Foi o caso de Dona Fátima. Portadora de Esclerose Lateral Amiotrófica, ela foi uma das pacientes mais antigas da assistência domiciliar. No diagnóstico, os médicos lhe davam no máximo quatro anos de vida, mas foram dezoito anos lutando com a doença e em sete deles sob os cuidados do Home Care. Acompanhando por um ano o quadro, a técnica Rafaela Pereira foi de profissional à amiga e foi ela quem precisou dar a notícia à família quando Fátima faleceu.

O lado pessoal e profissional muitas vezes se confunde. “Só uma pessoa sem coração não se envolve e fica indiferente diante da perda de um paciente”, conta Rafaela. “Quando dona Fátima morreu eu senti muito a perda dela, mesmo sendo uma pessoa difícil de lidar, nós desenvolvemos uma confiança muito grande”. Depois do falecimento da paciente, Rafaela precisou de uma semana afastada dos plantões para se recuperar.

Quarto -Seu Cícero 3

Do lado de quem cuida

Seja representado por um integrante da família ou um profissional contratado, os cuidadores também são figuras presentes no sistema de assistência domiciliar. Motivados pelo amor às pessoas ou pela simples necessidade de ter um emprego, a verdade é que a dinâmica do Home Care não seria eficiente sem a presença diária destes cuidadores.

Com uma irmã enfermeira, o universo dos hospitais entrou naturalmente na vida de Maria José. Sem formação e com pouco estudo, Dona Gil, como é conhecida, começou ajudando a tomar conta de alguns pacientes ainda no hospital e hoje já está há mais de 35 anos trabalhando com pessoas que recebem tratamento em assistência domiciliar.

Em seu nono paciente, o bom relacionamento com as famílias e a amizades que ganhou sempre marcaram as experiências de Dona Gil. “Até hoje mantenho contato com alguns pacientes, os laços que a gente cria eu vou levar para a vida inteira”, conta. “Não me imagino de outra forma, cuidar de pessoas é o que sei fazer de melhor, conheci famílias maravilhosas. São vivências que a gente não esquece”.

Diferente de Gil, Célia Cavalcanti entrou no sistema de assistência domiciliar meio por acaso. Recém-chegada a Maceió, ela recebeu a indicação de uma amiga para trabalhar com uma senhora que tinha Alzheimer, mas a convivência entre as duas era complicada. Entre momentos de agressão, muitas ofensas e discussões foram dez anos de tratamento e também companheirismo; de paciente, Dona Sônia passou a ser sogra de Célia.

Foram oito anos de Home Care. Em 2010, Sônia acabou falecendo e desde então, a pedidos do marido, Célia não teve mais nenhum paciente. Contudo, em 2014, o convite para trabalhar com a família Pimentel trouxe de volta a rotina como cuidadora para o seu dia a dia. Depois de um ano, além de um paciente a cuidadora ganhou também uma amiga. Os momentos de conversa e acima de tudo a confiança depositada em Célia ajudaram muito a esposa de Sérgio, Soraya, a lidar com os problemas que surgiam com o Home Care.

Nos dias do plantão de Célia, os descansos e até mesmo as saídas acontecem sem tanta preocupação. Aos poucos ficava mais fácil retomar as atividades do dia a dia, mesmo que o pensamento fique sempre em casa com Sérgio. “Hoje depois de quase dois anos de Home Care eu consigo fazer coisas como ir ao supermercado ou visitar minha mãe. Mesmo que sejam programas rápidos, é uma grande ajuda quando preciso organizar a rotina ou só um tempo para me distrair”.

Hoje com 9kg a menos, dormindo no máximo 5 horas por dia e com muitas contas extras pra pagar, Soraya conta que a pior parte é não poder fazer nada para mudar a situação. “É muito triste para nós que convivamos com ele, ver como o Sérgio era antes super ativo e hoje saber que ele não consegue nem falar”, desabafa. “Não sei se estou preparada para o que possa acontecer com ele, mas enquanto eu puder ficarei ao lado dele em todos os momentos”.

 

 

Autora: Rafaela Pimentel. Sexto período de Jornalismo -Unit.

Natália Belém

Uma simples garota com alma internacional que ama escrever e estuda Publicidade e Propaganda.

  • Elaine Leal

    Estou a menos de 1 mês com Home Care em casa e digo: não é nada fácil! Mas seria pior sem este serviço, pois como cuidaríamos da paciente em tempo integral?